                                Eleanor H. Porter.


Pollyanna cresceu.  agora uma encantadora adolescente, amada por todos os que com
ela aprenderam o famoso 'Jogo do Contente'. Sua fama de pessoa especial vai alm dos
limites de Beldingsville, a cidadezinha onde vive com a Tia Polly. Pollyanna recebe um
  convite especial para passar uma temporada em Boston. Algum de l precisa muito
   dela. Nesta continuao de suas aventuras, Pollyanna no ir apenas conviver com
   pessoas fascinantes e conquistar novas amizades, mas tambm encontrar o amor e
 conhecer a inquietao, as dvidas e as emoes de tirar o flego pelas quais passam
                               todas as jovens apaixonadas.




                                Pollyanna Cresce
                               Eleanor H. Porter.
                                  Coleo Azul.
                         Editorial Publica, Lisboa, 1991.
                                 Infanto-Juvenil.
    Esta obra foi digitalizada sem fins comerciais e destinada unicamente 
leitura de pessoas portadoras de deficincia visual. Por fora da lei de direitos
 de autor, este ficheiro no pode ser distribudo para outros fins, no todo ou
                       em parte, ainda que gratuitamente.




Pollyanna Cresce
Composto e impresso por
Printer Portuguesa, Indstria Grfica, Lda. Mem Martins - Sintra
Para A Editorial Publica, Com Sede Na Avenida Poeta Mistral, 6-b - 1000
Lisboa
Maro de 1991
Traduo de Joo Sargao
Adaptao de Antnio M. Francisco
Capa de Jos Antunes
Editorial Publica




     Digitalizao e Correo: Dores Cunha
     Formatao: Ctia Alencar
   1. Della diz o que pensa

Della Wetherby dirigiu-se decididamente para casa da sua irm, na Commonwealth
Avenue,e tocou energicamente  campainha. Da cabea aos ps irradiava sade,
competncia e deciso. At a sua voz vibrava com a alegria de viver, ao cumprimentar a
criada que lhe abriu a porta.
- Bom dia, Mary. A minha irm est em casa?
- Sim, minha senhora, Mrs. Carew est em casa.
- hesitou a rapariga -, mas deu ordens para no deixar entrar ningum.
- Ah sim? Mas eu no sou qualquer pessoa! - sorriu Mrs. Wetherby. - Portanto ela h-
de receber-me. No se preocupe, porque eu responsabilizo-me. Onde est ela, na sala
de estar?
- Sim, minha senhora, mas...
Miss Wetherby, no entanto, j ia a meio caminho das escadas, e a criada, com
expresso de desespero, desistiu. J no hall, passou atravs de uma porta semi-aberta e
bateu.
- O que , Mary? - ouviu-se uma voz aborrecida. - Ah,  a Della! - ouviu-se a mesma
voz completamente modificada, cheia de calor e surpresa. Minha querida irm, donde
vieste?
- Sim, sou eu - sorriu a jovem, j dentro da sala.
- Fui passar o Domingo com duas outras enfermeiras, e agora estou de regresso ao
Sanatrio. No me demoro. Vim s dar-te um beijo.
Mrs. Carew fez uma expresso triste e retraiu-se com alguma frieza. O ar de alegria
que, por momentos, se lhe espelhara no rosto, tinha desaparecido.
- Claro! Devia ter calculado, tu nunca c pras!
Della Wetherby riu, estendendo-lhe as mos; a seguir, de repente, a sua voz e os seus
modos alteraram- se. Olhou para a irm com seriedade e ternura e disse delicadamente:
- Querida Ruth, bem sabes que no consigo viver nesta casa.
Mrs. Carew olhou para ela irritada, protestando:
- No sei porqu!
Della Wetherby abanou a cabea, explicando.
- Sabes sim, querida. Sabes que no sinto afinidade nenhuma com tudo isto: o
ambiente, a falta de objetivos, a tua insistncia na tristeza, na amargura.
- Mas eu sou triste e amargurada.
- Mas no devias ser!
- Porque no? Que razes tenho para no ser assim?
Della Wetherby fez um gesto de impacincia e continuou:
- Olha Ruth, tens 33 anos. Tens boa sade, devias ter, se tratasses bem de ti; dispes
de muito tempo e ainda mais de dinheiro. Devias arranjar alguma coisa para fazeres
nesta manh maravilhosa ao contrrio de ficares aqui sentada e encafuada em casa,
ainda por cima dando ordens  criada para no deixar entrar ningum.
- Mas eu no quero ver ningum!
- Olha, eu havia de arranjar maneira de querer. Mrs. Carew olhou constrangida e virou
a cabea.
- Oh! Della, porque  que nunca me compreendes? Eu no sou como tu. No consigo
esquecer...
Uma expresso compreensiva passou pelo rosto da irm.
- Referes-te a Jamie? Se , no me esqueo, querida, mas anichares- te em casa, no te
ajudar a encontr-lo.
- Como se eu no tivesse j tentado encontr-lo durante oito longos anos, sem ficar
metida em casa! respondeu prontamente Mrs. Carew indignada, com um soluo na
voz.
- Claro que sim, querida - atalhou a outra rapidamente - e vamos continuar a procur-
lo, as duas, at o encontrarmos ou morrermos. Realmente este ambiente no ajuda
nada.
- Mas eu no quero fazer mais nada - murmurou Ruth Carew, desgostosa.
Fez-se silncio por momentos. A irm mais nova sentou-se a olhar para a outra com
uma expresso preocupada e reprovadora.
- Ruth - disse ela por fim, com alguma impacincia -, desculpa-me, mas ser que vais
continuar sempre assim? Reconheo que s viva, contudo, a tua vida de casada durou
apenas um ano e o teu marido era muito mais velho que tu. Esse breve ano, agora, no
pode contar muito mais do que um sonho. Decerto no vais ficar amargurada toda a
vida!
- No, no murmurou Mrs. Carew desgostosa.
- Ento vais ficar sempre assim?
- Se eu conseguisse encontrar Jamie.
- Sim, eu sei. Porm, minha querida, no haver mais nada no mundo que te possa
fazer feliz sem ser o Jamie?
- Acho que no - suspirou Mrs. Carew, com indiferena.
- Ruth! - exclamou a irm quase zangada.
Depois, riu de sbito e adiantou: - Oh! Ruth, Ruth,como gostava de te dar uma dose
de Pollyanna! No conheo ningum que precise tanto disso!
Mrs. Carew endireitou- se um pouco.
- No fao ideia do que seja isso da Pollyanna mas, seja o que for, no quero -
retorquiu ela rispidamente. - Isto no  o teu querido Sanatrio e no sou uma doente
tua a quem ds remdios e ordens. Por favor, lembra-te disso.
Os olhos de Della Wetherby brilharam, mas a boca manteve-se sem sorrir.
- Pollyanna no  um remdio, minha querida - disse ela com ar srio - se bem que j
ouvisse algumas pessoas chamarem-lhe tnico. Pollyanna  uma menina.
- Uma criana? Como podia eu saber? - respondeu a outra, ainda com alguma
amargura. - Tu tens a tua "beladona", portanto era natural que tivesses alguma
"Pollyanna". Alm disso, ests sempre a aconselhar-me a tomar alguma coisa, e como
disseste distintamente "dose" e dose significa normalmente remdio.
- Bom, Pollyanna  uma espcie de remdio - sorriu Della. - So os mdicos do
Sanatrio que dizem, todos, que ela  melhor do que qualquer remdio que possam
receitar.  uma menina, de 12 ou 13 anos, que esteve no Sanatrio durante o Vero
todo e que l passou a maior parte do Inverno. Eu s estive com ela um ms ou dois,
porque se foi embora depois de eu chegar. Foi, no entanto, o suficiente para me tocar
com o seu encanto. Alm disso, todo o Sanatrio continua a falar de Pollyanna e a
jogar o jogo dela.
- Jogo?
- Sim - assentiu Della, com um sorriso curioso.
- Era o "Jogo do Contentamento". Nunca me hei-de esquecer desse jogo. Consiste em
procurar algo que d contentamento em tudo o que nos acontece. Pollyanna achou que
era um jogo engraadssimo e joga-o sempre. E quanto mais difcil  encontrar alguma
coisa que d contentamento, mais divertido o jogo se torna, ainda que, por vezes, seja
horrivelmente difcil.
- Mas que interessante! - murmurou Mrs. Carew que ainda no tinha compreendido
bem.
- Havias de ver os resultados desse jogo no Sanatrio. E o Dr. Ames diz que ela
revolucionou a cidade inteira de onde veio, exatamente da mesma maneira. Ele conhece
muito bem o Dr. Chilton, o homem que casou com a tia de Pollyanna. E, a propsito,
creio que esse casamento foi um dos seus feitos. Ela resolveu uma velha birra de
namorados que havia entre eles. Sabes,  que h dois anos ou mais, o pai de Pollyanna
morreu e a menina foi enviada para o Este, para casa da tia. Em Outubro foi
atropelada por um automvel e disseram-lhe que nunca mais poderia voltar a andar.
Em Abril, o Dr. Chilton mandou-a para o Sanatrio e ficou at Maro, durante quase
um ano. Regressou a casa praticamente curada. Ai,se visses a menina! S houve uma
coisa que ensombrou a felicidade dela.  que no pde ir a p at  casa. Parece que a
cidade inteira a foi receber com bandeiras e fanfarras. Digo-te,  quase impossvel falar
de Pollyanna.  preciso conhec-la. Por isso que te digo que devias receber uma dose
de Pollyanna. Fazia-te bem, de certeza.
Mrs. Carew levantou um pouco o queixo.
- Devo dizer que estou um pouco em desacordo contigo - respondeu ela friamente. -
No estou interessada em ser "revolucionada" e no tenho nenhuma birra de
namorados para resolver. E no haveria nada que me fosse mais detestvel do que ter
uma menina presunosa que me dissesse o que eu devia pensar. Nunca suportaria. - e
foi interrompida por uma sonante gargalhada.
- Oh! Ruth, Ruth! A Pollyanna presunosa! S gostava que a conhecesses agora! Eu
bem sabia que era difcil falar de Pollyanna. Assim,  claro, no ests preparada para a
conhecer. Mas presunosa  que ela no ! - e desatou outra vez a rir. Porm, logo a
seguir, olhando a irm com ar preocupado, prosseguiu: - A srio, minha querida, no se
pode fazer nada? Acho que no deves desperdiar a tua vida desta maneira. Porque no
sais mais e visitas outras pessoas?
- Mas porqu, se no me apetece? Estou cansada das pessoas. Sabes que a sociedade
sempre me aborreceu!
- Ento porque no tentas algum trabalho em prol do prximo?
Mrs. Carew fez um gesto de impacincia.
- Minha querida Della, eu j passei por isto antes. Dou muito dinheiro e isso 
suficiente. No sei bem quanto, mas se calhar at  demais. No acredito em gente
pobre.
- Eu quis dizer dares um pouco de ti prpria, querida - atreveu-se Della,
delicadamente. - Se te conseguisses interessar por alguma coisa exterior  tua prpria
vida, isso ajudar-te-ia muito!
- Olha, minha querida Della - interrompeu a irm, gravemente -, gosto muito de ti e
prezo que venhas c, mas falta-me pacincia para te ouvir dizer o que devo fazer. A ti,
assenta bem fazeres o papel de anjo-da-guarda e tratares dos doentes, e talvez tu con-
sigas esquecer o Jamie dessa maneira. Mas eu no consigo. Tudo isso me faria pensar
ainda mais nele, martirizando-me por no saber se tem algum a cuidar dele. Alm
disso, ser-me-ia muito desagradvel o fato de ter de me misturar com todo o gnero de
pessoas.
- J alguma vez tentaste?
- Claro que no! - respondeu Mrs. Carew indignada.
- Ento como podes saber sem experimentares? perguntou a jovem enfermeira,
levantando-se aborrecida.
- Tenho de me ir embora. Vou ter com as minhas colegas na South Station. O nosso
comboio parte ao meio-dia e meia. Desculpa se te fiz zangar - concluiu ao despedir-se.
- No estou zangada,Della - suspirou Mrs Carew -, mas gostava que me
compreendesses!
Della Wetherby saiu logo. O seu semblante, os seus passos e modos eram bem
diferentes daqueles com que tinha entrado uma hora antes. Toda a vivacidade e alegria
de viver tinham desaparecido. Ao longo de meio quarteiro quase arrastava os ps.
Depois, de repente ergueu bem a cabea e respirou fundo.
- Se passasse uma semana naquela casa morria. Acho que nem sequer Pollyanna
conseguiria desfazer aquele ambiente! E a nica coisa que arranjaria para ficar contente
seria no ter de l ficar.
Tal descrena na capacidade de Pollyanna para alterar o estado das coisas na casa de
Mrs. Carew no co respondia exatamente  opinio de Della Wetherby.
Isso acabou por se revelar a curto prazo, pois a enfermeira mal tinha chegado ao
Sanatrio quando soube de algo que a fez percorrer de novo a viagem de 80 kms at
Boston, logo no dia a seguir.
Tal como anteriormente, ela percebeu que Mrs. Carew no sara de casa desde que se
tinham encontrado.
- Ruth  disse ela ansiosa, depois de ter correspondido  saudao da irm
surpreendida - eu tinha que vir e tu, desta vez, tens de confiar em mim e fazer o que te
digo. Ouve! Tu podes receber aqui a Pollyanna se quiseres.
- Mas eu no quero - retorquiu Mrs. Carew friamente.
Della Wetherby parecia no a ter ouvido e continuou entusiasmada.
- Ontem, quando voltei para o Sanatrio, soube que o Dr. Ames recebeu uma carta do
Dr. Chilton, o tal que casou com a tia de Pollyanna. Nessa carta, ele diz que vai passar
o Inverno  Alemanha, frequentar um curso especial, e que levaria com ele a mulher se
a conseguisse convencer de que Pollyanna ficaria bem durante esse tempo num colgio
interno. S que Mrs. Chilton no queria deixar Pollyanna num colgio, e por isso ele
receava que ela no o pudesse acompanhar.E a est agora, Ruth, a nossa oportunidade.
Queria que tu ficasses com Pollyanna durante o Inverno, de modo a que ela pudesse ir
 escola aqui perto.
- Mas que ideia to absurda, Della! Como se eu quisesse ter aqui uma criana para me
atrapalhar e aborrecer!
- Mas ela no te vai aborrecer nem um bocadinho.Deve ter quase 13anos e sabe fazer
absolutamente tudo.
- Eu no gosto de crianas que sabem fazer tudo - retorquiu Mrs. Carew com uma
ponta de perversidade, mas rindo-se, o que fez a irm readquirir coragem e insistir no
seu propsito.
Talvez fosse pelo carter sbito daquele apelo ou pela sua novidade. Talvez fosse por a
histria de Pollyanna ter tocado de algum modo o corao de Ruth Carew. Ou talvez
fosse a sua falta de vontade em recusar a defesa apaixonada da irm. Fosse o que fosse,
quando Della Wetherby se despediu apressadamente meia hora mais tarde j levava
consigo a promessa de Ruth Carew em receber Pollyanna naquela casa.
- Mas lembra-te disto - avisou Mrs. Carew enquanto a irm se despedia -, se essa
menina comear a querer impor-me seja o que for, devolvo-ta logo e podes fazer com
ela o que quiseres. No ficarei mais com ela!
- No me esquecerei disso, mas no estou nada preocupada - respondeu a irm mais
nova, despedindo-se.
E enquanto se afastava murmurava consigo prpria: Metade do trabalho est feito;
agora vamos  outra metade, que  a de fazer com que Pollyanna venha.diabo! hei-de
conseguir! Vou escrever uma carta de modo a que eles a deixem vir!




   2. Amigos de longa data

    Naquele dia de Agosto, em Beldingsville, Mrs. Chilton esperou que Pollyanna se
fosse deitar antes de conversar com o marido sobre a carta que tinha chegado no
correio da manh. O assunto teve de esperar, porque o mdico estava sempre muito
ocupado com os seus doentes e no houvera tempo para conferncias familiares.
Quando o mdico entrou na sala eram j oito e meia.O seu rosto cansado iluminou-se
ao v-la, sem que os seus olhos deixassem de refletir interrogao.
 - Que se passa, Polly querida? - perguntou ele com ar preocupado.
A mulher riu divertida.
-  uma carta... no pensei que descobrisses s por olhar para mim.
- Ento no deves ficar com esse ar - disse ele a sorrir. - O que , afinal?
Mrs. Chilton hesitou, cerrou os lbios e depois agarrou numa carta que tinha junto
dela.
- Vou l-la - disse. -  de uma tal Miss Della Wetherby, do Sanatrio do Dr. Ames.
- Ento l l - pediu ele, deitando-se ao comprido no sof junto da mulher.
Mrs. Chilton comeou ento a ler a carta em voz alta:

"Cara Mrs. Chilton,esta  a sexta vez que comeo a escrever-lhe, pois das restantes cinco vezes
rasguei a carta. Assim decidi no comear de todo em todo mas dizer- lhe diretamente ao que
venho. Quero a Pollyanna. Posso t-la? Conheci-a, a si e seu marido, em Marosado, quando
vieram buscar Pollyanna, mas calculo que no se lembrem de mim. Vou pedir ao Dr. Ames, que
me conhece muito bem, para escrever a seu marido de modo a que no receie confiar-me a sua
querida sobrinha.
Sei que no quer ir com o seu marido  Alemanha, para no deixar Pollyanna sozinha; por isso
me atrevo a pedir-lhe que nos deixe ficar com Pollyanna. Peo-lhe que a deixe ficar conosco. Vou
agora dizer-lhe porqu.
A minha irm, Mrs. Carew,  uma senhora solitria e muito infeliz. Vive num mundo de tristeza
onde nem a luz do sol penetra. Estou convencida de que se existe alguma coisa na Terra que lhe
pode trazer alegria  vida,  a sua sobrinha, Pollyanna.
Quer deix-la experimentar? Gostava de lhe contar tudo o que ela fez aqui no Sanatrio, mas 
impossvel. S vendo com os prprios olhos. H muito que descobri que no conseguimos explicar
tudo acerca de Pollyanna.Quando tentamos, parece que se trata de uma menina impossvel,
presumida e enfadonha. No entanto, sabemos bem que no  nada disso. Basta trazer Pollyanna e
deix-la falar por si.  por isso que a quero levar  minha irm e deix-la falar por si prpria.
Claro que ela frequentaria a escola e, entretanto, disso estou convencidssima, ela seria capaz de
sarar a ferida que minha irm traz no corao.
No sei como terminar esta carta. Creio que ainda  mais difcil do que come-la. Penso que no
desejo conclu-la. S me apetece continuar a falar sem parar, com receio de, parando, lhe dar a
oportunidade de me dizer no. Por isso, se estiver tentada a dizer essa palavra horrorosa, por
favor, considere como se eu no tivesse parado de falar, dizendo-lhe como quero e preciso de
Pollyanna.
Della Wetherby."

-  isto! - exclamou Mrs. Chilton, enquanto punha a carta de lado. - J alguma vez
leste uma carta assim, ou ouviste falar de um pedido to absurdo?
- No penso assim - disse o mdico sorrindo. No creio que seja absurdo querer
Pollyanna.
- Mas... a maneira como ela expe o assunto! Sarar a ferida no corao da irm e tudo
isso! At parece que a criana  uma espcie de remdio!
O mdico riu abertamente.
- O fato  que ela o . Eu sempre disse que gostaria de a poder receitar e vender, como
se de embalagem de comprimidos se tratasse. O Charlie Ames diz que sempre fez
questo, no Sanatrio, de dar rapidamente aos seus doentes uma dose de Pollyanna
aps a chegada deles, durante o ano inteiro que ela l esteve internada.
- Uma dose!... - desdenhou Mrs. Chilton.
- Ento no a vais deixar ir?
- Ir? Claro que no! Achas bem que deixasse ficar a criana com pessoas desconhecidas?
E estranhos como estes? Ao voltarmos da Alemanha no me surpreenderia que
vissemos encontrar Pollyanna j embalada e etiquetada.
O mdico riu de novo, deitando a cabea para trs, e levando as mos ao bolso 
procura de uma carta.
- Recebi notcias do Dr. Ames esta manh - disse ele num tom algo diferente do
habitual e que produziu uma expresso de estranheza no rosto da mulher.
- E se eu te lesse agora a minha carta?

"Caro Tom, Miss Della Wetherby pediu-me que lhe fizesse um favor a ela e  irm, o que fao
com prazer; Conheo as Wetherby desde crianas. So de uma famlia antiga e educada, e dignas
do maior respeito- Por esse lado nada tem a recear.Eram trs irms, Doris, Ruth e Della.
Doris casou com um tal John Kent, contra a vontade da famlia. Kent era de boas famlias, mas
ele prprio no valia muito. Um excntrico e de trato difcil.Ficou muito o zangado com a
atitude dos Wetherby em relao a ele e o relacionamento entre as famlias era difcil at nascer
um filho. Os Wetherby passaram a adorar aquele menino, James, ou Jamie, como lhe chamavam.
Doris, a me, morreu quando o menino tinha quatro anos e os Wetherby fizeram todo o possvel
para que o pai lhes entregasse completamente a criana. Kent, porm, desapareceu de repente,
levando consigo o menino. Desde ento nunca mais souberam deles, embora tivessem mandado
procur-los, pelo mundo inteiro.
A perda levou praticamente  morte Mr. e Mrs. Wetherby, ocorrida a ambos pouco depois.
Ruth,por sua vez casou e enviuvou. O marido, chamado Carew, era muito rico e bem mais velho
do que ela. Morreu um ano aps o casamento, deixando-a com um beb que acabou tambm por
morrer um ano depois. Desde que o pequeno Jamie desapareceu, Ruth e Della passaram a ter um
nico objetivo na vida: reencontr-lo. Fartaram-se de gastar dinheiro e revolveram o cu e a
terra, todavia sem resultados.Della acabou por se dedicar  enfermagem. Tem feito um trabalho
esplndido e tornou-se uma mulher saudvel, eficiente e alegre, embora sem esquecer o sobrinho
perdido e sem descuidar qualquer possvel pista que a pudesse conduzir  sua descoberta.
Porm, com Mrs. Carew as coisas passaram- se de modo bastante diferente. Depois de ter perdido
o seu prprio filho, concentrou todo o amor maternal no filho da irm. Como pode imaginar,
ficou completamente desesperada quando ele desapareceu. Isso sucedeu h oito anos e tm sido
para ela oito longos anos de infelicidade, tristeza e amargura. Tudo o que o dinheiro pode
comprar e est evidentemente ao alcance dela, mas nada lhe agrada, nada a interessa. Della acha
que  a altura de fazer com que ela mude, custe o que custar, e acredita que a brilhante sobrinha
da sua mulher, Pollyanna, pode ser a chave mgica que conseguir abrir a porta de uma nova
vida para ela. Sendo assim, espero que no vejam impedimento em satisfazer o pedido dela. E
devo acrescentar que tambm eu, pessoalmente ficaria muito grato pelo favor, porque Ruth Carew
e a irm so grandes e antigas amigas minhas e de minha mulher, e o que as afeta a elas tambm
toca a ns.
Charlie."

Concluda a leitura da carta, fez-se entre ambos um longo silncio, to longo que o
mdico perguntou:
- Ento, Polly?
O silncio manteve-se. O mdico, observando atentamente o rosto da mulher, viu que
os lbios dela estavam trmulos. Aguardou sem insistir at ela responder.
- Quando achas que contam com ela? - perguntou finalmente.
Surpreendido, o Dr. Chilton indagou:
- Ento vais deix-la ir?
- Mas que pergunta, Thomas Chilton! Com uma carta destas eu podia fazer outra
coisa que no fosse  deix-la ir? Sendo o prprio Dr. Ames quem pede,achas que
depois de tudo o que ele fez pela Pollyanna eu podia recusar fosse o que fosse?
- Oh, minha querida, s espero que o mdico no se lembre de te pedir a ti -
murmurou o marido com um sorriso excntrico.
A mulher apenas lhe concedeu um olhar de desdm,dizendo:
- Podes escrever ao Dr. Ames e dizer-lhe que deixamos ir a Pollyanna. E pede-lhe que
diga a Miss. Wetherby para nos escrever a dar todas as instrues.Ter de ser por volta
do dia 10 do ms que vem, porque tu partes a seguir e eu quero ver a criana bem
instalada antes de partir.
- Quando vais dizer a Pollyanna?
- Talvez amanh.
- O que lhe vais dizer?
- Ainda no sei bem, mas s aquilo que tiver de dizer. Seja como for, Thomas, no
devemos estragar Pollyanna e qualquer criana poderia estragar-se se metesse na cabea
que era uma espcie de... de...
- De remdio embalado com etiqueta e tudo - interrompeu o mdico com um sorriso.
- Sim,  isso - suspirou Mrs. Chilton. A inconscincia dela  que salva tudo. Sabes isso
muito bem.
- Sim, eu sei - assentiu o marido.
-  claro que ela sabe que tu e eu e metade da cidade esto a jogar o jogo com ela e que
somos mais felizes por o jogarmos.
A voz de Mrs. Chilton vacilou um pouco, continuando depois com mais firmeza:
- Mas se ela, conscientemente, deixasse de ser como , natural, radiosa e feliz, a jogar o
jogo que o pai lhe ensinou, tornava-se exatamente aquilo que a enfermeira disse que
parecia: impossvel. Por isso, diga o que lhe disser, nunca lhe direi que vai para casa de
Mrs. Carew para a alegrar - concluiu Mrs. Shilton, levantando- se decididamente e
pondo o trabalho de lado.
- Acho que s muito sensata - aprovou o mdico.
No dia seguinte disseram a Pollyanna. Foi assim que as coisas se passaram:
- Minha querida - comeou a tia, quando ambas ficaram a ss nessa manh -, gostavas
de ir passar o prximo Inverno a Boston?
- Consigo?
 - No. Eu decidi ir com o teu tio  Alemanha. Mrs. Carew, uma grande amiga do Dr.
Ames, convidou-te para permaneceres com ela o Inverno e acho que devo deixar-te ir.
O rosto de Pollyanna fez-se triste.
- Mas em Boston no tenho o Jimmy, ou Mr. Pendleton ou Mrs. Snow, nem ningum
conhecido.
- No, querida, mas quando para aqui vieste tambm no os tinhas at os conheceres.
Pollyanna esboou um sorriso.
-  verdade tia Polly, no os conhecia! Isso quer dizer que em Boston existem Jimmys,
Mr. Pendletons e Mrs. Snows  minha espera para eu as conhecer, no  verdade?
- Sim, querida.
- Ento devo ficar contente com isso. Acho que agora a tia Polly sabe jogar o jogo
melhor do que eu,e nunca tinha pensado em ter pessoas  minha espera s para eu as
conhecer. E h muita gente! Vi algumas pessoas, quando l estive h dois anos com
Mrs. Gray. Estivemos l duas horas inteiras no caminho do Oeste para aqui. Na
estao havia um homem simpatiqussimo, que me disse onde eu podia beber gua. A
tia acha que ele ainda l est? Gostava de o rever. E tambm havia uma senhora muito
bonita com uma menina pequenina. Vivem em Boston, como me disseram. A menina
chamava- se Susie Smith. Talvez as venha a ver. Acha que sim? E havia um rapaz e uma
outra senhora com um beb, mas viviam em Honolulu, por isso no devo conseguir
encontr-los agora. Mas conhecerei Mrs. Carew. Quem  Mrs. Carew, tia Polly?  das
suas relaes?
- Querida Pollyanna! - exclamou Mrs. Chilton meio a rir meio desesperada. - Como
podes querer que algum acompanhe o que dizes e ainda menos o que pensas, quando
vais a Honolulu e voltas em dois segundos! No, Mrs. Carew no  nossa conhecida. 
irm de Miss Della Wetherby. Lembras-te de Miss Wetherby do Sanatrio?
Pollyanna bateu palmas.
-  irm de Miss Wetherby? Ah, tenho a certeza de que  muito querida! Miss
Wetherby era. Adorei Miss Wetherby. Tinha pequenos vincos em redor dos olhos e
da boca, quando ria, e conhecia histrias engraadssimas. S a tive durante dois meses,
porque s chegou um pouco antes de eu ter alta. Ao princpio tive pena por no a ter
tido durante todo o tempo, mas no fim, fiquei contente, porque se eu a tivesse tido
durante todo o tempo teria sido muito mais difcil despedir-me dela. Engraado, e
agora parece que a vou ter outra vez, porque vou ficar com a sua irm.
Mrs. Chilton respirou fundo e mordeu o lbio.
- Mas Pollyanna, no podes estar  espera que elas sejam parecidas! - atreveu-se a tia a
dizer.
Nos dias seguintes, enquanto se trocavam cartas sobre a permanncia de Pollyanna em
Boston, Pollyanna preparava-se para partir desdobrando-se em visitas aos amigos de
Beldingsville.
Toda a gente da pequena cidade de Vermont conhecia agora Pollyanna e quase todos
jogavam o jogo com ela. Os poucos que no o faziam era por desconhecerem o que era
o Jogo do Contentamento. Assim, de uma casa para a outra, Pollyanna contou as
novidades sobre a sua partida para Boston, onde passaria o Inverno. Em todo o lado
ouviu um clamor de lamentaes e protestos, desde Nancy, cozinheira da tia Polly,at
ao casaro da colina onde vivia John Pendleton.Nancy no hesitou em dizer a toda a
gente, exceto  patroa, que considerava tal viagem um disparate, e que se pudesse
ficaria muito contente em levar Miss. Pollyanna consigo para a sua casa na terra,
podendo assim Mrs. Polly partir para a Alemanha. Na colina, John Pendleton repetiu
praticamente a mesma coisa,e no hesitou em diz-lo diretamente a Mrs. Chilton.
Quanto a Jimmy, um rapazinho de 12anos de quem John Pendleton tomara conta a
pedido de Pollyanna e que entretanto adotara, ficou indignadssimo e no demorou a
manifest-lo:
- Mas acabaste de chegar! - disse ele, reprovando Pollyanna num tom de voz que os
rapazinhos usam quando querem esconder o fato de se sentirem magoados.
- Bem, estou c desde Maro. Alm disso, no vou l ficar para sempre,  s este
Inverno.
- No interessa. Estiveste fora o ano inteiro, e se eu soubesse que ias outra vez embora,
no me tinha dado ao trabalho de te receber com bandeiras e "fafarras" no dia da tua
chegada do "sadatrio".
- No me digas, Jimmy Bea! - exclamou Pollyanna, em tom surpreendido e
desaprovador. Depois, com um toque de superioridade, resultante do orgulho ferido,
observou:
- No te pedi para me ires receber. Alm disso cometeste dois erros:  fanfarras e
sanatrio que se diz.
- E quem se rala com isso?
Os olhos de Pollyanna abriram-se ainda mais numa expresso de reprovao.
- E tambm j no me chamo Jimmy Bean! reagiu o rapaz, levantando o queixo.
- No s? Ento porqu? - perguntou a menina.
- Fui adotado legalmente. Ele tencionava h muito adotar-me, mas no conseguia.
Agora j conseguiu. Chamo-me Jimmy Pendleton e passei a cham-lo por tio John. S
que ainda no estou habituado e tenho dificuldade em cham-lo assim.
O rapaz continuava zangado, mas os vestgios da irritao tinham-se atenuado no rosto
da menina, ao ouvir as palavras dele. Bateu as palmas com alegria.
- Mas que bom! Agora tens uma famlia a srio, uma famlia que gosta de ti. E nunca
mais ters que explicar o teu nome, pois agora  igual ao dele. Estou to contente, to
CONTENTE!
O rapaz levantou-se de repente do muro onde estavam sentados e afastou-se. Estava
corado e tinha os olhos cheios de lgrimas. Era a Pollyanna que ele tudo devia, todo o
bem que lhe tinha acontecido, ele bem o sabia.



   3. Uma dose de Pollyanna

 medida que o dia 8 de Setembro se aproximava, data em que Pollyanna deveria
chegar, Mrs. Ruth Carew tornava-se cada vez mais nervosa e exasperada consigo
prpria. Dizia lamentar a promessa que fizera em receber a criana. Escreveu  irm,
pedindo-lhe para a libertar do compromisso, mas Della respondeu que era demasiado
tarde, pois tanto ela como o Dr. Ames j tinham escrito aos Chiltons.
Pouco tempo depois chegou a carta de Della, transmitindo-lhe que Mrs. Chilton tinha
dado o seu acordo e que viria dentro de alguns dias a Boston tratar da questo da
escola e de outros assuntos. Assim, no havia nada a fazer seno deixar as coisas seguir
o seu curso natural. Mrs. Carew acabou por se convencer e sujeitou-se ao inevitvel,
mas de m vontade. Procurou ser educada quando Della e Mrs. Chilton chegaram, mas
ficou satisfeita por Mrs. Chilton se demorar pouco devido  quantidade de coisas que
tinha para resolver.
Felizmente, a chegada de Pollyanna no estava prevista para depois do dia 8, pois o
tempo em vez de reconciliar Mrs. Carew com a ideia da nova hspede, enchia-a antes
de impacincia com aquilo a que chamava de aceitao absurda do esquema
disparatado de Della.
Della tambm estava perfeitamente consciente do estado de esprito da irm, e embora
exteriormente ela no tivesse uma atitude decidida, no seu ntimo estava muito receosa
em relao aos resultados. Depositava todas as suas esperanas em Pollyanna e decidiu
apostar em deixar a menina iniciar a sua luta totalmente sozinha e sem ajuda. Arranjou,
assim, as coisas de modo a que Mrs. Carew a fosse esperar  estao. E logo que as
apresentaes foram feitas, alegou um compromisso inadivel e despediu-se. Mrs.
Carew, mal tendo tempo de observar a convidada, encontrou-se sozinha com ela.
- Della, Della, no te vs j embora - disse ela agitada na direo da enfermeira que se
afastava.
Della no deu mostras de a ter ouvido. Aborrecida, Mrs. Carew virou-se para a criana
a seu lado.
- Mas que pena ela no ter ouvido - disse Pollyanna, cujos olhos tristes seguiam
tambm a enfermeira. - Preferia que ela tivesse ficado, mas agora tenho-a a si, no ?
Posso ficar contente com isso.
- Ah sim, tem-me a mim e eu tenho-a a si - respondeu a senhora de maneira pouco
graciosa. - Vamos por aqui - indicou ela com um gesto para a direita.
Vagarosamente, Pollyanna virou-se e caminhou ao lado de Mrs. Carew atravs da
gigantesca estao. Olhou ainda uma ou duas vezes, preocupada, para o rosto pouco
sorridente da senhora e, finalmente, disse hesitante e com voz perturbada:
- Se calhar pensava que eu era bonita.
- Bonita? - repetiu Mrs. Carew.
- Sim, com caracis! Decerto deve ter pensado como eu era, tal como fiz em relao a
si. S que eu sabia que a senhora devia ser bonita e simptica por causa da sua irm. Eu
tinha-a a ela como referncia, mas a senhora no tinha ningum e eu sei que no sou
bonita por causa das sardas e no  simptico estar-se  espera de uma menina bonita e
receber uma como eu,e...
- Que disparate, menina! - interrompeu Mrs. Carew um pouco asperamente. - Vamos
buscar a sua mala e depois seguimos para casa. Estava a contar que a minha irm
ficasse conosco,mas parece que no pode, nem por uma noite.
Pollyanna sorriu e fez que sim com a cabea.
- No devia poder. Devia ter algum  espera. Tinha sempre algum  espera dela l no
Sanatrio.  uma maada quando as pessoas esto sempre  nossa espera, no ? Assim,
nem temos tempo de estar por nossa conta; mas, apesar disso, podemos ficar
contentes, porque  bom ser-se desejado, no ?
No se ouviu resposta, talvez porque, pela primeira vez na sua vida, Mrs. Carew
refletia se existia algum algures que a desejasse realmente. No que quisesse ser
desejada, pensou para si prpria, zangada, enquanto levantava mais a cabea e franzia o
sobrolho na direo da criana.
Pollyanna no a viu franzir o sobrolho. Os olhos da menina dirigiam-se agitadamente
em redor.
- Que carro to bonito! Vamos nele? - exclamou Pollyanna quando chegaram diante de
uma bonita limusine, com o motorista de libr a abrir a porta.
O motorista procurou sem xito ocultar um sorriso. Porm, Mrs. Carew respondeu
com a despreocupao de algum para quem andar de automvel no  mais do que
um meio de deslocao de um lugar aborrecido para outro to aborrecido como o
anterior.
- Sim, vamos nele. Vamos para casa, Perkins - acrescentou, dirigindo-se ao deferente
motorista.
- O carro  seu? - perguntou Pollyanna, detectando um ar inegvel de proprietria no
comportamento da sua anfitri. - Mas que carro to bonito! Deve ser muito rica, mais
do que os que s tm tapetes em todas as salas e gelado aos domingos como os
Whites, uma das minhas Senhoras da Caridade. Eu pensava que eles eram ricos, mas
sei agora que ser realmente rico significa ter anis de diamantes, criadas, casacos de pele
de foca, vestidos de seda e veludo para mudar todos os dias e um automvel. Tem isso
tudo?
- Sim, acho que sim - admitiu Mrs. Carew, com um ligeiro sorriso.
- Ento, com certeza,  rica! - concluiu Pollyanna. - A minha tia Polly tambm tem
tudo isso, mas o carro dela  puxado por cavalos. Gosto imenso de andar nestas coisas.
Nunca tinha andado antes, a no ser naquele que me atropelou. Levaram-me nele
depois de me terem tirado debaixo. Mas,  claro,no dei por nada, de maneira que no
pude apreciar. Desde ento nunca mais estive dentro de nenhum. A tia Polly no gosta.
O tio Tom gosta e quer ter um. Ele diz que precisa de um automvel na sua profisso.
 mdico e todos os outros mdicos da cidade j tm carro. No sei o que ir sair dali.
A tia Polly est muito incomodada com aquilo. Ela quer que o tio Tom tenha tudo o
que quer, mas quer que ele queira aquilo que ela quer que ele queira, est a perceber?
Mrs. Carew riu de repente.
- Sim, minha menina, parece-me que percebo - respondeu com alguma reserva, embora
o olhar refletisse uma expresso pouco habitual.
- Ainda bem - respondeu Pollyanna contente. Sabia que compreenderia, apesar de
parecer um bocado confuso o que eu disse. A tia Polly diz que s no se importava de
ter um automvel se fosse o nico no mundo, para que ningum fosse contra ela...
Tantas casas! - bruscamente, Pollyanna mudou de assunto, olhando em redor, com
admirao. - Nunca mais acabam! Tem de haver muitas, para que tanta gente possa ter
onde morar, pelo que vi na estao, para alm das muitas outras que se vem nas ruas.
E, claro, onde h mais pessoas, tambm h mais gente para conhecer. Adoro pessoas. E
a senhora?
- Adorar pessoas?
- Sim, as pessoas, toda a gente!
- No, Pollyanna, no posso dizer que as adoro - respondeu Mrs. Carew, friamente e
um pouco contrada.
Os olhos de Mrs. Carew tinham perdido aquela expresso especial. Viravam-se
desconfiadamente para Pollyanna. Mrs. Carew dizia para si prpria: ser que tenho
agora, como arenga principal, o meu dever de me dar com o prximo,  maneira da
Irm Della!
- A senhora no gosta de pessoas? Eu gosto muito. So todas to simpticas e
diferentes umas das outras. E aqui deve haver muitas que so simpticas e diferentes.
Nem imagina como fiquei contente ao saber que vinha para c! Adivinhei que ia gostar
logo que descobri que era a senhora, isto , a irm de Miss Wetherby. Adoro Miss
Wetherby e, por isso, no duvidei que ia gostar muito de si, pois, com certeza, so
parecidas por serem irms.
A limusine tinha virado para a Commonwealth Avenue e Pollyanna comeou
imediatamente a louvar a beleza da avenida, com um jardim to bonito no meio e que
se tornava ainda mais bonita depois de terem passado por tantas ruas estreitas.
- Acho que toda a gente devia gostar de viver aqui - comentou entusiasmada.
-  muito possvel, mas seria difcil - retorquiu Mrs. Carew, com as sobrancelhas
levantadas.
Pollyanna, suspeitando que a expresso refletida no rosto da senhora era de
contentamento por a casa dela no se situar naquela linda avenida, apressou-se a
corrigir.
- No, claro que no - concordou. - Eu no quis dizer que as ruas mais estreitas no
sejam tambm bonitas. At talvez ainda sejam melhores, pois assim podemos estar
contentes por no ter que andar tanto quando precisamos de atravessar a rua para
pedir um ovo emprestado. Mas vive aqui? - interrompeu ela, quando o carro se deteve
defronte da porta de uma casa. - Vive aqui Mrs. Carew?
- Sim, claro que vivo aqui - respondeu a senhora, algo irritada.
- Mas que contente que se deve sentir por viver num stio to bonito - exultou a
menina, correndo para o passeio e olhando excitada em redor. - No se sente contente?
Mrs. Carew no respondeu. Sisuda e de testa franzida, saiu da limusine.
Pela segunda vez em cinco minutos Pollyanna apressou-se a corrigir.
- Claro que eu no me referia ao tipo de contentamento que seja pecado de orgulho -
explicou, perscrutando ansiosa o rosto de Mrs. Carew. - Talvez pensasse que eu me
referia a esse tipo de contentamento, como a tia Polly pensava s vezes. No me refiro
a esse tipo de contentamento por termos alguma coisa que os outros no tm, mas ao
tipo de contentamento que nos faz apetecer gritar e bater com as portas, mesmo que
no seja boa educao - concluiu, danando e saltando em bicos dos ps.
O motorista virou-se precipitadamente e meteu-se no carro. Mrs. Carew, que
continuava sria, ia  frente ensinando o caminho.
- Venha Pollyanna - limitou-se a dizer, crispadamente.


Cinco dias mais tarde, Della Wetherby recebeu uma carta da irm e abriu-a
ansiosamente. Era a primeira que chegava desde que Pollyanna estava em Boston com
Mrs. Carew.

"Querida irm Della, por que no me informaste sobre esta criana que insististe para que
tomasse conta? Estou fula e no a posso mandar embora. J tentei por trs vezes, mas, em todas
elas, antes de comear a dizer o que quero, ela interrompe-me dizendo-me que est a gostar
imenso de estar comigo, que se sente muito contente e que sou muito boa em ficar com ela enquanto
a tia est na Alemanha. Assim, diz-me, com que cara posso virar-me para ela e dizer: por favor
vai para casa, no te quero aqui. E o mais absurdo  que acho que no lhe entra na cabea que
no a quero c e parece que tambm no consigo fazer-lhe compreender isso.
 claro que se ela comear a pregar e a dizer-me para pensar nos meus pecados, mando-a
imediatamente embora. Eu disse-te que no permitiria isso. E no permito. Por duas ou trs
vezes pensei que ela ia comear com prdicas, mas at aqui no passam das histrias ridculas
acerca dumas Senhoras da Caridade, com o sermo a derivar para outro lado, felizmente para
ela, se quer ficar.Mas ela  realmente impossvel. Eu conto.
Em primeiro lugar, est maravilhada com a casa. No primeiro dia em que aqui chegou, pediu-
me para abrir todas as salas e no ficou satisfeita seno quando viu desaparecer todas as sombras
da casa para que pudesse apreciar todas as coisas maravilhosas que havia, coisas essas que ela
disse serem ainda mais bonitas que as de Mr. John Pendleton que creio ser algum de
Beldingsville. De qualquer forma no se trata de uma das Senhoras da Caridade. At a j
percebi.
Depois, como se no bastasse fazer-me correr de quarto em quarto,  laia de cicerone, descobriu
um vestido de noite de cetim branco que eu j no vestia h anos e suplicou-me que o vestisse.
Acabei por faz-lo, no sei porqu, mas senti-me completamente desamparada nas mos dela.
Mas isto foi apenas o principio. Pediu-me ento para ver tudo aquilo que eu tinha e era to
engraada nas histrias que contava sobre as coletas para os missionrios, que eu tive mesmo de
rir, embora ao mesmo tempo quase tivesse vontade de chorar, ao pensar nas coisas horrveis que a
pobre criana tinha de vestir. E, claro, dos vestidos passamos s jias. E ela fez tanto barulho ao
ver dois ou trs dos meus anis, que eu, disparatadamente, acabei por abrir o cofre s para ver os
olhos dela arregalados. Cheguei mesmo a pensar que a criana ficava maluca. Ps-me todos os
anis, alfinetes de peito, pulseiras e colares que tenho e insistiu em colocar dois diademas de
brilhantes na minha cabea. Fiquei sentada com prolas, diamantes e esmeraldas pendurados,
sentindo-me qual deusa num templo hindu, principalmente quando to disparatada criana
comeou a danar  minha volta batendo as palmas e cantando: Que maravilhosa, que
maravilhosa! Como eu gostava de a pendurar por um fio na janela! Daria um prisma
lindssimo! Ia-lhe perguntar que diabo queria dizer com aquilo, quando ela caiu no cho e
comeou a chorar. E porque achas que estava a chorar? Calcula! Porque estava radiante por ter
olhos para poder ver! Que achas tu disto? Claro que no a aturo, isto  s o principio. Pollyanna
est c h quatro dias e trava conhecimento com toda a gente. Mas, como disse, ficarei com ela at
que comece com prdicas. Ento devolvo-ta. Felizmente que ainda no comeou com isso.
Ruth."

"Ainda no comeou com prdicas", realmente! - murmurou Della Wetherby,
dobrando as folhas da carta da irm. - Oh, Ruth! Ruth! E ainda admites ter aberto
todas as salas, escancarado todas as janelas, e que te cobriste de cetim e de jias! E
Pollyanna ainda nem esteve a, sequer, uma semana! E, de fato, sem que tenha, ainda,
feito alguma prdica!
   4. O jogo e Mrs. Carew

Para Pollyanna, Boston era uma experincia nova. E decerto que tambm para a parte
da cidade que tinha o privilgio de a conhecer, ela era igualmente uma experincia
nova.
Pollyanna, ao contrrio das pessoas que acham que para ver o mundo se deve comear
pelos pontos mais distantes, comeou por "ver Boston" atravs de uma explorao
minuciosa do meio mais prximo, a bela residncia da Commonwealth Avenue, agora a
sua casa. Isso, juntamente com os trabalhos escolares, ocuparam-na completamente
durante alguns dias.
Havia tanta coisa para ver e para aprender. Era tudo to maravilhoso e to bonito.
Desde os botezinhos na parede, os quais, ao tocar-se-lhes, inundavam as salas de luz,
ao grande e silencioso salo de baile, cheio de espelhos e quadros. Tambm havia tanta
gente encantadora para conhecer, alm da prpria Mrs. Carew. Havia a Mary, que
limpava os quartos, respondia  campainha e acompanhava Pollyanna  escola todos os
dias; a Bridget, que estava na cozinha e cozinhava; Jenny, que servia  mesa; e Perkins,
que conduzia o automvel. E eram todos to simpticos, apesar de to diferentes
tambm!
Pollyanna tinha chegado numa segunda-feira e, portanto, passara quase uma semana
at ao domingo seguinte. Desceu as escadas nessa manh com uma expresso radiosa.
- Adoro os domingos - disse alegremente.
- Adora? - a voz de Mrs. Carew soava com o aborrecimento de quem no gosta de dia
nenhum.
- Sim, por causa da igreja e da catequese. De que gosta mais, da igreja ou da catequese?
- Bom, de fato... - balbuciou Mrs. Carew, que raramente ia  igreja e nunca frequentava
a catequese.
-  difcil dizer, no ? - interrompeu-a Pollyanna, com olhos luminosos, mas ao
mesmo tempo srios. Eu gosto mais da igreja por causa do meu pai. Sabe, ele era
pastor e deve estar mesmo no Cu com a me e os meus irmos. Mas tento imagin-lo
c em baixo e, muitas vezes,  mais fcil faz-lo na igreja quando o padre est a pregar.
Fecho os olhos e imagino que  o pai que ali est, o que me ajuda muito. Fico to
contente por conseguir imaginar coisas. A senhora no fica?
- No sei bem, Pollyanna.
- Mas pense s como so muito mais bonitas as coisas que imaginamos do que as que
so realmente verdadeiras.  claro, as suas no so, porque as reais so to bonitas.
- Mrs. Carew, zangada, comeou a falar,mas Pollyanna retomou apressadamente o que
dizia.
- E claro que as minhas coisas reais so sempre muito mais bonitas. Realmente,
durante o tempo em que estive doente, sem poder andar, tive de imaginar tanto quanto
podia. Talvez por isso, continuo a faz-lo inmeras vezes, ora sobre o pai ora sobre o
que calha. Hoje vou imaginar que  o pai que est l no plpito. A que horas vamos?
- Vamos, onde?
-  igreja.
- Mas, Pollyanna, eu no vou, no gosto de ir... - Mrs. Carew tossiu para aclarar a voz
e tentar de novo dizer que no ia  igreja e que quase nunca l ia, mas ao ver o rosto
confiante de Pollyanna e aqueles olhos alegres diante de si no conseguiu diz-lo. -
Talvez por volta das dez e um quarto, se formos a p - disse ento, quase de mau
humor. - Enfim,  perto daqui!
Aconteceu, assim, que Mrs. Carew, naquela linda manh de Setembro, ocupou pela
primeira vez desde h muitos meses o banco dos Carew na igreja muito elegante onde
ia quando era rapariga e que continuava a auxiliar bastante no que se referia a dinheiro.
Para Pollyanna, a missa daquela manh de domingo foi motivo de grande admirao e
alegria. A msica maravilhosa do coro, os vitrais iluminados pelo sol, a voz apaixonada
do pastor e os rituais do culto, encheram-na de xtase, deixando-a perplexa. S j perto
de casa, disse com fervor:
- Oh! Mrs. Carew, tenho estado a pensar como estou contente por no termos de viver
seno um dia de cada vez!
Mrs. Carew franziu o sobrolho e olhou para a menina. Mrs. Carew no estava com
disposio para prdicas. Tinha acabado de ser obrigada a ouvi-las, do plpito, e no
estava disposta a ouvi-las de uma criana. Alm disso, essa teoria de "viver um dia de
cada vez" bem sabia que era uma doutrina particularmente querida de Della. No
insistia ela, constantemente: "Mas tu s tens de viver um minuto de cada vez, Ruth, e
toda a gente pode aguentar seja o que for durante um minuto de cada vez!"
- Que disseste? - inquiriu Mrs. Carew, tensa.
- Sim. Pense s o que eu faria se tivesse que viver ontem, hoje e amanh ao mesmo
tempo - disse Pollyanna. - Com tantas coisas maravilhosas. Mas tive o dia de ontem;
agora, estou a viver hoje; e o de amanh ainda est para vir e tambm o prximo
domingo. Honestamente, Mrs. Carew, se no fosse domingo e no estivssemos nesta
rua to simptica e calma, punha-me a danar e a gritar. No podia deixar de o fazer.
Mas, por ser domingo, tenho de esperar at chegar a casa, para a cantar um hino, o
hino mais alegre de que me consiga lembrar. Sabe qual  o hino mais alegre que existe,
Mrs. Carew?
- No, acho que no - respondeu Mrs. Carew, com voz fraca, olhando como se
estivesse  procura de alguma coisa perdida.
Para uma pessoa que espera que lhe digam que s precisa de aguentar um dia de cada
vez por as coisas serem to ms,  surpreendente, para no dizer outra coisa, que lhe
digam que, por as coisas serem to boas, uma felicidade no ter de aguentar seno um
dia de cada vez!
Segunda-feira, na manh seguinte, Pollyanna foi sozinha pela primeira vez  escola, de
que gostou muito. Conhecia agora perfeitamente o caminho. Ficava prximo. Tratava-
se de um pequeno colgio privado para meninas e, de certo modo, constitua uma nova
experincia para si, e se ela gostava de experincias novas!
Ora, Mrs. Carew no gostava de experincias novas, e o certo  que estava a t-las nos
ltimos dias. Para uma pessoa que se sente cansada de tudo, ter como companhia to
ntima algum para quem tudo constitui uma alegria fascinante, por certo tudo isso
deve ser um aborrecimento. E Mrs. Carew estava mais que aborrecida, sentia- se
exasperada. Ainda assim, admitia para consigo prpria que, se algum lhe perguntasse
por que razo se sentia exasperada, a nica razo que poderia apresentar seria "por
Pollyanna estar to contente".
A Della, porm, Mrs. Carew escreveu que a palavra "contentamento" lhe dava cabo
dos nervos, e que, por vezes, preferia no voltar a ouvi-la. Continuava a admitir que
Pollyanna ainda no lhe fizera nenhuma prdica, e que nem sequer tentara faz-la jogar
o jogo. O que fazia, simplesmente, era considerar o "contentamento" de Mrs. Carew
como uma coisa bvia, o que para quem no se sentia contente era quase uma
provocao.
Foi durante a segunda semana da estada de Pollyanna que o aborrecimento de Mrs.
Carew se manifestou com irritao. A causa imediata foi a concluso brilhante de
Pollyanna para uma histria acerca de uma das suas "Senhoras da Caridade".
- Ela estava a jogar o jogo, Mrs. Carew. Mas talvez no saiba de que jogo se trata. Vou
contar- lhe.  um jogo timo.
- No interessa, Pollyanna - objetou Mrs. Carew. Sei tudo sobre esse jogo. A minha
irm contou-me, e devo dizer que no me interessa nada.
- Com certeza, Mrs. Carew! - exclamou Pollyanna, pedindo desculpa. - No estava a
pensar no jogo para si. A senhora, evidentemente, no o podia jogar.
- No o podia jogar? - perguntou indignada Mrs. Carew, que, apesar de no tencionar
jogar tal jogo disparatado, no estava disposta a ouvir dizer que no o conseguiria
fazer.
- Creio que no! - disse Pollyanna, rindo. O jogo  para descobrir alguma coisa que
nos d contentamento e a senhora nem consegue comear a procurar, porque no h
nada ao seu redor que no lhe d contentamento. Assim, no seria jogo nenhum para
si, percebeu?
Mrs. Carew corou, zangada. Com o seu habitual aborrecimento dissera porventura
mais do que queria dizer.
- Bom, no quis dizer tanto - contrariou ela friamente. - O que sucede  que no
encontro nada que me d contentamento.
Por momentos Pollyanna olhou-a espantada.
- Mas porqu, Mrs. Carew?
- Ora, que quer que haja aqui que me d contentamento? - desafiou a senhora,
esquecendo-se momentaneamente que no permitiria que Pollyanna lhe "desse
prdicas".
- Mas, tudo - murmurou Pollyanna ainda espantada. - Tem esta linda casa.
-  apenas um lugar onde se come e dorme e eu no gosto de comer nem de dormir.
- Mas tem tantas coisas lindas!
- Cansei-me delas!
- Mesmo o seu automvel, que a pode levar a toda a parte?
- Mas eu no quero ir a toda a parte.
- J pensou nas pessoas e nas coisas que podia ver, Mrs. Carew?
- No estou interessada nelas, Pollyanna. O espanto de Pollyanna no se dissipava. A
expresso crispada do rosto da senhora ficou mais vincada.
- Mas, Mrs. Carew, no compreendo. Antes, havia sempre coisas ms para as pessoas
jogarem o jogo e quanto piores fossem mais divertido era descobri-las; ou seja,
descobrir coisas que nos dessem contentamento. Mas quando no existem coisas ms,
eu prpria no sei como jogar o jogo.
Houve silncio por momentos. Mrs. Carew, sentada, olhava para a janela. O seu ar
zangado transformara-se, entretanto num olhar desesperado e triste. Vagarosamente
virou-se e disse:
- Pollyanna, no tinha pensado dizer-lhe isto, mas decidi faz-lo. Vou contar-lhe por
que razo nada do que tenho me pode dar contentamento. - Assim comeou a contar a
histria de Jamie, o menino de quatro anos que h oito anos desaparecera
completamente sem nunca mais ter dado sinal de si.
- E nunca, nunca mais o viu? - balbuciou Pollyanna, com os olhos cheios de lgrimas
quando a senhora terminou a histria.
- Nunca mais!
- Mas havemos de o encontrar, Mrs. Carew. Tenho a certeza que o encontraremos.
Mrs. Carew abanou a cabea tristemente.
- No consigo. J procurei por toda a parte, mesmo em pases estrangeiros.
- Mas ele tem de estar nalgum stio.
- Talvez esteja morto, Pollyanna. Pollyanna soltou um pequeno grito.
- No, Mrs. Carew. Por favor, no diga isso! Vamos imaginar que ele est vivo.
Podemos fazer isso e ser uma grande ajuda. Se conseguirmos imagin-lo vivo,
podemos tambm imaginar que o vamos encontrar. E isso ajudar ainda mais...
V, Mrs. Carew, agora j pode jogar o jogo! Pode jog-lo com o Jamie. Pode ficar
contente todos os dias, porque cada dia a aproxima mais do momento em que o
tornar a ver.




  5. Um novo conhecimento

Acompanhada de Mrs. Carew, Pollyanna assistiu a concertos e matins e visitou a
biblioteca municipal e o museu de arte. Acompanhada de Mary, deu belos passeios
para ver Boston e visitou o palcio municipal e a velha igreja do sul.
Embora gostasse imenso de andar de automvel, Pollyanna gostava ainda mais de
andar de autocarro, como Mrs. Carew, surpreendida veio a descobrir.
- Vamos de autocarro? - perguntou Pollyanna ansiosa.
- No. Perkins leva-nos - respondeu Mrs. Carew. A seguir, ao ver o desapontamento
indisfarvel estampado no rosto de Pollyanna, ela acrescentou surpreendida:
- Eu a pensar que a menina gostava mais de andar de automvel!
- Sim, sim! - assentiu Pollyanna, apressadamente. - Eu no devia ter dito nada!
Possivelmente  mais barato do que andar de autocarro e.
- Mais barato que andar de autocarro! - exclamou Mrs. Carew surpreendida.
- Sim - explicou Pollyanna, de olhos mais abertos -, de autocarro so cinco cntimos
por pessoa e o automvel no custa nada porque  seu.  claro, gosto muito do
automvel - apressou-se ela a dizer antes que Mrs. Carew falasse. -  s porque no
autocarro h tanta gente e  muito divertido observ-los, no acha?
- No, Pollyanna, no acho - respondeu Mrs. Carew secamente.
Por acaso, dois dias depois, Mrs. Carew ouviu algo mais sobre Pollyanna e os
autocarros, e desta vez foi Mary que lhe contou.
- Que estranho, minha senhora! - explicava Mary, em resposta a uma pergunta que a
patroa lhe fez.
- A prontido com que Miss Pollyanna transforma toda a gente, sem qualquer esforo!
Est nela! Transpira felicidade! Calcule, entramos num autocarro, em que todos
pareciam maldispostos, e cinco minutos depois tudo era irreconhecvel. Homens e
mulheres tinham parado de resmungar e as crianas pararam de chorar.
- s vezes,  por algo que Miss Pollyanna me diz e que as pessoas ouvem. Outras, 
apenas o "obrigado" que ela diz quando algum insiste em dar-nos o lugar. Outras
ainda,  pela maneira como ela sorri para um beb ou para um co.  verdade, todos os
ces abanam a cauda com ela; e todos os bebs, crescidos ou mais pequenos, sorriem e
acenam para ela. Se o autocarro no pra, ela faz disso uma brincadeira, e se por acaso,
nos enganamos no autocarro,  a coisa mais divertida que nos pode acontecer. Ela 
assim com todas as coisas. De fato, com Miss Pollyanna ningum consegue estar mal-
humorado!
- Sim, acredito - murmurou Mrs. Carew, retirando-se.
O ms de Outubro veio a revelar-se nesse ano especialmente quente e agradvel. E 
medida que os dias dourados passavam, tornava-se evidente que acompanhar o ritmo
de Pollyanna, quando saam de casa, era uma tarefa que consumia bastante tempo e
pacincia a qualquer um. Mrs. Carew dispunha de tempo, mas no de pacincia; por
outro lado, no estava disposta a permitir que Mary passasse tanto tempo com
Pollyanna nas suas fantasias.
 claro que estava fora de questo manter a criana dentro de casa. Foi assim que,
algum tempo depois, Pollyanna se veio a encontrar no grande e belo jardim, no Jardim
Pblico de Boston, e sozinha. Aparentemente, tinha toda a liberdade mas, na realidade,
estava sujeita a uma quantidade de regras. No devia conversar com estranhos, fossem
homens ou mulheres; no devia brincar com crianas estranhas e, em circunstncia
nenhuma, devia sair do jardim, exceto para voltar para casa. Alm disso, Mary, que a
levava ao jardim, verificava primeiro se ela saberia depois regressar a casa e se sabia que
a Commonwealth Avenue vinha de Arlington Street atravs do jardim. E o regresso a
casa seria necessariamente quando o relgio da torre da igreja badalasse as quatro e
meia.
Pollyanna, passou realmente a ir muitas vezes ao jardim. Muitas vezes acompanhada de
algumas das colegas da escola; mas, muitas mais sozinha. Apesar das restries serem
rgidas, divertia-se muito. Podia observar as pessoas sem mesmo falar com elas; e podia
tambm conversar com os esquilos e os pombos que vinham avidamente comer as
nozes e os gros de milho que ela sempre lhes levava.
Encontrou muitas vezes um rapaz numa cadeira de rodas, com quem gostava de falar.
Gostava de se entreter com os animais, especialmente quando eles vinham buscar-lhe as
nozes aos bolsos. Mas Pollyanna, observando  distncia, notava sempre uma
circunstncia estranha. Apesar da satisfao do rapaz em servir o seu banquete, a
reserva de comida que trazia acabava quase sempre imediatamente e apesar de ele dar
mostras de desapontamento, tal como o esquilo, nunca solucionava o problema
trazendo mais comida no dia seguinte. Pollyanna achava que era uma questo de vistas
curtas.
Quando o rapaz no brincava com os pssaros e com os esquilos, entretinha-se a ler.
Na cadeira tinha normalmente livros usados e, s vezes, uma revista ou duas. Ele estava
quase sempre num lugar especial e Pollyanna intrigava-se como  que ele l chegava.
Ento, num dia inesquecvel, descobriu. Era feriado e fora mais cedo. Logo aps ter
chegado ao lugar do costume, viu trazerem-no na cadeira de rodas. Um rapaz de
cabelo claro empurrava-a. Correu ao encontro deles, com contentamento.
- No devo conversar com desconhecidos. Mas consigo posso, porque o conheo de
vender jornais l na rua e tambm posso conversar com ele, depois de sermos
apresentados - concluiu ela, com um olhar cintilante na direo do rapaz paraltico.
O rapaz riu-se para o lado e deu umas palmadinhas no ombro do rapaz paraltico.
- Ests a ouvir? Vou apresentar-te! - e, adotando uma atitude pomposa, disse: - Minha
senhora, este  o meu querido amigo Sir James, Lorde of Murphy's Alley, e... - mas o
rapaz da cadeira de rodas interrompeu-o.
- Jerry, deixa-te de disparates! - exclamou zangado; depois, virando para Pollyanna o
rosto radiante, disse: - Tenho-a visto aqui muitas vezes, e observo-a particularmente
quando d de comer aos pssaros e aos esquilos, pois traz sempre muita comida para
eles! At acho que prefere, como eu, o Sir Lancelot. Mas, claro, tambm temos a Lady
Rowena, mas no acho que ela tenha sido malcriada com Guinevere, ontem, quando
lhe tirou o jantar da frente.
Pollyanna, confusa, piscou os olhos e franziu a testa, olhando ora para um ora para
outro rapaz. Jerry riu outra vez  socapa. Depois, com um ltimo empurro, colocou o
carro na posio habitual e preparou-se para ir embora. Por cima do ombro ainda disse
a Pollyanna:
- Olhe, menina, deixe-me avis-la de uma coisa. Este tipo no est bbado nem 
maluco, percebe? Ele s deu os nomes aos seus amiguinhos - e fez um gesto amplo dos
braos na direo das criaturas felpudas e aladas que se juntaram ali vindas de todos os
lados. E nem sequer so nomes de gente. So nomes de pessoas dos livros, est a
perceber? Ento adeus, Sir James - despediu-se ele com uma careta para o rapaz da
cadeira de rodas, e foi-se embora.
Pollyanna ainda piscava os olhos e franzia a testa quando o rapaz paraltico se virou
para ela com um sorriso.
- No ligue ao Jerry. Ele  assim. Era capaz de cortar a mo direita por minha causa,
mas gosta muito de brincar. Ele no me disse o seu nome.
- Chamo-me Pollyanna Whitier.
Uma expresso de simpatia espelhou-se nos olhos de Pollyanna.
- No consegue andar mesmo nada, Sir James? O rapaz riu divertido, para depois
esclarecer:
- Com que ento Sir James! Isso foi mais um dos disparates do Jerry. No sou "sir".
Pollyanna pareceu desapontada.
- No ? Nem  "lord", como ele disse?
- Claro que no.
- Pensava que era. Como o pequeno Lord Fauntleroy, e...
Mas o rapaz interrompeu impaciente:
- Conhece o pequeno Lord Fauntleroy? E tambm conhece Sir Lancelot e o Graal
Sagrado, o Rei Artur e a Tvola Redonda, e Lady Rowena e Ivanhoe? Conhece-os
todos?
Pollyanna fez um sinal de dvida.
- Receio no os conhecer todos - admitiu. Esto todos nos livros?
O rapaz fez que sim com a cabea.
- Tenho-os aqui. Alguns deles j os li vrias vezes. Encontro sempre algo de novo
neles. Sabe, tambm no tenho mais. Estes eram de meu pai. Deixa isso, meu diabinho!
- interrompeu ele, rindo e dirigindo-se a um esquilinho pendurado nas suas calas, que
metia o nariz num dos bolsos. - Acho que  melhor dar-lhes a paparoca, seno ainda
nos comem - disse o rapaz a rir. Este  o Sir Lancelot.  sempre o primeiro.
O rapaz puxou de uma caixinha, que abriu com cuidado, protegendo-a dos inmeros
olhitos brilhantes que observavam cada movimento. Em redor dele s se ouviam
zumbidos e batidelas de asas. Sir Lancelot, atento e vido, ocupava um dos braos da
cadeira de rodas. Um outro amiguinho, de cauda farfalhuda, menos atrevido, sentava-
se nos quartos traseiros a um metro de distncia. E um terceiro esquilo chiava
barulhento num ramo de uma rvore vizinha.
Da caixa, o rapaz tirou algumas nozes, um pozinho e uma rosca. Olhou para esta,
hesitante, e perguntou a Pollyanna:
- Traz alguma coisa?
- Sim, trago muita coisa - respondeu Pollyanna, batendo no saco que trazia.
- Ento, hoje talvez a coma - disse o rapaz, guardando a rosca com ar de alvio.
Pollyanna, para quem esse gesto passou quase desapercebido, meteu os dedos no seu
prprio saco e deu incio ao banquete.
Foi uma hora maravilhosa. Para Pollyanna, foram os momentos mais maravilhosos que
passou desde que chegara a Boston, pois tinha encontrado algum com quem podia
falar depressa e durante todo o tempo que queria. Este estranho jovem parecia dispor
de uma coletnea de histrias maravilhosas sobre bravos guerreiros e lindas damas, de
torneios e batalhas. Alm disso, descrevia as suas imagens com tanta nitidez e
vivacidade, que Pollyanna via com os seus prprios olhos os feitos valorosos dos
guerreiros em armas, e as belas damas com tranas, trajando vestidos carregados de
jias.
As "Senhoras da Caridade" foram esquecidas. Nem sequer pensava no "Jogo do
Contentamento". Pollyanna, com a face corada e os olhos brilhantes, percorria aquela
poca encantada conduzida por um rapaz que se alimentava de romances, e que, apesar
de o desconhecer, tentava meter nessa curta hora em que estava acompanhado
inmeros dias de solido.
Quando soou o meio-dia, Pollyanna apressou-se a regressar a casa e, no caminho,
lembrou-se de que nem sabia o nome do rapaz. "S sei que no se chama Sir James", e
suspirou,franzindo a testa contrariada. "Mas no faz mal, amanh vou perguntar-lhe."
   6. Jamie

No dia seguinte, Pollyanna no viu o rapaz. Estava a chover e no pde ir ao jardim.
No outro dia tambm choveu. Nem sequer no terceiro dia. Apesar de o Sol ter voltado
a brilhar e embora ela tenha ido ao princpio da tarde para o jardim e ter esperado
bastante, ele no apareceu. Mas no quarto dia, sim, ele l estava no stio do costume e
Pollyanna apressou-se a ir cumpriment-lo alegremente.
- Estou to contente por o ver! Onde esteve? No tem vindo.
- No pude. Tive muitas dores - explicou o rapaz bastante plido.
- Teve dores? - inquiriu Pollyanna cheia de pena.
- Sim, tenho-as sempre - respondeu o rapaz, com naturalidade. Quase sempre consigo
suport-las e, ento, venho c. S quando pioro, como nestes dias,  que no venho.
- Mas como aguenta as dores sempre?
- Tenho que aguentar - respondeu o rapaz, abrindo mais os olhos. - As coisas so
como so e no podem ser de outro modo. Para que serve imaginar que poderiam ser
diferentes? De resto, quanto mais di num dia, mais agradvel se torna no dia seguinte,
quando di menos.
- Eu sei.  como o jogo... - ia Pollyanna a dizer, mas o rapaz interrompeu-a.
- Hoje, trouxe muita comida? - perguntou ele ansioso. - Espero que sim! Eu no
consegui trazer nada. O Jerry no conseguiu poupar um cntimo e esta manh no
havia comida suficiente para eu trazer.
Pollyanna olhou cada vez mais comovida.
- E o que faz quando no tem nada para comer?
- Passo fome!
- Nunca conheci ningum que no tivesse nada para comer - disse Pollyanna com voz
trmula. -  claro que o pai e eu ramos pobres, e tnhamos de comer feijes e pastis
de peixe quando o que nos apetecia era peru. Mas tnhamos sempre alguma coisa.
Porque no se queixa voc s pessoas que vivem aqui nestas casas?
- Ora, no servia de nada!
- Como assim, no lhe dariam alguma coisa? O rapaz voltou a rir, mas agora de modo
estranho.
- Ningum, que eu conhea, deita fora carne assada e bolos com natas! Alm disso, se
nunca passarmos fome, no sabemos como  bom saborear batatas e leite e no teria
grande coisa para escrever no meu Livro das Alegrias.
- Escrever onde?
O rapaz riu embaraadamente e corou.
- Esquea! Pensava que falava com a Mumsey ou o Jerry.
- Mas o que  o seu Livro das Alegrias? - insistiu Pollyanna. - Conte-me, por favor. Os
cavaleiros, os lordes e as damas entram nesse livro?
O rapaz disse que no com a cabea. Os olhos deixaram de sorrir e assumiu uma
expresso triste.
- No, antes estivessem! - disse ele, suspirando tristemente. - Bem v, quando no
podemos andar, tambm no podemos combater nem ter damas que nos dem a
espada e concedam talisms.
- Os olhos do rapaz iluminaram-se com um brilho sbito. Ergueu o queixo
altivamente. Depois, tambm com rapidez, o brilho esmoreceu e o rapaz caiu de novo
na sua tristeza.
- No podemos fazer nada - concluiu ele, desanimadamente. - S podemos sentar-nos
e pensar, s vezes at com pensamentos desagradveis. Eu queria r  escola e aprender
mais coisas do que a Mumsey me pode ensinar. Penso muito nisso. Queria correr, e
jogar  bola com os outros rapazes. Tambm penso nisso. Queria ir para a rua vender
jornais com o Jerry. No queria que tomassem conta de mim por toda a vida. enfim,
penso nisso tudo!
- Eu tambm sei isso - disse Pollyanna suspirando. - Eu tambm perdi as minhas
pernas durante algum tempo.
- Perdeu? Ento deve saber alguma coisa. Mas recuperou-as. e eu no - disse o rapaz
com um ar ainda mais sombrio.
- Voltando atrs: ainda no me contou sobre o Livro das Alegrias - insistiu Pollyanna.
O rapaz riu, um pouco envergonhado.
- Sabe, no  grande coisa, a no ser para mim. Para si no deve ter grande
importncia. Comecei a escrev-lo h um ano. Nesse dia sentia-me especialmente mal.
Nada corria bem. No parava de me lamentar. Ento, agarrei num dos livros do pai e
tentei l-lo. A primeira coisa que li, foi isto, que decorei:

"Os prazeres so mais intensos
Onde parecem no existir
No h uma folha que caia no solo
Que no tenha uma alegria de silncio ou de som" *

(* Blanchard, "Alegrias Ocultas" - in Ofertas Liricas)
- Fiquei fulo. Queria ver o tipo que escreveu aquilo no meu lugar e ver que gnero de
alegria ele podia encontrar nas minhas "folhas". Estava to zangado, que decidi
demonstrar que ele no sabia o que dizia, e, assim, comecei a procurar as alegrias nas
minhas "folhas". Peguei num pequeno bloco-notas vazio, que o Jerry me tinha dado, e
decidi escrev-las. Tudo o que tivesse a ver com alguma coisa de que eu gostasse,
escrevia no livro. Poderia desse modo saber quantas "alegrias" eu tinha.
- Sim, sim! - exclamou Pollyanna interessadssima, quando o rapaz fez uma pausa para
respirar.
- Bem, no estava  espera de arranjar muitas, mas ainda arranjei bastantes. Em quase
tudo havia sempre alguma coisa de que eu gostava um pouco e, assim, tinha quase
sempre assunto para escrever. Primeiro, foi o prprio livro, o fato de o ter arranjado e
ter decidido escrever nele. Depois, uma pessoa ofereceu-me uma flor num vaso, e o
Jerry encontrou um livro giro no metropolitano. A partir da tornou-se-me
divertidssimo procurar motivos de alegria e encontrava-os nos lugares mais estranhos.
Um dia, o Jerry descobriu o bloco-notas e percebeu o que era. Desde ento, ficou a ser
o Livro das Alegrias. E  tudo.
- Tudo? - exclamou Pollyanna, deliciada e surpreendida, procurando controlar-se. -
Calcule,isso  o mesmo que o meu jogo! Voc est a jogar o "Jogo do Contentamento"
sem o conhecer. Bem, talvez esteja a jog-lo melhor do que eu! Penso que o no
conseguiria jogar, se no tivesse que comer e no pudesse mesmo andar - disse ela
comovida.
- Jogo? Que jogo? No conheo jogo nenhum! disse o rapaz, franzindo a testa.
Pollyanna bateu as palmas.
- Eu sei que no conhece e  por isso que  to bonito! Mas oua: vou explicar-lhe o
que  o jogo.
E ela explicou.
- Ah! - exclamou o rapaz, satisfeito, quando ela acabou. - Quem diria!
- E voc a est a jogar o meu jogo, melhor do que toda a gente que conheo, e eu
ainda nem sequer sei o seu nome! - exclamou Pollyanna, em tom quase escandalizado. -
Quero saber tudo a seu respeito e desse famoso Livro das Alegrias.
- S que no h mais nada para saber. Alm disso est aqui o pobre Sir Lancelot e os
outros  espera de comida - concluiu ele.
-  verdade, aqui esto eles - disse Pollyanna, suspirando e olhando impaciente para as
criaturas que se agitavam em torno deles. Com deciso, virou o saco de pernas para o
ar e espalhou o que trazia aos quatro ventos. - Pronto, j est. Agora podemos
conversar outra vez - disse ela, contente. - E h uma quantidade de coisas que eu quero
saber. Primeiro, por favor, como se chama? S sei que no  Sir James.
O rapaz sorriu.
- No sou de fato, mas  assim que o Jerry quase sempre me chama. Mumsey e os
outros chamam- me Jamie.
- Jamie! - Pollyanna conteve a respirao, com um brilho de esperana a cintilar-lhe
nos olhos. Mas quase de seguida sentiu-se assaltada pela dvida.
- Mumsey significa me?
- Claro!
Pollyanna descontraiu-se. Se Jamie tinha uma me, no podia ser o mesmo Jamie de
Mrs. Carew, cuja me morrera h muito tempo. Mas se fosse ele, que interessante que
era.
- Onde vive? Tem mais algum de famlia, para alm de sua me e do Jerry? Vem para
aqui todos os dias? Onde est o seu Livro das Alegrias? Posso v-lo? Os mdicos j o
desiludiram de voltar a andar? Onde disse que arranjou esta cadeira de rodas?
O rapaz respondeu troando.
- Tantas perguntas! Quer que comece por qual? Bem, vou comear pela ltima,
portanto do fim para o princpio. Assim talvez no me esquea de nenhuma. Arranjei
esta cadeira de rodas h um ano. Jerry conhece um jornalista que escreveu sobre mim,
dizendo que eu no podia andar, etc. e falava do Livro das Alegrias. Logo apareceu
uma quantidade de homens e mulheres com esta cadeira de rodas para mim. Disseram-
me que tinham lido tudo acerca de mim e que queriam que eu ficasse com ela para me
recordar deles.
- Mas que contente deve ter ficado!
-  verdade! Gastei uma pgina inteira do Livro das Alegrias para contar tudo sobre a
cadeira.
- Mas nunca mais pode voltar a andar? - os olhos de Pollyanna estavam rasos de
lgrimas.
- Infelizmente, disseram que no.
- Tambm me disseram isso, mas depois mandaram-me para o Dr. Ames, onde fiquei
quase um ano, e ele ps-me a andar. Talvez que ele pudesse fazer o mesmo consigo!
O rapaz fez que no com a cabea.
- Oh, no podia! De qualquer maneira no podia l ir tratar-me. Devia custar muito
dinheiro. J me convenci de que nunca mais voltarei a andar. Pacincia! - e o rapaz
atirou a cabea para trs num gesto de impacincia. - Procuro no pensar nisso. Sabe
como  quando o nosso pensamento comea a trabalhar.
- Sim, claro, e eu a falar disso! - exclamou Pollyanna, arrependida. - J lhe disse que
sabe jogar o jogo melhor do que eu. Continue, pois ainda nem
sequer me contou metade. Onde vive? E o Jerry,  o nico irmo que tem?
Uma expresso doce surgiu no rosto do rapaz. Os olhos brilharam-lhe.
- Ele no  da famlia, nem a Mumsey! Oh, mas tm sido to bons para mim!
- O qu? - perguntou Pollyanna, imediatamente alerta. - Ento essa tal "Mumsey" no
 a sua me?
- No.
- E no tem me? - perguntou Pollyanna cada vez mais agitada.
- No, no me lembro de alguma vez ter tido me, e o pai morreu h seis anos.
- Que idade tinha?
- No sei. Era pequeno. A Mumsey diz que eu tinha uns seis anos. Foi nessa altura que
ficaram comigo.
- E chama-se Jamie? - Pollyanna continha a respirao.
- Sim, j lhe disse.
- Mas com certeza tem outro nome!
- No sei.
- No sabe?
- No me lembro. Era demasiado pequeno e nem os Murphys sabem. S me
conheceram por Jamie.
Uma expresso de grande desapontamento surgiu no rosto de Pollyanna, mas quase de
imediato um novo pensamento afastou-lhe as sombras.
- Se no sabe qual  o seu apelido tambm no pode saber se  ou no Kent! -
exclamou ela.
- Kent? - perguntou o rapaz, confuso.
- Sim - respondeu Pollyanna, excitadssima. Sabe,  que h um rapazinho chamado
Jamie Kent que. - ela parou de repente e mordeu o lbio.
Ocorrera a Pollyanna que no seria simptico dar a conhecer ao rapaz a sua esperana
de que ele fosse o desaparecido Jamie. Era prefervel que ela se certificasse antes de
suscitar quaisquer expectativas, pois de outro modo podia causar mais tristeza do que
alegria.
- Bom, esqueamos isso do Jamie Kent. Fale-me antes de si, por quem estou mais
interessada.
- No h mais nada a contar. No sei nada de interessante - disse o rapaz hesitante. -
Disseram-me que o meu pai era estranho e nunca falava. E que nem sequer sabiam
como se chamava. Todos lhe chamavam "o professor". Mumsey diz que ele e eu
vivamos num pequeno quarto das traseiras, no ltimo andar de uma casa em Lowell, e
que ramos pobres, mas no tanto como agora. O pai de Jerry era vivo nessa altura e
tinha um emprego.
- Sim, sim, continue - instou Pollyanna.
- Bem, a Mumsey diz que o meu pai estava bastante doente e se tornou cada vez mais
estranho, de maneira que, por isso, tinham-me com eles uma boa parte do tempo.
Nessa altura eu conseguia andar um pouco, mas as minhas pernas j no estavam bem.
Brincava com o Jerry e com a menina que morreu. Entretanto, o meu pai morreu e no
havia ningum que tomasse conta de mim. Foi ento que umas pessoas queriam pr-
me num orfanato, mas a Mumsey disse que ficava comigo e o Jerry esteve de acordo. E
assim fiquei com eles. A menina tinha morrido e eles disseram que eu podia tomar o
lugar dela. Desde ento tm tomado conta de mim. Depois ca e fiquei pior. Agora eles
so muitssimo pobres porque o pai de Jerry morreu. Mas continuam a tomar conta de
mim. No so to bons?
- Sim, sim - exclamou Pollyanna. - Mas ho-de ter a sua recompensa. Tenho a certeza,
sero recompensados!
Pollyanna tremia agora toda de satisfao. A ltima dvida tinha desaparecido.
Encontrara o desaparecido Jamie. Tinha a certeza. Mas, prudentemente, no devia
ainda falar. Mrs. Carew devia v-lo primeiro. Depois... Bem, nem a imaginao de
Pollyanna conseguia visualizar a imagem do feliz reencontro de Mrs. Carew com
Jamie!
Ps-se de p de repente, com desrespeito manifesto por Sir Lancelot, que tinha voltado
e estava a meter o nariz no colo dela  procura de mais nozes.
- Bom, tenho de me ir embora j, mas amanh volto. Talvez traga comigo uma senhora
que, julgo, gostar de o conhecer. Voc tambm volta c amanh? - quis ela saber,
ansiosa.
- Sim. Jerry traz-me c quase todas as manhs. Eles preparam as coisas para mim de
maneira a eu trazer o meu almoo e ficar at s quatro da tarde. O Jerry  muito bom
para mim!
- Eu sei, eu sei - assentiu Pollyanna. - Entretanto, talvez eu encontre outra pessoa boa
para si!
         planos
   7. Os planos de Pollyanna

No caminho para casa, Pollyanna foi idealizando alegres planos. No dia seguinte, de
uma maneira ou de outra, teria de convencer Mrs. Carew a acompanh-la num passeio
ao Jardim Pblico. No sabia bem como havia de arranjar as coisas, mas teria de o
conseguir.
Estava fora de questo dizer diretamente a Mrs. Carew que tinha encontrado Jamie e
que desejava que ela fosse v-lo. Havia a possibilidade de este no ser o Jamie dela. E
se no fosse, teria suscitado falsas esperanas a Mrs. Carew, podendo o resultado ser
desastroso. Atravs de Mary, Pollyanna soubera que j por duas vezes Mrs. Carew
ficara muito doente em consequncia de grandes desiluses ao seguir pistas que a
conduziram a rapazinhos que no eram o filho da falecida irm. Assim, Pollyanna
sabia que no podia dizer a Mrs. Carew a razo por que queria que a acompanhasse
num passeio ao Jardim Pblico, no dia seguinte. E foi a pensar nisso que Pollyanna
regressou a casa.
Porm, o destino, mais uma vez, interveio sob a forma de uma forte carga de gua, e
bastou a Pollyanna olhar para a rua, na manh seguinte, para saber como a inteno lhe
sara furada. E o pior foi que nem nos dois dias seguintes as nuvens desapareceram.
Pollyanna passou trs tardes inteiras a caminhar de uma janela para outra, olhando o
cu e perguntando ansiosamente a toda a gente: "No acham que vai levantar?"
Tal comportamento era to estranho na alegre menina e as perguntas constantes eram
to irritantes, que Mrs. Carew acabou por perder a pacincia.
- Por amor de Deus, menina, qual  o seu problema? - exclamou ela. - Como me
surpreende que se preocupe tanto com o tempo! Afinal, onde est hoje esse seu belo
jogo?
Pollyanna corou e ficou cabisbaixa.
-  verdade, parece que desta vez me esqueci do jogo - admitiu ela. - E, claro, se
procurar encontrarei algo que me d contentamento. Posso ficar contente porque, uma
vez, Deus disse que no mandaria outro dilvio. E tudo isto porque eu queria tanto
que hoje fizesse bom tempo!
- E porque hoje especialmente?
- Queria ir passear para o Jardim Pblico. Pollyanna procurou falar
despreocupadamente. Quis assim, exteriormente, manifestar uma indiferena afetada.
Embora, interiormente, tremesse de excitao e expectativa.
- Talvez Mrs. Carew gostasse de ir comigo? -arriscou-se.
- Eu? Ir passear ao Jardim Pblico? - perguntou Mrs. Carew de sobrolho ligeiramente
levantado. No, obrigada, receio que no - respondeu sorrindo.
- Pensei que no recusasse! - hesitou Pollyanna, quase em pnico.
- Pois recuso!
Pollyanna procurava controlar-se, aflita. Estava muito plida.
- Mas, por favor, Mrs. Carew... por favor no diga que no vai! - pediu ela. - Queria
que viesse comigo por uma razo especial. Desta vez, s desta vez!
Mrs. Carew franziu a testa. Ia a abrir a boca para dizer um "no" bem determinado,
mas algo nos olhos suplicantes de Pollyanna lhe alterou tal propsito porque, ao
responder, pronunciou um "sim", ainda que vago.
- Est bem, menina, farei como pede, mas, ao prometer-lhe ir, ter tambm de
prometer que no se aproxima da janela durante uma hora e no volta mais a perguntar
com tanta insistncia se o tempo vai levantar, est bem?
- Est! - exclamou, excitada, Pollyanna. Logo a seguir, quando uma rstea de luz plida
que era quase um raio de sol atravessou a janela, ela gritou de alegria:
- Acha que vai. - levou a mo  boca, lembrando-se da promessa, e fugiu da sala a
correr.
O tempo melhorou s na manh seguinte. Porm, no obstante o sol brilhar, estava
fresco; e  tarde, quando Pollyanna regressou da escola, sentia-se mesmo um vento frio.
E, ao contrrio de todos, insistia que estava um lindo dia e que ficaria infelicssima se
Mrs.Carew no fosse passear com ela ao jardim.  claro que Mrs. Carew acabou por ir,
mesmo contrariada.
Como seria de esperar, foi uma sada infrutfera. A senhora impaciente e a menina
ansiosa, caminharam apressadamente cheias de frio, pelos arruamentos do jardim.
Pollyanna, no encontrando o rapaz onde era habitual, procurava nervosamente por
todos os cantos do jardim. No se conformava. Ali andava acompanhada de Mrs.
Carew, e no via Jamie. E como era irritante no poder dizer nada  senhora!
Finalmente, cheia de frio e fula, Mrs. Carew insistiu em irem para casa. Pollyanna,
desesperada, no teve outro remdio seno fazer-lhe a vontade.
Os dias que seguiram foram de tristeza para Pollyanna. Para ela, parecia um segundo
dilvio; s que do ponto de vista de Mrs. Carew no passava das chuvas habituais de
Outono. Depois, veio nevoeiro, umidade, nuvens e mais frio. Se, por acaso, surgia um
dia de sol, Pollyanna corria imediatamente at ao jardim. Mas em vo, Jamie no estava
l. J estavam em meados de Novembro e o prprio jardim apresentava-se cada vez
mais triste. As rvores estavam nuas, os bancos mais vazios e no se via um barco no
lago.  verdade que os esquilos e os pombos continuavam por l, mas dar-lhes de
comer constitua mais uma tristeza do que uma alegria, porque cada sacudidela da
cauda de Sir Lancelot lhe trazia memrias amargas do rapaz que o batizara e estava
ausente.
"E eu que no lhe perguntei onde vivia!", lamentava-se Pollyanna,  medida que os dias
passavam.
"Chama-se Jamie. S sei que se chama Jamie. Ser que tenho agora de esperar at 
Primavera e que faa calor suficiente para ele voltar? E se nessa altura j no posso vir
c?"
Mas, numa tarde sombria, aconteceu o inesperado. Ao passar pelo hall superior ouviu
vozes zangadas no andar de baixo, e reconheceu numa delas a de Mary e uma outra
que dizia:
- Nem pensar! No sou um pedinte, est a perceber? Quero falar  menina Pollyanna,
porque tenho um recado para ela, de Sir James. V, v cham-la, se no se importa.
Com uma exclamao de alegria, Pollyanna desceu as escadas a correr.
- Estou aqui, estou aqui! O que ? Foi o Jamie que o mandou?
Assim agitada, quase se ia a atirar de braos abertos para o rapaz, quando Mary,
escandalizada, a interceptou com mo firme.
- Miss Pollyanna, conhece este pedinte? O rapaz barafustou, zangado; mas antes de ele
poder falar mais, Pollyanna interps-se e disse:
- Ele no  pedinte.  um dos meus melhores amigos. - Depois virou- se para o rapaz e
perguntou ansiosa - O que ? Foi o Jamie que o mandou?
- Foi. H um ms que est de cama sem se levantar. Est doente e quer v-la. Pode vir?
- Doente? Que pena! - lamentou Pollyanna. Claro que vou. Vou buscar j o meu
chapu e o meu casaco.
- Miss Pollyanna! - protestou Mary, reprovadora. - Como se Mrs. Carew a deixasse ir a
algum stio com um rapaz assim to estranho!
- Mas ele no  um estranho! - objetou Pollyanna. J o conheo h muito tempo e
tenho de ir. Eu...
- Afinal, que vem a ser tudo isto? - perguntou Mrs. Carew, severa, vinda da sala. -
Quem  este rapaz, Pollyanna. O que faz ele aqui?
Pollyanna virou-se com vivacidade.
- Mrs. Carew deixa-me ir, no deixa?
- Ir aonde?
- Ver o meu irmo, minha senhora - interrompeu o rapaz apressadamente e
esforando-se por ser bem educado. - Ele est inquieto e no descansou enquanto eu
no vim pedir a Pollyanna que o fosse visitar. Ele at tem vises com ela.
- Posso ir, no posso? - suplicou Pollyanna. Mrs. Carew franziu o sobrolho.
- Ir com este rapaz, menina? Evidentemente que no! Admira-me como pode ser to
rebelde ao pensar nisso por um instante!
- Mas eu quero ir - insistiu Pollyanna.
- Que criana absurda! Nem pense nisso. Pode dar algum dinheiro a este rapaz se
quiser, mas.
- Obrigado senhora, mas eu no vim aqui  procura de dinheiro - respondeu o rapaz
ofendido. - Vim  procura dela.
- Sim, Mrs. Carew, este  o Jerry, Jerry Murphy, o rapaz que vende jornais c na rua -
apoiou Pollyanna.
- Deixa-me agora ir com ele?
Mrs. Carew abanou a cabea, objetando:
- Isso est fora de questo, Pollyanna.
- Mas Jam,o outro rapaz, est doente e quer-me ver!
- No posso consentir.
- Conheo-o muito bem,Mrs. Carew. A srio que conheo. Ele l livros muito bonitos,
cheios de cavaleiros, lordes e damas e d de comer aos pssaros e aos esquilos, d-lhes
nomes e tudo isso. Ele no pode andar, e, alm disso, muitas vezes no tem comida
suficiente. E tambm joga, desde h um ano, o meu jogo e eu no sabia. Consegue at
jog-lo muito melhor do que eu. H vrios dias que ando  procura dele. A srio, Mrs.
Carew, com honestidade, tenho de o ver - dizia Pollyanna, quase soluando. - No o
posso perder outra vez!
O rosto de Pollyanna estava vermelho de aflio.
- Pollyanna, tudo isso  um completo disparate. Estou surpreendida por a menina
insistir em fazer uma coisa que eu reprovo. No posso permitir que v com este rapaz.
No quero saber de mais nada.
No rosto de Pollyanna surgiu uma expresso nova. De olhar meio assustado, meio
exaltado, levantou o queixo e enfrentou Mrs. Carew. Trmula e determinada, disse
ento:
- Nesse caso, terei de lhe dizer. No tencionava faz-lo antes de ter a certeza. Queria
que o visse primeiro, mas agora tenho de lhe dizer. No o posso perder outra vez. Mrs.
Carew, penso que  o Jamie, o seu Jamie.
- Jamie? No! O meu Jamie? - O rosto de Mrs. Carew tornou-se subitamente plido.
- Sim.
-  impossvel!
- At pode ser. Mas por favor, ele chama-se Jamie e no sabe o apelido. O pai morreu
quando ele tinha seis anos e no se lembra da me. Agora julga ter doze anos. Estas
pessoas tomaram conta dele quando o pai lhe morreu. O pai era esquisito e jamais
disse a algum o nome,e...
Mrs. Carew interrompeu-a com um gesto. Com efeito, a senhora estava cada vez mais
plida, e os seus olhos irradiavam um brilho indescritvel.
- Vamos imediatamente - disse ela. - Mary, diga ao Perkins para preparar j o carro.
Pollyanna,v buscar o seu chapu e o casaco. Rapaz,por favor espera aqui. Iremos
contigo imediatamente. - E foi-se, escada acima, a correr.
No hall, finalmente, o rapaz pde respirar fundo, desabafando:
- Chi! Agora at vamos de carro! Mas que nvel! Que dir Sir James?




   8. No beco dos Murphys

Com o rudo opulento que parece caracterizar as limusines de luxo, o automvel de
Mrs. Carew atravessou a Commonwelth Avenue e subiu Arlington Street, em direo a
Charles. No banco de trs sentava- se uma menina de olhos brilhantes e uma senhora
crispada e plida.  frente, dando indicaes ao motorista pouco satisfeito, sentava- se
Jerry Murphy, orgulhoso e empavonado.
Quando a limusine parou diante de uma porta de aspecto pobre, num ptio sujo, o
rapaz saltou para o cho e, numa imitao ridcula das pomposidades que j observara
muitas vezes, abriu a porta do automvel e ficou  espera das damas.
Pollyanna saltou imediatamente, com os olhos abertos de espanto e tristeza, mirando
em redor. Atrs dela saiu Mrs. Carew, visivelmente incomodada pela sordidez do
ambiente e pelas crianas mal vestidas da vizinhana que acorreram imediatamente.
Jerry, zangado, gesticulava e bravateava.
- Vo-se embora! Isto no  cinema grtis! Desapaream! Temos de passar, Jamie tem
visitas.
Mrs. Carew pousou a mo trmula no ombro de Jerry.
-  melhor no ir! - disse ela depois, recuando. O rapaz, porm, no a ouviu. 
cotovelada e empurrando, abriu caminho  fora. E antes de Mrs. Carew saber como,
chegou com o rapaz e Pollyanna ao vo de umas escadas, num hall mal iluminado e
com cheiro a bafio.
Mais uma vez Mrs. Carew estendeu a mo trmula.
- Esperem - ordenou ela. - Lembrem-se! No digam uma palavra sobre a possibilidade
de ele ser o rapaz que eu procuro. Tenho de o ver primeiro com os meus prprios
olhos e interrog-lo.
- Com certeza! - concordou Pollyanna.
- Est bem. Concordo - disse o rapaz acenando afirmativamente. Agora, subam com
cuidado. As escadas tm buracos e h quase sempre midos a dormir nos patamares. O
elevador no est hoje a funcionar - disse ele a brincar. - Tm que subir at ao ltimo
andar!
Mrs. Carew deu pelos buracos nas tbuas, que rangiam assustadoramente, e cruzou-se
com um mido, um beb de dois anos, que brincava com uma lata vazia dependurada
num fio. As portas estavam abertas e viam-se mulheres mal vestidas e despenteadas ou
crianas de caras sujas. Algures, ouvia-se um beb a chorar. De outro lado, o praguejar
de um homem. Por toda a parte se sentia um cheiro nauseabundo.
No cimo do ltimo lance de escadas, o rapaz parou diante de uma porta fechada.
- Estou a pensar no que dir Sir James quando vir as visitas que lhe trago. A Mumsey,
sei o que far. Comear a soluar, comovida, quando vir o Jamie to encantado.
At que escancarou a porta, dizendo alegremente:
- Aqui estamos. Viemos de carro e tudo! Que me diz, ento Sir James?
Era um quarto pequeno, frio e triste, quase sem moblia, mas escrupulosamente limpo.
No havia por ali cabeas desgrenhadas, nem crianas choramingonas, nem cheiros a
usque ou sujidade. Havia duas camas, trs cadeiras partidas, uma mesa e um fogo.
Numa das camas, um rapaz de bochechas vermelhas e olhos febris,estava deitado.
Junto dele, sentava-se uma mulher, muito plida e vergada pelo reumatismo.
Mrs. Carew entrou no quarto. Como se precisasse de uma pausa para se recompor,
encostou-se por momentos  parede. Pollyanna correu para o rapaz deitado com um
pequeno grito, enquanto Jerry se retirou.
- Oh, Jamie! Como estou contente por voltar a ver-te! - exclamou Pollyanna. - Nem
imaginas como te procurei todos os dias! Que pena me faz estares doente!
Jamie sorriu radiante e estendeu a mo macilenta e magra.
- Eu no estou triste, estou contente porque assim vieste ver-me. Alm disso, j me
sinto melhor. Mumsey, esta  a menina que me falou do jogo da alegria. Sabes, a
Mumsey, agora, tambm o joga. - disse ele triunfante, virando-se para Pollyanna. -
Antes, ela chorava, porque lhe doam muito as costas, impedindo-a de trabalhar.
Depois, quando eu fiquei doente, ela ficou contente por no poder trabalhar, pois
assim podia ficar aqui a tomar conta de mim.
Nesse momento Mrs. Carew aproximou-se. Os seus olhos, meio receosos e meio
saudosos, observaram atentamente o rosto do rapaz paraltico.
-  Mrs. Carew. Trouxe-a para te ver, Jamie - disse Pollyanna, timidamente.
A mulherzinha, curvada, tinha-se entretanto posto de p junto da cama. Oferecia
nervosamente a cadeira  senhora. Mrs. Carew aceitou sem dar grande ateno. Os
olhos continuavam fixados no rapaz deitado.
- Chamas-te Jamie? - perguntou ela com dificuldade visvel.
- Sim, senhora! - Os olhos brilhantes do rapaz olhavam diretamente para os dela.
- Qual  o teu outro nome?
- No sei.
- No  seu filho?
Pela primeira vez, Mrs. Carew virou-se e dirigiu-se  mulherzinha curvada, que
continuava junto  cama.
- No, minha senhora.
- E no sabe como ele se chama?
- No, minha senhora. Nunca soube.
Com um gesto de desespero, Mrs. Carew virou-se outra vez para o rapaz.
- Pensa bem, no te lembras de nada para alm de o teu nome ser Jamie? O rapaz
abanou a cabea e os seus olhos espelhavam surpresa.
- No, mesmo nada.
- No tens qualquer coisa que pertencesse a teu pai e que tenha o nome dele escrito?
- No havia nada que valesse a pena guardar, para alm dos seus livros - disse Mrs.
Murphy. - Talvez queiram v-los - sugeriu ela, apontando para uma fila de livros
gastos, existentes numa prateleira, perguntando de imediato, com curiosidade
incontida: - Acha que o conhecia, minha senhora?
- No sei - murmurou Mrs. Carew enquanto se levantava e atravessava o quarto
dirigindo-se  prateleira dos livros.
No eram muitos, talvez dez ou doze. Havia um volume com peas de Shakespeare,
um de "Ivanhoe", outro da "Dama do Lago" em muito mau estado, um livro com
poemas diversos, um livro de Tennyson sem capa, um pequeno "Lord De Fauntleroy"
e mais dois ou trs de histria medieval. Mas, embora Mrs. Carew observasse
minuciosamente cada um deles, no descobriu nenhuma palavra escrita nem qualquer
outra coisa que indiciasse o seu antigo dono. Com um suspiro de desespero voltou-se
para o rapaz e para a mulher que a observavam surpreendidos.
- Gostava que me contassem o que sabem sobre vocs prprios - disse ela, hesitante,
sentando-se novamente na cadeira junto da cama.
E contaram-lhe. Era praticamente a mesma histria que o Jamie j tinha contado a
Pollyanna no Jardim Pblico. Pouco havia de novo e no havia nada de significativo,
apesar das perguntas insistentes de Mrs. Carew.No fim, Jamie dirigiu os olhos ansiosos
para o rosto de Mrs. Carew.
- Acha que conhecia o meu pai? - perguntou. Mrs. Carew fechou os olhos e levou a
mo  cabea.
- No sei - respondeu ela - Mas acho que no. Pollyanna soltou uma exclamao de
desaponta mento, e imediatamente levou a mo  boca, obedecendo a um olhar
reprovador de Mrs. Carew.
- Foste to boa em vir! - disse Jamie a Pollyanna num tom de agradecimento. - Como
est Sir Lancelot? Continuas a ir dar-lhe de comer?
Pollyanna no respondeu imediatamente. Os olhos dele deslocavam-se entre o rosto
dela e o ramo de flores cor-de-rosa numa garrafa de gargalo partido.
- J viste as minhas flores? Foi Jerry que mas trouxe. Algum as deitou para o cho e
ele apanhou-as. No so bonitas? E tm um bocadinho de cheiro. Mas Pollyanna
pareceu nem sequer ouvi-lo. Continuava a olhar perscrutadoramente o quarto inteiro,
remexendo as mos nervosamente.
- S no percebo como  que podes jogar o jogo, aqui, Jamie - disse ela quase a
gaguejar. - Acho difcil existir um lugar to horrvel para viver - disse ela tristemente.
- Havias de ver os Pykes, no andar de baixo. O quarto deles  muito pior do que este.
Nem sabes a quantidade de coisas boas que existem neste quarto. Se, ao menos, o
pudssemos manter... Sabes, o problema  que temos de o largar. Isso, agora  que nos
preocupa mais.
- Largar, porqu?
- Ora, porque temos a renda em atraso! A Mumsey tem estado doente e no tem
conseguido ganhar nada. - Apesar de um sorriso corajoso, a voz de Jamie vacilou. -
Miss Dolan, l em baixo, que  a senhora onde guardo a minha cadeira de rodas,
ajudou-nos esta semana. Mas, claro, que no pode continuar a fazer isso e, ento,
teremos de ir embora, se o Jerry no arranjar dinheiro.
- Mas, no podemos... - ia Pollyanna a dizer, mas calando-se logo, porque Mrs. Carew
se levantou,de repente, dizendo:
- Venha, Pollyanna, temos de ir. - Depois, virou-se para a mulher e disse-lhe: - No
precisam de sair. Vou mandar-vos comida e dinheiro imediatamente. E vou referir o
vosso caso a uma das organizaes de caridade, para que considere a vossa situao...
Surpreendida, parou de falar. A figurinha curvada da mulher que estava diante dela,
endireitara-se quase completamente. Mrs. Murphy corara e os seus olhos quase
chispavam.
- Obrigada, mas no, Mrs. Carew! - disse ela, trmula e orgulhosa. - Somos pobres,
Deus o sabe, mas no vivemos da caridade.
- Que disparate! - exclamou Mrs. Carew, severa.
- Deixam a mulher de baixo ajudar-vos... Este rapaz ainda h pouco acabou de o dizer.
- Eu sei, mas isso no  caridade. Mrs. Dolan  minha amiga. Ela sabe que eu era capaz
de lhe fazer o mesmo e j a ajudei antes. A ajuda dos amigos no  caridade. Eles
preocupam-se conosco. E  isso que faz a diferena. No fomos sempre assim to
pobres como somos agora, e isso faz-nos sofrer muito mais. Obrigada, mas no
podemos aceitar o seu dinheiro.
Mrs. Carew fez uma cara muito zangada. Fora uma hora de muito desapontamento, de
sofrimento e de cansao. Fora at muito paciente. S que agora sentia-se irritadssima.
- Muito bem, como queiram - disse friamente e acrescentando em tom irritado - nesse
caso, porque no exigem que o vosso senhorio torne este local decente enquanto aqui
esto? Decerto tm direito a ter as janelas inteiras e as escadas em condies sofrveis.
Mrs. Murphy concordou, desanimada. A sua pequena figura tinha voltado  mesma
postura de desalento.
- J tentamos, s que ele nunca est disposto a fazer nada. J falamos em tudo isso ao
procurador, e a resposta dele  que as rendas so demasiado baixas para o proprietrio
gastar dinheiro em reparaes.
- Sovinice,  o que ! - exclamou Mrs. Carew, exasperada. -  uma vergonha! Como
tambm  uma clara violao da lei - Vero, vou fazer com que se cumpra a lei. Qual 
o nome do procurador e quem  o proprietrio deste prdio?
- No sei o nome do proprietrio, senhora, mas o agente  Mr. Dodgge.
- Dodgge! - Mrs. Carew virou-se estranhamente.
- Ele chama-se Henry Dodgge?
- Sim, senhora.  isso, tambm se chama Henry.
Uma espcie de rubor aflorou no rosto de Mrs. Carew, para logo de seguida se tornar
ainda mais plida.
- Muito bem, vou ver o que posso fazer - murmurou ela em voz mais baixa,
preparando-se para sair.
- Venha Pollyanna, temos de ir.
Sentada na cama, Pollyanna despediu-se chorosa de Jamie.
- Hei-de vir c outra vez. Muito em breve - prometeu, enquanto se apressava a seguir
Mrs. Carew, que se adiantara a sair.
S depois de terem descido os trs andares e atravessado o grupo de homens, mulheres
e crianas, que gesticulavam e conversavam em redor da limusine e de Perkins,  que
Pollyanna voltou a falar. Mal o motorista, zangado, fechou as portas ela suplicou:
- Querida Mrs. Carew, por favor, diga que  o Jamie! Seria to bom para ele ser o
Jamie.
- Mas no  o Jamie!
- Tem a certeza?
Houve um compasso de espera. Depois Mrs. Carew cobriu o rosto com as mos.
- No, a certeza no tenho. Essa  a tragdia! argumentou - Eu acho que no , tenho
quase a certeza, mas, claro, h ainda essa possibilidade, e  isso que me atormenta.
- Ento porque no pensa j que ele  o Jamie? - suplicou Pollyanna - Nesse caso at o
podia levar para sua casa e... - Mrs. Carew virara-se para ela, surpreendida e irada.
- Levar esse rapaz para minha casa, no sendo o Jamie? Nunca, Pollyanna!
- Mesmo no sendo o Jamie, acho que a senhora ficaria muito contente se houvesse
algum que encontrasse o verdadeiro Jamie e o ajudasse como a senhora pode agora
fazer com este. Se o seu Jamie fosse como este, pobre e doente, no gostava que algum
tomasse conta dele, o confortasse,e...
- Pare com isso, Pollyanna - lastimou-se Mrs. Carew, virando a cabea de um lado para
o outro, num rito de dor. - Ai, quando penso que talvez nalgum lado o meu Jamie
possa estar nestas condies! um soluo no a deixou concluir a frase.
-  isso que eu quero dizer. Isso mesmo! - exclamou Pollyanna, triunfante. - Est a
perceber? Se este for o seu Jamie,  claro que o h-de querer, se no for, no estar a
fazer mal nenhum ao outro Jamie por ficar com este. Ao mesmo tempo estaria a
praticar o bem, pois faria este muito feliz, muito feliz! E se depois acabar por
encontrar o verdadeiro Jamie, no perde nada, pois tornou dois rapazinhos felizes em
vez de um, e.
- Mrs. Carew voltou de novo a interromp-la.
- Pollyanna, pare com isso! Eu quero pensar! Chorosa, Pollyanna refastelou-se no seu
banco. Com um esforo visvel, manteve-se calada durante algum tempo. Depois,
como se as palavras sassem sozinhas, ela disse:
- Que lugar to horroroso! S queria que o senhorio tivesse que l viver. Sempre queria
ver se vivia contente.
Mrs. Carew sentou-se de repente muito direita. O rosto apresentava uma mudana
curiosa. Quase como um apelo, estendeu a mo na direo de Pollyanna.
- Pare com isso - pediu ela. - At pode suceder que ela no saiba que  dona de um
lugar assim. Mas, agora vai ser arranjado.
- Ela? Ento o dono  uma mulher? Conhece-a? E tambm conhece o agente?
- Sim - Mrs. Carew mordeu os lbios. -Conheo-a a ela e conheo o agente.
- Oh, assim fico contente! - disse Pollyanna suspirando. - Ento, tudo vai ser melhor!
- Sim, decerto! - respondeu Mrs. Carew, com nfase, enquanto o carro parava diante da
porta de sua casa.
Mrs. Carew falava como se soubesse do que estava a falar. Sabia mesmo muito mais do
que dizia a Pollyanna. Antes de se deitar, naquela noite, escreveu uma carta a um tal
Henry Dodgge, convocando-o imediatamente para uma reunio, no sentido de se
fazerem alteraes e reparaes urgentes num dos prdios de que era proprietria.
Referia-se ainda a janelas partidas, escadas esburacadas. O que havia de levar o dito
Henry Dodgge a franzir a testa zangado e a praguejar, ao mesmo tempo que
empalidecia, receoso.




   9. Uma surpresa para Mrs. Carew

Tendo a questo das reparaes e dos melhoramentos sido eficientemente resolvida,
Mrs. Carew disse a si prpria que tinha cumprido o seu dever e que o assunto estava
encerrado. Havia de esquecer. O rapaz no era o Jamie, nem o podia ser. Aquele rapaz
doente, ignorante e aleijado ser o filho da sua falecida irm? Impossvel! Tinha de
afastar essa ideia da cabea.
Foi a, porm, que Mrs. Carew se encontrou perante uma barreira inultrapassvel.
Tudo aquilo persistia em no lhe sair da cabea. Diante dos olhos via sempre a
imagem daquele quartinho mido e do rapazinho triste. Aos seus ouvidos soava
constantemente aquela frase comovedora: "E se fosse o Jamie?". Alm disso, estava
sempre ali Pollyanna, e mesmo que Mrs. Carew mandasse calar as queixas e as
perguntas da menina, no havia maneira de lhe acabar com o olhar reprovador.
Outras duas vezes, desesperada, Mrs. Carew foi ver o rapaz, dizendo a si prpria que
apenas precisava de mais uma visita para se convencer de que ele no era quem
suspeitava. Quando estava na presena do rapaz,ela dizia a si prpria estar convencida,
mas, depois de se afastar dele, as mesmas dvidas voltavam a assalt-la. Finalmente, em
estado de grande desespero, escreveu  irm e contou-lhe a histria toda.

"Querida Della, no tencionava contar-te, pois achava que no valia a pena entusiasmar-te nem
suscitar falsas esperanas. Tenho a certeza de que no  ele e, no entanto, ao escrever estas
palavras, sei que no estou certa.  por isso que quero que venhas c. Tens que vir depressa.
Quero que o vejas.Estou desejosa de saber o que vais dizer.  claro que no vemos o nosso Jamie
desde os quatro anos. Teria agora doze. Este rapaz tem doze, creio eu (ele no sabe a sua idade
ao certo). Os olhos e os cabelos no so diferentes dos do nosso Jamie.  aleijado, mas ficou assim
depois de uma queda, h seis anos, e ficou ainda pior a seguir a outra queda quatro anos mais
tarde.  impossvel obter uma descrio completa do pai, mas, daquilo que sei, no h nada de
conclusivo a favor ou contra o fato de ele ser o marido da Doris. Chamavam-lhe professor, era
um homem estranho e parecia no ter mais nada seno livros. Isto, pode ou no significar nada.
O Kent, era decerto estranho e bomio nos seus gostos. Se ele se preocupava ou no com livros, no
me lembro. Lembras-te? E,  claro, que o titulo de professor pode ter sido assumido por ele, ou
apenas ter-lhe sido dado por outras pessoas. Quanto a este rapaz, no sei. Mas tenho esperanas
que tu consigas descobrir.
Ruth."

Della veio imediatamente e foi logo ver o rapaz. Mas tambm ela ficou indecisa.
Achou que no devia ser o Jamie, mas, ao mesmo tempo, havia a possibilidade de ser
ele. Tal como Pollyanna, porm, ela tinha uma sada bastante satisfatria para o
dilema.
- Porque no tomas conta dele, querida? - props  irm. - At o poderias adotar? Seria
bom para ele, pobre pequeno, e...
Mrs. Carew no a deixou concluir.
- No, no posso - lastimou- se. - Quero  o meu Jamie. O meu Jamie e mais ningum.
Della em nada contribuiu e regressou ao seu trabalho.
Se Mrs. Carew pensou que o assunto tinha ficado encerrado, voltou de novo a
enganar-se. Realmente, os dias e as noites continuavam a ser-lhe penosos. Alm disso,
estava em dificuldades com Pollyanna, cada vez mais perturbada, face  verdadeira
pobreza que enfrentara pela primeira vez. Ela conhecera pessoas que no tinham
comida, que vestiam roupas esfarrapadas e que viviam em quartos minsculos, escuros
e sujos. O seu primeiro impulso foi, evidentemente, ajudar. Mrs. Carew fez duas visitas
a Jamie e ficou muito contente com a alterao das condies da casa depois de o tal
Dodgge ter feito as melhorias. Mas, para Pollyanna, isso era apenas uma gota de gua
no oceano. Havia naquele local muito mais misria. Confiadamente, ela esperava que
Mrs. Carew ajudasse tambm todos os outros infelizes.
- Ah sim? - exclamou Mrs. Carew ao ouvir o que Pollyanna esperava dela. - Quer ento
toda a rua com pinturas e escadas novas! No quer mais nada?
- Sim, mais coisas! - disse Pollyanna contente.
- Tanto que eles precisam! E que divertido era dar-lhas! Ai, como eu gostava de ser rica
para os poder ajudar! Nem calcula como fico contente por poder estar consigo quando
os ajudar.
Mrs. Carew quase gaguejou, tal o seu espanto. Mas no perdeu tempo a explicar que
no tinha inteno de fazer mais nada no ptio dos Murphys. J tinha sido bastante
generosa com o que fizera no andar onde vivia o Jamie com os Murphys (entendera
no precisar de dizer a ningum que era dona do prdio inteiro). Explicou, sim, a
Pollyanna, que existiam numerosas instituies de caridade que tinham exatamente por
atividade ajudar as pessoas pobres, e que ela j doava bastante dinheiro a essas
instituies.
Mesmo assim, porm, Pollyanna no ficou convencida.
- Mas no percebo por que razo  melhor uma srie de pessoas juntarem-se e fazer
aquilo que toda a gente gostaria de fazer por si prpria. Acho que preferia ser eu a dar
a Jamie um livro bonito do que ser uma sociedade qualquer a faz-lo. Ele, com certeza,
gostaria muito mais que fosse eu.
-  provvel - respondeu Mrs. Carew, com indiferena, mas um tanto irritada. - Mas
tambm  provvel que esse livro no fosse to bom para Jamie, como o seria se o livro
fosse oferecido por um conjunto de pessoas habilitadas a escolher o livro mais
conveniente.
Isto levou-a a dizer tambm outras coisas que Pollyanna no percebeu bem sobre "a
pauperizao dos pobres", "os malefcios da oferta indiscriminada" e "o pernicioso
efeito da caridade desorganizada".
Alm disso, tambm acrescentou, em resposta  expresso de perplexidade de
Pollyanna:
-  muito possvel que, se me oferecesse para ajudar essas pessoas, elas no aceitassem.
Lembra- se de Mrs. Murphy ter recusado deixar-me enviar-lhe comida e roupas?
- Se lembro! - respondeu Pollyanna, com um suspiro. - Mas h outra coisa que no
compreendo. No me parece certo que ns tenhamos direito a ter tanta coisa bonita e
que eles no tenham nada!
Com o decorrer do tempo, este sentimento de Pollyanna aumentou em vez de diminuir
e as suas perguntas e comentrios acabavam por ser um alvio para o estado de esprito
da prpria Mrs. Carew. At o teste do "Jogo de Contentamento". S que, neste caso,
Pollyanna achava que era quase um falhano. Dizia ela:
- No vejo como podemos encontrar seja o que for que nos d contentamento nesta
coisa dos pobres. Podemos ficar contentes com ns prprios por no sermos pobres
como eles, mas sempre que penso assim, fico com tanta pena deles que no posso
continuar contente. Podamos ficar contentes ajudando os pobres, mas se no os
ajudarmos, de onde nos pode vir o contenta mento?
A estas perguntas, Pollyanna nem sempre tinha resposta satisfatria.
Especialmente de Mrs.Carew, que continuava a ser perseguida por vises do verdadeiro
Jamie e do Jamie possvel, que ficou muito mais desassossegada e desesperada com a
chegada do Natal. Tudo lhe lembrava a possibilidade do seu Jamie ter um sapatinho
sem prendas.
Foi exatamente na quadra do Natal que se desenrolou consigo a ltima batalha.
Resolutamente, todavia sem uma verdadeira alegria no rosto. Foi ento que deu ordens
rigorosas a Mary e chamou Pollyanna.
- Pollyanna - disse ela, quase a segredar -, decidi tomar conta do Jamie. O carro vir
imediatamente e vou busc-lo agora. Se quiser, pode vir comigo.
O rosto de Pollyanna transfigurou-se naturalmente de alegria.
- Oh, Que feliz eu sou! At me apetece chorar! Mrs. Carew, porque ser que quando
nos sentimos to felizes, nos apetece chorar?
- No sei, Pollyanna - respondeu Mrs. Carew sem convico.
O rosto de Mrs. Carew continuava,porm, sem alegria.
Quando chegou ao pequeno quarto dos Murphys, no perdeu muito tempo a dizer ao
que ia. Em poucas palavras contou a histria do desaparecido Jamie. No manifestou
todavia as suas dvidas quanto ao fato de ele ser o verdadeiro Jamie, dizendo que
decidira lev-lo para casa dela para lhe proporcionar todas as comodidades. Depois,
com um ar um tanto desprendido, fez saber que aqueles eram os planos que tinha
traado para ele. Aos ps da cama, Mrs. Murphy ouvia, chorando baixinho. Do outro
lado do quarto, Jerry Murphy, de olhos muito abertos, soltava exclamaes de espanto.
Quanto ao Jamie, deitado, ouviu tudo aquilo com ar de quem tinha visto abrir-se
diante de si a porta do paraso. Ainda que, gradualmente, enquanto Mrs. Carew falava,
os seus olhos fossem denunciando outra expresso, ao ponto de os fechar, virando a
cara.
Quando Mrs. Carew concluiu, fez-se um silncio antes de Jamie voltar de novo a cara
para ela e falar. Estava lvido e dos olhos caam-lhe lgrimas.
- Obrigado, Mrs. Carew, mas no posso ir! disse, simplesmente.
- No pode o qu? - exclamou Mrs. Carew, como se duvidasse do que ouvia.
- Jamie! - exclamou Pollyanna.
- Ento mido, que se passa? - perguntou Jerry, troando e aproximando-se dele. -
No sabes ver o que  bom para ti?
- Sei, mas no posso ir - insistiu o rapaz.
- Mas, Jamie... Jamie, pensa no que poderia significar para ti! - insistiu Mrs. Murphy.
- J pensei. Julgam que no sei o que estou a fazer e do que estou a desistir? - depois,
para Mrs. Carew, virou os olhos cheios de lgrimas e disse: - No posso, no posso
deix-la fazer isso tudo por mim. Se gostasse realmente de mim, era diferente, mas a
senhora no me quer a mim. Quer o verdadeiro Jamie e eu no sou o verdadeiro Jamie.
A senhora no pensa que eu o seja, posso v-lo no seu rosto.
- Mas... mas... - comeou Mrs. Carew, sem concluir.
- Alm disso, no sou como os outros rapazes, no posso andar - interrompeu o
rapazinho nervoso. Acabava por se cansar de mim. No podia suportar ser um fardo
assim.  claro, se a senhora gostasse de mim como a Mumsey. - disse ele, levando a
mo  boca para conter um soluo. Depois, voltou outra vez a cabea, continuou. -
No sou o Jamie que quer.
Fez-se novo silncio. Depois, muito calmamente, Mrs. Carew ps-se de p. O seu
rosto estava sem cor, havendo algo nela que silenciou um soluo vindo dos lbios de
Pollyanna.
- Venha, Pollyanna! - foi tudo que disse.
- Tu s mesmo maluco! - barafustou Jerry Murphy, falando para o rapaz deitado,
quando a porta se fechou.
O rapaz paraltico ficou a chorar, como se a porta que se acabara de fechar fosse a que
o poderia ter conduzido ao paraso e se fechasse para sempre.
Passaram-se os meses de Fevereiro, Maro e Abril e depois o Maio, aproximando-se a
data do regresso de Pollyanna a casa. Mrs. Carew despertou ento, subitamente, para a
realidade do que representaria para si o regresso de Pollyanna a casa.
Sentiu-se surpreendida e perturbada porque at ali s tinha encarado com satisfao a
partida dela. Quantas vezes dissera a si prpria, e desejara, que a casa voltasse a ser
sossegada, a ter paz e a poder esconder-se dos aborrecimentos do mundo exterior.
Como tanto desejara poder dedicar a ateno  sua conscincia pungente e s memrias
do menino desaparecido.  verdade, em tudo isso pensara, como possvel, quando
Pollyanna regressasse a casa.
Mrs. Carew sabia agora, muito bem, que sem Pollyanna a casa ficaria vazia e que sem o
Jamie seria ainda pior. A conscincia desta realidade no era agradvel para o seu
orgulho. Era uma tortura para o seu corao, visto que o rapaz j se tinha recusado
duas vezes a ir viver com ela. Durante os ltimos dias da estada de Pollyanna, a luta foi
difcil, embora o orgulho acabasse sempre por predominar. Ento, no dia em que Mrs.
Carew sabia que seria a ltima visita de Jamie, o corao triunfou e pediu mais uma vez
ao rapaz que fosse para ela o seu desaparecido Jamie.
Aquilo que disse exatamente nunca se conseguiu lembrar depois, mas o que o rapaz
disse nunca esqueceu. Foram seis breves palavras.
Durante um longo minuto, os olhos dele perscrutaram o rosto dela. Depois, a sua cara
iluminou- se, enquanto lhe respondeu:
- Oh, sim! Agora a senhora gosta mesmo de mim!




      10. Jimmy tem cimes

Desta vez, Beldingsville no recebeu Pollyanna com fanfarras e foguetes, talvez porque
apenas muito poucos conhecessem a hora da chegada. Mas no faltaram as saudaes
de alegria da parte de todos os que a viram no momento em que desceu do comboio,
acompanhada da tia Polly e do Dr. Chilton.
Pollyanna no perdeu tempo e iniciou uma ronda de visitas aos seus velhos amigos.
Com efeito, nos dias que se seguiram, segundo dizia a Nancy, "no podamos pr o
dedo onde quer que fosse que ela l no estivesse".
E a todos os lados onde ia, via-se confrontada com a pergunta: "Gostou de Boston?".
A ningum respondeu de forma to cabal como o fez com Mr. Pendleton.
- Sim, gostei, em parte.
- Ento no gostaste de tudo? - perguntou Mr. Pendleton, sorrindo.
- No, de algumas coisas no gostei, embora gostasse de l estar - explicou
apressadamente. - Foram tempos bem divertidos e havia muitas coisas que eram
bastante diferentes e estranhas, como por exemplo jantar  noite em vez de o fazermos
ao meio-dia. Toda a gente foi muito boa para mim e vi uma quantidade de coisas
lindas, como Bankerhill e o Jardim Pblico, os autocarros e uma quantidade de
quadros e esttuas, armazns e avenidas que pareciam no ter fim. E muita gente.
Nunca vi tanta gente!
- Pensei que gostasses das pessoas - comentou o senhor.
- E gosto. Mas para que serve haver tanta gente se no os podemos conhecer? Alm
disso, Mrs. Carew no me deixava travar conhecimento com estranhos.
Fez-se um ligeiro silncio. Depois, com um suspiro, Pollyanna resumiu.
- Penso que foi disso que gostei menos. Era muito mais agradvel se as pessoas se
conhecessem! Veja s, Mr. Pendleton: existe uma quantidade de gente que vive em ruas
estreitas e sujas, que no tm feijo nem pastis de peixe para comer, nem sequer as
coisas que vm nas coletas de caridade. Em contrapartida, existem muitas outras
pessoas, como Mrs. Carew, que vivem em casas maravilhosas, a abarrotar de coisas
timas para comer e para vestir e, at, sem saberem o que ho-de fazer ao dinheiro. Se
essas pessoas conhecessem as outras.
Mr. Pendleton interrompeu-a com uma gargalhada.
- Minha querida criana, no vs que essas pessoas no tm interesse em conhecer-se
umas s outras!
- Felizmente que no so todas assim - sustentou Pollyanna. - Por exemplo, a Sadie
Dean, que vende bandoletes num grande armazm, quer conhecer pessoas e eu
apresentei-a a Mrs. Carew. A Sadie, o Jamie e muitas outras pessoas, visitaram-nos e
Mrs. Carew ficou contente por conhec-los. Foi isso que muito me fez pensar que se as
pessoas como Mrs. Carew pudessem conhecer as outras... Mas,  claro, no podia ser
eu a apresent-las todas. Eu prpria no conheo muitas. E assim, se pudessem
conhecer uns aos outros, de maneira a que os ricos pudessem dar aos pobres parte do
seu dinheiro.
Mr. Pendleton interrompeu-a de novo, com uma gargalhada.
- Oh Pollyanna, Pollyanna, - disse trocista - Receio que estejas a penetrar em guas
demasiado profundas! Sem te dares conta disso, ests a tornar-te uma socialistazinha.
- Uma qu? - perguntou a menina confusa. No sei o que isso , mas sei o que  ser
socivel e gosto das pessoas que o so. Se  a mesma coisa, ento no me importo, at
gostava de o ser.
- Tenho dvidas, Pollyanna - disse o senhor, sorrindo. - O que sei  que, ao chegares a
esse teu plano da distribuio geral da riqueza, enfrentas um problema que ters
dificuldade em resolver.
Pollyanna deu um grande suspiro.
- Eu sei - concordou ela. -  isso que Mrs. Carew diz. Acha que isso a tornaria pobre,
resultando num efeito pernicioso, ou qualquer coisa assim disse a rapariga secamente,
quando o homem comeou a rir. - Mas, de qualquer modo, no compreendo por que
razo algumas pessoas ho-de ter tanto e outras no ho-de ter nada. No gosto disso.
Se alguma vez tiver muito hei-de dar... Mr. Pendleton desatou a rir, interrompendo
Pollyanna, que tambm comeou a rir, rematando assim:
- De qualquer maneira, continuo a no compreender.
- Pois no, querida, receio que no!  uma questo que ns tambm no
compreendemos. Mas diz - me l - acrescentou - quem  esse Jamie,de quem falas
tanto?
E Pollyanna contou-lhe. Ao falar de Jamie, Pollyanna esqueceu-se do resto. Adorava
falar do Jamie, porque disso compreendia bem. E, nesse caso concreto, Mr. Pendleton
estaria interessado no fato de Mrs. Carew ter levado o rapaz para sua casa, pois
ningum melhor do que ele compreenderia a importncia do gesto.
Alis, sobre esse assunto, Pollyanna falava a toda a gente. Partia do princpio que todos
estariam to interessados como ela prpria. Todavia, a maior parte dos casos, ficou
desapontada pelo pouco interesse demonstrado. E um dia teve uma surpresa maior,
vinda do prprio Jimmy Pendleton.
- Ouve l - perguntou ele um tanto irritado -, no havia mais ningum em Boston,
alm desse Jamie?
- Porqu Jimmy Bean? Que queres tu dizer? inquiriu Pollyanna.
O rapaz levantou um pouco o queixo.
- No me chamo Jimmy Bean, chamo-me Jimmy Pendleton.  que, da tua conversa,
fico a pensar que no havia mais ningum em Boston seno esse maluco que chama
Lady Lancelot a pombos e esquilos, e todas essas tretas.
- Porqu, Jimmy Be... Pendleton! - gaguejou Pollyanna, para continuar em tom
acalorado: - Jamie no  maluco!  um rapaz simptico e sabe muito. L muitos livros!
Consegue at inventar histrias da sua prpria cabea! Alm disso, no  "Lady
Lancelot"  "Sir Lancelot". Se soubesses metade do que ele sabe, tambm saberias isso!
- concluiu ela, de olhar flamejante.
Jimmy Pendleton ficou atrapalhado e com um ar infeliz. Mas os cimes fizeram-no
contratacar.
- O certo  que no dou - disse a troar - grande coisa pelo nome dele. Jamie! Soa a
maricas! E sei de mais pessoas que tambm acham.
- Quem?
No houve resposta.
- Quem foi? - perguntou Pollyanna com veemncia.
- O meu pai.
- O teu pai? - repetiu Pollyanna, espantada. Porqu? Se ele no conhecia o Jamie?
- Pois no. No era esse Jamie. Era eu. O rapaz continuou a falar em tom teimoso, de
olhar desviado. No entanto, havia uma doura curiosa na sua voz, que se notava
sempre que falava no pai.
- De ti?!
- Sim. Foi um pouco antes de ele morrer. Paramos quase uma semana numa quinta. O
pai ajudava no feno e eu fazia o que podia. A mulher do campons era muito boa para
mim e no tardou a chamar-me de Jamie. Porqu, no sei. Um dia o pai ouviu-a e
ficou zangado. To zangado, que nunca mais esqueci que ele disse que Jamie no era
nome de rapaz e que nenhum filho seu seria assim chamado. Achava que era um nome
maricas. Puxa, nunca o vi to zangado como nessa noite. Calcula, nem ficou para
acabar o trabalho e partiu comigo nessa mesma noite. Fiquei com pena, porque gostava
da mulher do campons.
Pollyanna fez que sim com a cabea, mostrando interesse e simpatia. Raramente o
Jimmy falava do seu passado misterioso.
- E o que aconteceu depois?
Pollyanna esquecera completamente a questo que estivera na base da discusso, ou
seja, o fato de o nome de Jamie ser considerado efeminado, o que fez suspirar o rapaz.
- Continuamos a andar, at encontrarmos outro lugar, lugar onde o pai acabou por
morrer. Depois, puseram-me no asilo.
- De onde fugiste, encontrando-te eu naquele dia, junto da casa de Mrs. Snow.  desde
a que te conheo.
- Oh, sim!  desde a. - Repetiu Jimmy, num tom de voz bastante diferente,
regressando ao presente e ao motivo da discrdia. - Mas eu no sou Jamie - concluiu
ele com desdm e deixando Pollyanna confusa.
- Ainda bem que no te comportas sempre desta maneira! - disse a rapariga, suspirando
e observando tristemente a figurinha do rapaz na sua atitude arrogante e
surpreendente.
   11. A tia Polly fica alarmada

Pollyanna estava em casa h uma semana, quando chegou uma carta de Della
Wetherby, dirigida a Mrs. Chilton:

"S gostava de conseguir explicar-lhes o que a vossa sobrinhinha fez pela minha irm, mas receio
no o conseguir. Era preciso que a conhecessem antes. A senhora viu-a e talvez se tenha
apercebido um pouco da tristeza e escurido em que ela se envolvia desde h anos. E no faz
ideia da amargura que lhe inundava o corao, da falta de interesses e de objetivos, e da
insistncia no luto permanente.Ento chegou Pollyanna. Talvez no lhe tenha contado, mas a
minha irm, logo a seguir  promessa de tomar conta de Pollyanna, arrependeu-se e estava
firmemente decidida a devolver-ma, assim que Pollyanna lhe comeasse com prdicas. S que
Pollyanna nunca lhe fez prdicas, pelo menos minha irm diz que no, e ela estava bem atenta a
isso. No entanto, deixe-me s dizer o que encontrei, quando ontem a fui visitar. Talvez nada lhe
possa dar uma ideia melhor do que a vossa maravilhosa Pollyanna realizou.
Para comear, quando me aproximei da casa vi que todos os estores estavam levantados, quando
antes estavam sempre fechados. Ao entrar no hall ouvi msica - era o Parsifal. As salas estavam
abertas e o ar cheirava a rosas.
`Mrs. Carew e Mr. Jamie esto ambos no salo de msica' - disse-me a criada. De fato, l os
encontrei, minha irm e o rapazinho que ela decidiu levar para casa, escutando ambos um desses
aparelhos modernos que podem conter uma companhia inteira de pera, incluindo a orquestra.
O rapaz estava sentado numa cadeira de rodas, de ar plido,mas beatificamente feliz. Minha
irm parecia dez anos mais nova. O seu rosto, habitualmente descorado, apresentava-se com boas
cores e os olhos brilhavam. Um pouco depois, aps eu ter falado alguns minutos com o rapaz,
minha irm e eu subimos ao andar de cima, aos seus aposentos, e a falou-me de Jamie. No do
antigo Jamie, de quem costumava falar com olhos midos e suspiros de desespero, mas do novo
Jamie, agora sem sinal de lgrimas, e, em vez disso, com entusistico interesse.
`Della, ele  maravilhoso,' - comeou por dizer.  `Tudo o que h de melhor em msica, arte e
literatura, parece agradar - lhe de forma maravilhosa. S que, evidentemente, necessita de evoluir
e de se educar.'
 disso que me vou ocupar. Amanh chega um tutor.  claro que a linguagem dele  um bocado
feia, mas leu tantos livros bons, que o vocabulrio dele  surpreendente e havias de ouvir as
histrias que sabe contar!  claro, em educao geral ele  bastante deficiente, mas est ansioso
por aprender e, assim, isso ser facilmente remediado. Adora msica e vou proporcionar-lhe toda
a aprendizagem que precisa. J arranjei um lote de discos cuidadosamente selecionados. Gostava
que visses a cara dele quando ouviu pela primeira vez a msica do Santo Graal. Conhece tudo
sobre o Rei Artur e a Tvola Redonda e fala de cavaleiros, lordes e damas, como tu e eu falamos
dos membros da nossa famlia, s que, s vezes, quando fala de Sir Lancelot, se refere ou ao
antigo cavaleiro ou a um esquilo do Jardim Pblico. E Della, creio,  possvel que ele torne a
andar. Vou pedir ao Dr. Ames que o veja e...
E assim continuou, enquanto eu ficava sentada de boca aberta e lngua amarrada, mas
felicssima! Conto-lhe tudo isto, cara Mrs. Chilton, para que possa saber como ela est interessada
e com que dedicao vai acompanhar o crescimento e desenvolvimento desse rapaz, e como, apesar
do seu estado anterior, tudo isto veio alterar a sua atitude em relao  vida. Tenho a certeza de
que nunca mais ser a mulher amargurada e rabugenta que foi.E tudo isto se deve a Pollyanna.
Querida Pollyanna! Estou em crer que a menina est perfeitamente inconsciente de tudo isto. At
creio que nem minha irm ainda compreendeu o que est a suceder no seu corao e na sua vida.
E agora, cara Mrs. Chilton, como posso agradecer-lhe? Eu sei que no posso, por isso nem sequer
vou tentar. No entanto, no seu intimo, deve calcular como estou grata, tanto a si como a
Pollyanna.
Della Wetherby."

Parece que se operou mesmo uma cura! - disse o Dr. Chilton, sorrindo, quando a
mulher concluiu a leitura da carta.
Para sua surpresa, porm, ela levantou rapidamente a mo em tom reprovador e disse:
- Por favor Thomas!
- Porqu Polly? Qual  o problema? No ests contente por o remdio funcionar?
Mrs. Chilton encostou-se na cadeira, desanimada.
- L ests tu outra vez, Thomas. Claro que estou contente que essa senhora infeliz
tivesse mudado e seja agora til a algum. E contente tambm por Pollyanna o ter
feito. Mas no gosto que falem dessa criana, permanentemente, como se fosse um
frasco de remdio ou uma "cura". S isso, percebes?
- Que disparate! Onde est o mal? Sempre tenho chamado Pollyanna de tnico!
- Mal! Thomas Chilton: essa criana est a crescer, queres estrag- la? At aqui ela tem
estado inconsciente do seu poder extraordinrio, e  nisso que reside o segredo do seu
sucesso. Mas quando se puser conscientemente a querer modificar algum, ah! ento
sabes to bem como eu que se tornar impossvel. Deus permita que ela nunca perceba
que  uma espcie de cura!
- Disparate! Ia agora preocupar-me com isso!
- Vs, eu preocupo-me, Thomas.
- Polly, pensa s no que ela tem feito! - argumentou o mdico. - Pensa em Mrs. Snow,
em John Pendleton e nas outras pessoas. Todos se modificaram, tal como Mrs. Carew
e por graa de Pollyanna!
- Eu sei! - concordou Mrs. Polly Chilton com nfase. - Mas no quero que Pollyanna
o saiba! Evidentemente que ela o sabe de certo modo, pois ensinou-os a jogar o "Jogo
do Contentamento" e isso f-los mais felizes. Assim, est bem.  o jogo, o jogo dela,
jogam- no em conjunto. Nem quero admitir que Pollyanna nos impinja um tal sermo
quando souber... o problema  esse! No quero que ela o saiba.  tudo! E agora deixa-
me que te diga que decidi ir  Alemanha contigo, neste Outono. Ao princpio pensei
em no ir. No queria deixar Pollyanna e no vou deix-la agora. Ir conosco!
- Lev-la conosco? timo! Porque no?
- Tenho de a levar. Afast-la-amos de Beldingsville por uns tempos. Quero mant-la
meiga, sem que se estrague, se puder.




   12.  espera de Pollyanna

Toda a cidade de Beldingsville fervilhava de excitao. Desde que Pollyanna Whitier
chegou do Sanatrio a andar nunca houve tanta conversa nos quintais e nas ruas.
Tambm hoje, o centro de interesse era Pollyanna. Mais uma vez regressava a casa.
Mas seria uma Pollyanna muito diferente e tambm um regresso diferente!
Pollyanna tinha agora vinte anos. Durante seis, passara os Invernos na Alemanha e os
Veres a viajar preguiosamente com o Dr. Chilton e a tia Polly. S uma vez em todo
esse tempo estivera em Beldingsville, num curto perodo de quatro semanas, no Vero
em que tinha dezesseis anos. Agora regressava a casa para ficar, segundo se dizia, ela e a
tia Polly.
O mdico no viria com elas. Seis meses antes a cidade recebera, consternada, a notcia
de que ele tinha morrido subitamente. Beldingsville esperara ento que Mrs. Chilton e
Pollyanna regressassem imediatamente ao velho lar, mas no. Soube-se, sim, que a
viva e a sobrinha permaneceriam no estrangeiro durante mais tempo. At se disse que
Mrs. Chilton procurava, assim, esquecer a sua grande dor.
Porm, em breve comearam a correr rumores pela cidade de que financeiramente as
coisas no corriam bem para Mrs. Polly Chilton. Certas aes que se sabia serem a
base da propriedade dos Harrington tinham-se desvalorizado drasticamente. Outros
investimentos, de acordo com as informaes existentes, estavam em condies muito
precrias. Da propriedade do mdico pouco se podia esperar. Ele nunca fora um
homem rico e as suas despesas tinham sido bastante pesadas nos ltimos seis anos. Por
isso, Beldingsville no ficou surpreendida ao saber que Mrs. Chilton e Pollyanna iam
regressar a casa a menos de seis meses aps a morte do mdico.
Voltou o velho solar de Harrington, h tanto tempo fechado e silencioso, a apresentar-
se de janelas e portas abertas. Tambm Nancy, que agora se chamava Mrs. Thimoty
Durgin,se aplicou a limpar o p e puxar o lustro at a velha casa se apresentar
impecvel.
- No, no tenho nenhumas instrues para fazer isto. - Explicou Nancy aos amigos e
vizinhos curiosos que paravam no porto ou se atreviam a entrar no ptio.
Nancy tinha a chave, evidentemente, e fora arejar a casa e pr as coisas em ordem. Mrs.
Chilton tinha escrito a Mrs. Durgin, dizendo que ela e Miss Pollyanna chegavam na
sexta-feira seguinte, e pedindo-lhe o favor de arejar os quartos e as roupas e deixar a
chave debaixo do tapete da porta.
- Imagine-se, debaixo do tapete! Como se pudesse deix-las chegar c, com tudo
abandonado e eu longe daqui, sentada no meu alpendre como se fosse uma pessoa
importante e sem corao! Como se elas, coitadas, no tivessem j sofrido bastante e a
dor de chegarem a esta casa sozinhas, sem o mdico! E ainda por cima sem dinheiro. 
o que se diz! Como me faz pena! Nem quero imaginar Miss Polly, quero dizer Mrs.
Chilton, ficar pobre! No consigo pensar nisso. No me conformo, pronto!
Talvez Nancy nunca tivesse falado disto a ningum com tanto interesse como o fez
com um jovem de boa aparncia, alto, de olhar franco e sorriso encantador, que bateu 
porta s dez da manh na quinta-feira. Apesar de se sentir embaraada, sem saber
como o tratar, pois ainda hesitava entre Mr. Jimmy, ou Mr. Bean, ou Mr. Pendleton.
At ps o jovem a rir com o seu nervosismo.
- No interessa, Nancy! Chame-me como lhe der mais jeito - brincou ele. - J sei o que
queria saber, ou seja, que Mrs. Chilton e a sobrinha so esperadas amanh.
- Sim senhor,  verdade - respondeu Nancy. Nem calcula como estou contente por
voltar a v- las, apesar de no virem nas melhores condies.
- Sim, eu sei, compreendo - concordou o jovem gravemente. - Suponho que quanto a
esse aspecto no podemos fazer nada. Mas estou satisfeito por voc estar a fazer o que
faz. Isso ajudar muito - concluiu ele com um sorriso, afastando-se montado no seu
cavalo.
Nas escadas, Nancy dizia para consigo prpria: "no estou nada admirada, Mr.
Jimmy", enquanto olhava a figura simptica do jovem montado a afastar-se. "No me
admira nada que ande  procura de Miss Pollyanna. J h muito que eu disse que havia
de chegar a altura. E ento agora que se tornou to simptico e alto. Espero que venha
a ser como eu penso, como consta dos livros.  claro, se casar com ele e forem viver
para o solar de Mr. Pendleton. Quem havia de dizer, ser este o pequeno Jimmy Bean
de antes! Nunca vi uma mudana to grande em ningum " e foi assim que concluiu o
pensamento num ltimo olhar para a figura que desaparecia l longe, na estrada.
Pensamentos semelhantes atravessaram o esprito de John Pendleton, pouco depois,
ainda nessa manh, quando da varanda da sua grande casa cinzenta, em Pendleton Hill,
observava o cavaleiro que se aproximava. Nos seus olhos via-se uma expresso muito
semelhante  de Mrs. Nancy Durgin. E tambm dos seus lbios se ouviu a exclamao:
"Mas que bela figura!", quando cavalo e cavaleiro se encaminhavam para o estbulo.
Aps breves minutos, o jovem contornava o canto da casa e subia as escadas.
- Ento, meu rapaz,  verdade que sempre vm?
- perguntou o senhor, com manifesto interesse.
- Sim.
- Quando?
- Amanh! - rematou o jovem, ao deixar-se cair numa cadeira.
Face  tenso que se notava na resposta, John Pendleton franziu a testa. Olhou de
relance para o rosto do jovem, hesitou por momentos e depois perguntou
abruptamente:
- O que , filho, que se passa?
- O que se passa? Oh... nada!
- No sejas tolo! Sei muito bem! Saste daqui h uma hora, to ansioso que nem os
novos cavalos foram motivo para te reter aqui. Agora a ests, sentado, desanimado, e,
na mesma, sem que os cavalos te entusiasmem. Se no te conhecesse bem, era capaz de
pensar que estarias descontente por as nossas amigas regressarem.
Fez uma pausa  espera de resposta, que, porm, no obteve.
- Ento, Jimmy, enganei-me, ou ests contente por elas virem?
O jovem riu, mas o seu olhar era desassossegado.
- Sim, claro.
- No entanto, no  isso que parece.
Ele riu de novo, agora com algum rubor nas faces.
-  que estava a pensar em Pollyanna.
- Em Pollyanna, porqu? No fizeste mais nada seno falar dela desde que vieste de
Boston e at descobriste que estava para chegar. Ser que ests mesmo morto por ver
Pollyanna?
O rapaz inclinou-se para frente, com uma expresso curiosa.
- ,  exatamente isso!  como se ontem nada pudesse impedir-me de ver Pollyanna, e
hoje, que sei que ela vem, estou assim a modos que perplexo.
- Mas porqu, Jimmy?
Perante a incredulidade de John Pendleton, o jovem encostou-se  cadeira, rindo
embaraadamente.
- Bem,  tudo muito estranho e no espero que compreenda. Sei l, parece-me que
queria que Pollyanna no crescesse. Achava-a to querida, tal como era! Como gosto
de pensar nela tal como a vi da ltima vez, com a sua carinha sria e cheia de sardas, os
seus tots de cabelo loiro dizendo com lgrimas nos olhos: "Sim, estou contente por
ir, mas acho que ainda ficarei mais contente quando regressar". Foi h quatro anos que
a vi pela ltima vez.
- Eu sei. Compreendo o que queres dizer. Acho que senti o mesmo at v-la no ltimo
Inverno em Roma.
O jovem voltou-se apressadamente.
- Viu-a? Ento fale-me dela.
Uma expresso divertida espelhou-se nos olhos de John Pendleton.
- E eu a julgar que no querias saber de Pollyanna j crescida.
Com uma careta, o jovem disfarou.
-  bonita?
- Ai, os jovens! - disse John Pendleton, brincando. -  sempre a sua primeira pergunta!
-  ou no ? - insistiu o jovem.
- Hs-de julgar por ti prprio. Mas, pensando bem, creio que no . Podias ficar
desapontado. Para o meu gosto, Pollyanna no  bonita no sentido convencional do
termo. Com efeito, tanto quanto sei, um dos problemas dela  mesmo o de saber que
no  bonita. Em tempos disse-me que uma das coisas que gostava de ter, quando fosse
para o Cu era cabelo negro encaracolado; e no ltimo ano, em Roma, disse- me ainda
outra coisa. Que no era de todo esclarecedora, mas em que detectei um certo desgosto
velado. Disse que gostava que algum escrevesse um romance com uma herona que
tivesse cabelo liso e uma sarda no nariz, mas que, apesar de tudo, pensava ser prefervel
que as raparigas de quem se escrevia nos livros no os tivessem.
- Isso  mesmo da Pollyanna que eu conheo.
- Ah, deixa, vais reconhec- la - sorriu o senhor, com ar curioso. - Bem, agora desdigo-
me, eu acho que ela  bonita. Tem uns olhos adorveis e  a perfeita imagem da sade.
Detm toda a alegria primaveril da juventude e todo o rosto se ilumina
maravilhosamente quando fala, de tal modo que faz esquecer se as suas feies so ou
no regulares.
- Ela continua a jogar o jogo?
John Pendleton sorriu.
- Calculo que sim, embora j no fale muito disso. Pelo menos a mim, das duas ou trs
vezes que a vi, no falou.
Fez-se um breve silncio e depois, calmamente, o jovem Pendleton disse:
- Isso era uma das coisas que me preocupava. Por ser um jogo que representou tanto
para muita gente,em toda a cidade! No me conformava que ela tivesse desistido dele;
e, ao mesmo tempo, no conseguia imaginar uma Pollyanna crescida a dizer
constantemente s pessoas para se alegrarem com alguma coisa! De algum modo, como
disse, no queria consider-la crescida.
- Se fosse a ti, no me preocupava com isso - disse o senhor, com um sorriso
brincalho. - Com Pollyanna sempre houve alegria,e no me enganarei que ela continue
a viver segundo o mesmo princpio, embora, talvez, no exatamente da mesma forma.
Pobre moa! Receio que necessite de algum jogo, para tornar a existncia tolervel
durante algum tempo, pelo menos.
- Est-se a referir ao fato de Mrs. Chilton estar em dificuldades? Ficaram mesmo
pobres?
- Penso que sim. Esto com srios problemas quanto a dinheiro, tanto quanto sei. A
fortuna pessoal de Mrs. Chilton foi drasticamente reduzida e os bens de Tom eram
escassos. Ele endividou-se por causa de servios que nunca lhe foram pagos nem nunca
o sero. Tom nunca se recusava quando era solicitado e todos os caloteiros da cidade o
sabiam e abusavam. Ultimamente teve muitas despesas. Depositava grandes esperanas
no seu regresso, quando tivesse concludo a especializao na Alemanha. Partiu sempre
do princpio que sua mulher e Pollyanna dispunham de meios mais que suficientes,
provenientes da propriedade dos Harrington e nunca se preocupou com isso.
- Estou a perceber. Foi pena!
- No  tudo. Dois meses depois da morte de Tom, vi Mrs. Chilton e Pollyanna em
Roma. Mrs. Chilton estava em pssimo estado. Para alm da tristeza, em resultado da
morte do marido, comeava a ter noo dos seus problemas financeiros e estava quase
fora de si. Recusava-se a regressar a casa e afirmava que nunca mais queria ver
Beldingsville nem ningum daqui. Como sempre foi uma mulher orgulhosa, o
infortnio afetou-a de modo curioso. Foi Pollyanna quem me disse que a tia estava
obcecada com a ideia de que Beldingsville jamais aprovara o seu casamento com o Dr.
Chilton e agora, com ele morto, ela sentia que no estariam solidrios com a sua dor.
Ressentia-se tambm pelo fato de saberem que agora, para alm de pobre, tambm era
viva. Em suma, mergulhara num estado extremamente mrbido e infeliz, que tinha
tanto de irracional como de horrvel. Pobre Pollyanna! Surpreendia-me como ela
aguentava! Se Mrs. Chilton continua no mesmo estado a rapariga vai-se abaixo. Da
que eu diga que Pollyanna deve precisar do jogo.
- Como me entristece que isso esteja a acontecer a Pollyanna! - exclamou o jovem, com
voz pouco firme.
- Sim, estou em crer que as coisas ainda no melhoraram, pela maneira como vm hoje.
To silenciosamente, sem dizerem nada a ningum!  mesmo tpico de Polly Chilton!
No quer que ningum a espere. S assim se compreende que tenha escrito somente 
mulher do velho Thimoty, Mrs. Durgin, que olhava pela casa.
- Sim, a Nancy contou-me.  uma boa criatura! Abriu a casa toda e tem-se ocupado
dela para no parecer um tmulo de esperanas vs e prazeres perdidos. Mesmo os
jardins apresentam bom aspecto, visto o velho Tom no os ter desprezado. Mas fiquei
comovido com aquilo.
Veio depois um longo silncio, at John Pendleton sugerir:
- Devia ir algum esper-las. Porque no vais tu  estao?
- Ento vou.
- Sabes em que comboio chegam?
- No. Nem a Nancy sabe.
- Ento como vai ser?
- Vou para l de manh e nalgum comboio ho-de chegar! - resignou- se o jovem.
- O Thimoty tambm vai com a charrete da famlia. No fim de contas, no so assim
tantos os comboios.
- Eu sei - disse John Pendleton.
- Olha, Jimmy, admiro os teus sentimentos mas no o teu discernimento. Alegra-me
que sigas os teus sentimentos e no a tua razo. No entanto, desejo-te boa sorte.
- Obrigado, senhor - disse o jovem, com um sorriso triste. - Bem preciso que me deseje
sorte.



  13. A chegada de Pollyanna

Enquanto o comboio se aproximava de Beldingsville, Pollyanna observava atentamente
a tia. Durante todo o dia Mrs. Chilton dera sinais de cada vez mais desassossego e
tristeza. Pollyanna receava o que poderia acontecer  chegada a casa.
A sobrinha comovia-se sempre que olhava para a tia. No imaginava que fosse possvel
uma pessoa mudar e envelhecer tanto em apenas seis meses. Os olhos de Mrs. Chilton
haviam perdido o brilho, o seu rosto era agora plido e triste, e a fronte apresentava
fundas e inmeras linhas. A boca descaa nos cantos e o cabelo estava penteado e
apanhado atrs da mesma maneira pouco elegante que usava antigamente. Toda a
doura com que o casamento a dotara desaparecera completamente, regressando a
antiga e habitual amargura de Mrs. Polly Harrington, de m memria.
- Pollyanna! - chamou Mrs. Chilton, incisivamente.
A sobrinha olhou-a com ar comprometido. Sentiu-se desconfortvel ao pensar que a
tia podia estar a ler-lhe os pensamentos.
- Sim, tia.
- Onde est o saco pequeno, preto?
- Est aqui.
- Queria que me trouxesses o vu negro. Estamos quase l.
- Mas  to quente e espesso, tia!
- Pollyanna, pedi-te o meu vu negro. Queres fazer o favor de cumprir o que te peo,
sem contrariar? Ser-me-ia bem mais fcil. Quero o vu. No me ests a ver
proporcionar a todos de Beldingsville a oportunidade de me ver sofrer, pois no?
- Oh! tia! Esto agora as pessoas a pensar dessa forma! - protestou Pollyanna,
apressando-se a ir buscar o saco para lhe dar o vu. - Alm disso, ningum estar 
nossa espera.
- Est bem. No dissemos a ningum para nos vir esperar, mas demos instrues a
Mrs. Durgin... Achas que ela guardou essa informao apenas para si? No me parece.
Metade da cidade deve saber que chegamos hoje e uma dzia ou mais de pessoas ho-
de estar na estao. Eu conheo-os! Ho-de querer ver o aspecto de Polly Harrington
pobre. Eles...
- Oh! tia, tia! - exclamou Pollyanna, de lgrimas nos olhos.
- Se no estivesse to s, se meu marido continuasse conosco, e... - parou de falar,
virando a cara para o lado, com os lbios a tremerem-lhe convulsivamente. - Onde est
esse vu? - perguntou irritada.
- Aqui est ele, minha tia - disse Pollyanna, confortando-a e apressando-se a entregar o
vu.
Estamos quase a chegar. Que bom que era que o velho Tom ou o Thimoty estivessem
 nossa espera!
- Levando-nos a casa, como se pudssemos dar-nos ao luxo de ter esses cavalos e
charretes! Sabendo como sabes, que amanh os vamos vender! No, obrigada,
Pollyanna, prefiro usar o transporte pblico a essa circunstncia!
- Eu sei, mas... - o comboio estacara e Pollyanna concluiu a frase com um suspiro.
Quando as duas mulheres desceram para a plataforma, Mrs. Chilton, de vu negro, no
olhava nem para a esquerda nem para a direita. Pollyanna, porm, fez justamente o
contrrio e ao dar meia dzia de passos deu consigo a olhar para um rosto ao mesmo
tempo familiar e estranho.
- No  o... Jimmy? - indagou, ao mesmo tempo que lhe estendia cordialmente a mo. -
 mesmo. Creio que devo antes chamar-lhe Mr. Pendleton - retificou ela com um
sorriso tmido e adiantando: - Mas que alto e bonito est!
- Estou feliz em v-la - disse o jovem com um sorriso brejeiro, muito  maneira do
Jimmy, virando-se a seguir para Mrs. Chilton, que, de cara coberta, j ia mais adiante.
Voltou-se ento para Pollyanna, de olhar perturbado,mas com simpatia, dizendo:
- Por favor, venham ambas por aqui - instou ele apressadamente. - Thimoty est aqui
com a charrete.
- Ah, que simpatia da parte dele! - exclamou Pollyanna, olhando ansiosamente para a
figura sombria e velada e dizendo timidamente  tia, a quem pegou no brao: - Tia, o
Thimoty est aqui. Trouxe a charrete. Est daquele lado. E este  Jimmy Bean, tia.
Lembra-se do Jimmy Bean?
No seu nervosismo e embarao, Pollyanna nem reparou que estava a chamar ao jovem
o antigo nome de infncia. Mrs. Chilton, porm, reparou evidentemente nisso. Com
ntida relutncia, virou-se e cumprimentou-o, inclinando ligeiramente a cabea.
- Mr. Pendleton, foi muito simptico da sua parte, mas no queria incomodar nem a si
nem o Thimoty - disse friamente.
- No incomoda nada, que ideia! - disse o jovem rindo, procurando ocultar o seu
embarao. - Agora, dem-me os vossos bilhetes, para eu poder ir buscar a bagagem.
- Muito obrigada - comeou Mrs. Chilton por dizer -, mas tem a certeza de que
podemos...
S que Pollyanna j se antecipara e passara-lhe os bilhetes, e a dignidade exigia que
Mrs. Chilton no dissesse mais nada. O trajeto fez-se praticamente em silncio.
Thimoty,vagamente sentido pela recepo fria da sua antiga patroa, ia sentado  frente,
direito e rgido, com os lbios tensos. Mrs. Chilton insistia na sua soturnidade.
Pollyanna no estava tensa nem triste. De olhos vidos, embora lacrimosos, observava
as ruas por que passavam. S falou uma vez e foi para dizer:
- O Jimmy est bonito! Como ele cresceu!
A tia nem lhe deu resposta.
Thimoty estava demasiado sentido e receoso para dizer a Mrs. Chilton o que a
esperava em casa. Assim, as janelas abertas, os quartos enfeitados com flores e Nancy 
espera no alpendre foram uma surpresa total para Mrs. Chilton e Pollyanna.
- Oh, Nancy, mas que bonito! - exclamou Pollyanna rindo. - Tia, a Nancy est aqui
para nos receber. Veja s como ela ps as coisas bonitas!
A voz de Pollyanna era deliberadamente alegre, embora um pouco trmula. Este
regresso a casa sem o seu querido tio no era fcil para ela. E no o sendo para ela,
muito pior seria para a tia. Sabia tambm que ela receava chorar diante de Nancy. Por
detrs do pesado vu negro, os olhos estavam semicerrados e os lbios tremiam. Na
realidade, no a surpreendia que a tia aproveitasse a primeira oportunidade para
descarregar a sua ira, procurando assim esconder a sua comoo. Da que Pollyanna
no ficasse espantada ao ouvir a tia cumprimentar Nancy com breves e frias palavras,
dizendo depois rispidamente: "Claro que tudo isto foi muito simptico da sua parte,
Nancy, mas realmente preferia que no o tivesse feito."
Toda a alegria se esvaiu do rosto de Nancy, que ficou muito magoada.
- Mas, Miss Polly, quero dizer, Mrs. Chilton, eu no podia entregar-lhe a casa como.
- No interessa, Nancy - interrompeu Mrs. Chilton - No quero falar disso.
De cabea orgulhosamente levantada, saiu da sala. Um minuto depois ouviram bater a
porta no quarto.
Nancy virou-se para Pollyanna, desolada.
- Miss Pollyanna, que se passa? Que fiz eu de mal? Da minha parte s houve boas
intenes!
- Claro que sim! - disse Pollyanna, deixando escapar uma lgrima. - Foi to bom que o
tivesse feito!
- Mas Mrs. Chilton no gostou.
- Gostar, gostou, no quis foi mostr-lo. Mrs. Chilton estava com medo de mostrar
outras coisas. Oh Nancy, Nancy! Estou to contente, que me apetece chorar! - o que
fez, apoiando a cabea no ombro de Nancy.
- Pronto, pronto, querida menina - procurava Nancy acalm-la, dispensando-lhe todo
o carinho.
- Sabe,  que eu no devo chorar diante dela. Foi difcil chegar aqui.
- Claro, claro, pobre cordeirinha! E eu que havia de fazer as coisas de modo a irrit-la!
- Nada disso! - retificou Pollyanna agitada.  a maneira dela, Nancy! Ela no quer
mostrar como sofre. E depois, com medo de se trair, aproveita tudo como desculpa
para tambm fazer isso comigo. Eu conheo-a bem, est a perceber?
- Sim, assim, quase percebo... - dizia Nancy enquanto apertava ainda mais os lbios e
acariciava Pollyanna. - Pobre cordeirinha, ainda bem que eu vim por vossa causa!
- Sim, eu tambm estou contente por ter vindo - disse Pollyanna, afastando-se
gentilmente e enxugando os olhos. - J me sinto melhor. Agradeo-lhe muito por tudo,
Nancy, agora no se prenda mais conosco.
 - Eu pensava ficar uma semana, para ajudar - disse Nancy, fungando.
- Ficar? Porqu, Nancy? Pensei que tinha casado! No casou com o Thimoty?
- Sim, mas ele no se importa. Ele prefere que eu fique por vossa causa.
- Mas, Nancy, no podemos ter c ningum agora. Eu vou fazer todo o trabalho. At
sabermos exatamente como esto as coisas, vamos viver com grandes economias. Foi o
que disse a tia Polly.
- Ai, se eu tivesse dinheiro... - comeou Nancy por dizer, mas, ao ver a expresso de
Pollyanna, parou e saiu apressadamente da sala para ir ver a galinha que estava no
forno do fogo.
S depois de terminado o jantar e de ter posto tudo em ordem,  que Mrs. Thimoty
Durgin consentiu em ir-se embora com o marido. E f-lo com manifesta relutncia,
depois de pedir inmeras vezes para que a deixassem vir dar uma ajudinha de vez em
quando.
Logo que Nancy se foi embora, Pollyanna dirigiu- se  sala onde Mrs. Chilton estava
sentada, com a mo encobrindo os olhos.
- Posso acender a luz? - perguntou Pollyanna.
- No vejo inconveniente.
- No acha que foi to simptico da parte da Nancy arranjar as coisas to bem?
No ouviu resposta.
- Onde conseguiu ela arranjar tantas flores? Todas as salas e at os dois quartos as tm.
Continuou sem ouvir resposta.
Pollyanna olhou disfaradamente para o rosto grave da tia. Da a pouco, recomeou,
esperanada.
- Sabe, vi o velho Tom no jardim. Pobre homem,est muito pior do reumatismo.
Muito mais curvado. Ele perguntou por si, e...
Mrs. Chilton interrompeu-a severamente.
- Pollyanna, que vamos fazer?
- Fazer? Ora, faremos o melhor que pudermos, minha querida tia.
Mrs. Chilton fez um gesto de impacincia.
- Vamos l, Pollyanna, fala a srio ao menos uma vez. Tens de perceber rapidamente
que isto  muito srio. O que vamos ns realmente fazer? Como sabes, os meus
rendimentos quase se acabaram. Eu sei que algumas das coisas ainda tm algum valor,
embora Mr. Hurt me tivesse dito que pouco resta que valha algo que se veja. Temos
algum dinheiro no banco e um pequeno rendimento, evidentemente. E tambm esta
casa. Mas para que serve esta casa? No a podemos comer nem vestir.  demasiado
grande para ns e para o modo como teremos de viver. Ainda se houvesse algum
interessado nela, por um preo razovel!
- Vend-la! Oh tia, no pode vender esta casa maravilhosa, cheia de coisas to lindas!
- Mas, se calhar temos de o fazer, Pollyanna. Sem comer  que no sobrevivemos.
- Eu sei. E eu estou sempre com tanta fome! lamentou-se Pollyanna, com uma risada
inspida. Mesmo assim, no vou ficar pesarosa por ter tanto apetite.
- Acho bem. Sempre tinhas de encontrar alguma coisa para estar contente. Mas,
responde-me, menina, que vamos fazer? No conseguirs falar a srio durante um
minuto?
O rosto de Pollyanna mudou rapidamente.
- Vou falar a srio, tia Polly. Estive a pensar e gostava de conseguir ganhar algum
dinheiro.
- Quem me havia de dizer, minha querida, que teria de te ouvir dizer isso! - lamentou-
se a senhora.
- Uma filha dos Harrington, ter que trabalhar para ganhar o seu po!
- No deve  ver as coisas assim - disse Pollyanna.
- Seria muito melhor comprazer-se por ver uma filha dos Harrington capaz de ganhar
o seu po! Alis, como qualquer mortal! Portanto, no  desgraa nenhuma, tia Polly.
- Talvez no. Mas l que amachuca o orgulho de uma pessoa, amachuca,
principalmente devido  posio que sempre tivemos em Beldingsville. Tens de convir,
Pollyanna, que no  agradvel.
Pollyanna parecia no ter ouvido. Tinha o olhar fixo.
- Se eu ao menos tivesse algum talento! Se ao menos soubesse fazer alguma coisa
melhor do que os outros - disse ela a suspirar. - Sei cantar um pouco, tocar um pouco,
bordar um pouco, mas qualquer delas insuficientemente para ser paga por isso. Acho
que do que gosto mais  de cozinhar - concluiu por fim - e tomar conta de uma casa.
Gostei de o fazer naquele Inverno, na Alemanha, quando a Gretchen esteve doente.
Mas no sei se teria coragem de o fazer em casa de outras pessoas.
- Como se eu te deixasse, Pollyanna!
- Mas a trabalhar apenas na nossa cozinha no d dinheiro nenhum - lamentou
Pollyanna. - E  de dinheiro que precisamos.
- Sim, na realidade,  disso mesmo que precisamos - confirmou a tia Polly suspirando.
Fez-se um longo silncio, finalmente quebrado por Pollyanna.
- A tia que tanto fez por mim! E eu, agora, sem saber como ajudar! Porque no nasci
eu com qualquer coisa que valesse dinheiro?
- Deixa l, querida, no penses mais nisso! Se o tio Thomas.
- Pollyanna olhou para a tia com vivacidade e ps-se de p.
- Oua, minha tia, isso no serve de nada! exclamou ela, mudando totalmente de
atitude. - No se atormente, tia. Quer apostar em como hei-de desenvolver um talento
maravilhoso,um destes dias? Alm disso,acho tudo isto verdadeiramente entusiasmante,
mesmo com tanta incerteza.  muito mais divertido precisar das coisas e ficar na
expectativa. Saber de antemo que teremos tudo o que queremos  uma rotina
enfadonha. - Concluiu ela, com uma gargalhada.
Mrs. Chilton, porm, no se riu. Apenas suspirou e disse:
- Querida Pollyanna, que criana tu s!




    14. Duas cartas

Na segunda metade de Junho desse ano chegou uma carta de Della Wetherby para
Pollyanna.

"Estou a escrever-lhe para lhe pedir um favor. Tenho a esperana de que me possa indicar
alguma famlia tranquila em Beldingsville, que esteja disposta a hospedar a minha irm durante
o Vero. Seriam trs pessoas Mrs. Carew, a sua secretria e o seu filho adotivo, Jamie. Eles no
querem ir para um hotel nem para uma penso. A minha irm est muito cansada e o mdico
aconselhou-a a ir para o campo repousar: Ele sugeriu Vermont ou New Hampshire. Por isso,
pensamos imediatamente em Beldingsville e em si. E aqui estou a perguntar-lhe se nos pode
recomendar um lugar adequado. Eu disse a Ruth que lhe ia escrever: Eles gostavam de partir j
no principio de Julho, se possvel. Seria abusar de si, pedir-lhe que nos informasse logo que
soubesse de um local? Por favor responda para mim, aqui para o Sanatrio. A minha irm est
conosco para algumas semanas de tratamento.
Aguardo resposta. Saudades, Della Wetherby."
Aps os primeiros minutos, concluda a leitura da carta, Pollyanna sentou-se de
sobrolho franzido, pensando em casas de Beldingsville que pudessem hospedar os seus
amigos. De repente ocorreu-lhe outra coisa, muito diferente, que a fez correr de alegria
 sala de estar, onde a tia curtia os seus prantos.
- Tia, tive uma ideia tima. Eu bem lhe disse que alguma coisa acabaria por acontecer.
Oua s! Recebi uma carta de Mrs. Wetherby, a irm de Mrs. Carew, com quem fiquei
h anos, no Inverno, em Boston. Lembra-se? Elas querem vir passar o Vero ao campo
e Mrs. Wetherby escreveu-me a pedir se eu lhes podia arranjar um lugar. No querem
ir para um hotel nem para uma penso. De princpio no me lembrei onde podia ser,
mas agora j sei. Eureca! Adivinhe onde, tia?
- Oh, querida, que excitao? - exclamou Mrs. Chilton - Nem parece teres vinte anos.
De que ests tu agora a falar?
- Sobre a casa onde hospedar Mrs. Carew e o Jamie.
- Ah, sim? E ento? Em que  que isso me pode interessar? - murmurou Mrs. Chilton,
alheada.
- Ora, porque  aqui mesmo. Vamos t-los aqui,tia.
- Pollyanna! - Mrs. Chilton levantou-se muito hirta e horrorizada.
- Oua tia, por favor no diga que no. Por favor! - pediu Pollyanna, ansiosa. - No
est a ver?  a minha oportunidade, a oportunidade que eu j esperava. Podemos muito
bem fazer isso. Temos imenso espao e sabe que eu posso cozinhar e arrumar a casa.
Receberemos dinheiro pois eles pagam bem. Adorariam vir para c, tenho a certeza.
So trs pessoas, vem uma secretria com eles.
- Mas, Pollyanna, eu no posso! No posso transformar esta casa numa penso! O
solar dos Harrington no se pode tornar numa mera penso. No Pollyanna, no pode
ser!
- No, tia no seria uma penso vulgar, mas antes uma penso invulgar. Diacho, e so
nossos amigos! Amigos que nos visitam... embora como clientes, apagar! Ganharamos
assim algum dinheiro, que tanto necessitamos, tia!
O rosto de Polly Chilton foi atravessado por um espasmo de orgulho ferido. Com um
lamento em voz baixa encostou-se na cadeira.
- Mas, como, querida? - perguntou finalmente, com voz sumida. - Como podes tu
fazer o trabalho todo sozinha?
- No, claro que no! - disse Pollyanna, j mais segura de ter convencido a tia. - Eu
cozinhava e governava a casa, e tenho a certeza que uma das irms mais novas de
Nancy nos podia ajudar no resto. Mrs. Durgin podia lavar a roupa, como faz agora.
- Mas, Pollyanna, eu no me sinto nada bem e no posso fazer grande coisa.
- No, claro que no e no h razo nenhuma para que faa - disse Pollyanna meio a
brincar. - Oh, tia! No vai ser to bom? At acho demasiado bom para ser verdade. O
dinheiro vir ter-me s mos, assim!
- Vir-te ter s mos? Ainda tens de aprender muita coisa neste mundo, Pollyanna. Uma
delas  que os hspedes de Vero no pagam nada a ningum sem obter bastante em
troca. Atualmente, j cozinhas, arrumas e limpas a casa, e ficas esgotada. Depois, nem
sei como ser. Vais derrear-te a servir as pessoas e a pr a casa em ordem. Depois me
contas!
- Est bem! - disse Pollyanna, j alegre. Ento vou escrever imediatamente a Miss
Wetherby, de modo a que o Jimmy Bean possa meter a carta no correio, quando vier 
tarde.
Mrs. Chilton olhou inquieta.
- Pollyanna, no gosto que chames a esse jovem tal nome. "Bean" faz-me estremecer.
Porque no Pendleton, tanto quanto eu sei?
- Pois  - concordou Pollyanna -, esqueo-me quase sempre. Ele tambm no gosta... -
concluiu, j a sair da sala, a danar.
Quando Jimmy veio visit-la, s quatro da tarde, a carta estava pronta. Ainda tremia de
entusiasmo e anseio e contou imediatamente a histria ao seu visitante.
- Estou morta por os ver - exclamou ela aps lhe ter contado os seus planos. - Desde
aquele Inverno que no os vejo. Acho que lhe contei tudo sobre o Jamie, no foi?
- Sim, sim, contou. - Havia certo constrangimento na voz do jovem.
- No  esplndido que eles possam vir?
- No vejo porque h-de ser esplndido.
- Ento no tenho uma oportunidade to boa para ajudar a tia Polly, mesmo que seja
por pouco tempo? Claro que  esplndido, Jimmy!
- E muito duro para si - disse ele empertigado e incomodado.
- Acredito que sim. Mas ficarei contente por causa do dinheiro. Estou sempre a pensar
nisso. Sou mesmo mercenria, Jimmy!
Durante um minuto no se ouviu resposta. Depois, um pouco de repente, o jovem
perguntou:
- Que idade tem esse Jamie?
Pollyanna olhou-o com um sorriso feliz.
- Ah, j me lembro, nunca gostou do nome dele, mas no interessa. Agora  adotado e
deve ter tomado o nome de Carew.
- Pois, mas no me disse que idade ele tem.
- Creio que ningum o sabe, exatamente. Admito, porm, que seja mais ou menos da
sua idade. Gostava de saber como est ele agora. De qualquer modo, nesta carta
pergunto isso tudo.
- Ah, pergunta?
Pendleton olhou a carta que tinha na sua mo e sacudiu-a com algum desprezo.
Apetecia-lhe deix-la cair, rasg-la ou sumi-la mesmo. Deit-la no correio  que no.
Jimmy sabia perfeitamente bem que estava com cimes e que sempre tinha tido cimes
desse jovem de nome to parecido e ao mesmo tempo to diferente do seu. No que
ele estivesse apaixonado por Pollyanna. Assim, o afirmava veementemente a si prprio.
S que tambm no estava nada interessado em que esse estranho, de nome efeminado,
viesse para Beldingsville transtornar os bons momentos que eles passavam juntos. Por
pouco no o disse a Pollyanna. At que se despediu, levando a carta consigo.
Realmente, Jimmy no deu azo aos seus maus pensamentos sobre o encaminhamento
da carta, pois, alguns dias mais tarde, Pollyanna recebeu uma rpida resposta,
encantada, de Miss Wetherby, e quando Jimmy foi visit-la j teve de ouvir falar dela,
dado que Pollyanna a resumiu nestes termos:
- Na primeira parte diz que est contentssima por poderem vir. No resto, fala de
pormenores sem interesse para si. Alm disso, em breve, vai conhec-los. Acredite,
confio bastante em si, Jimmy, para me ajudar a acompanh-los e a tornar as coisas mais
agradveis para eles.
- Ah est?
- Peo-lhe que no seja sarcstico, s porque no gosta do nome do Jamie! -
recomendou Pollyanna, fingindo-se severa. - Voc, de certeza, vai gostar dele quando o
conhecer. E h-de adorar Mrs. Carew.
- Acha que sim? - retorquiu Jimmy amuado.  uma boa previso! Espero ao menos
que, se eu o fizer, voc me corresponda com simpatia.
- Mas  claro. Agora oua, no resisto, vou ler-lhe sobre Mrs. Carew. A carta  da irm,
Miss Wetherby, que trabalha no Sanatrio.
- Est bem! - disse Jimmy, numa tentativa de mostrar educadamente interesse.
Pollyanna, sorridente e tambm ansiosa, comeou a ler:

"Pediu-me que lhe contasse tudo acerca de toda a gente. Isso  uma grande tarefa, todavia farei o
melhor que puder. Para comear, penso que encontrar a minha irm muito modificada. Os
novos interesses que entraram na sua vida nos ltimos seis anos fizeram milagres. Atualmente
est um pouco magra e cansada, por excesso de trabalho, mas um bom repouso remediar isso e
h-de ver como ela parece jovem e alegre. Por favor, repare que eu disse alegre. Isso, para si, no
significa tanto como significa para mim, evidentemente, pois era demasiado nova para
compreender como ela era triste e infeliz quando a conheceu naquele Inverno, em Boston. Ento,
a sua vida, no passava de indiferena e desespero, enquanto agora se apresenta cheia de interesse
e alegria.
Primeiro, adotou o Jamie. Quando os vir juntos compreender logo o que ele representa para ela.
Continuamos sem saber se ele  o verdadeiro Jamie, ou no, mas minha irm gosta dele como se
fosse o seu prprio filho e adotou-o legalmente, como calculo que saiba.
Depois tem as suas raparigas. Lembra-se da Sadie Dean, a empregada de balco? Interessou-se
por ela e procurou ajud-la, proporcionando-lhe uma vida melhor. Depois, aumentou os seus
esforos, pouco a pouco, e presentemente tem imensas raparigas que a consideram como o anjo-da-
guarda. Abriu um lar, para raparigas trabalhadoras, em moldes novos. A sua principal auxiliar
 a secretria, a Sadie Dean. Tambm a ir achar bastante mudada embora continue a ser a
mesma Sadie.
Quanto ao Jamie, pobre Jamie! A maior tristeza da sua vida  que, agora, sabe que no mais
poder andar. Mas para quem conviva com Jamie, raramente o v como um aleijado. Que alma
a dele! Livre!  inexplicvel, mas h-de perceber o que quero dizer quando o vir. Alm disso, ele
conservou maravilhosamente o seu entusiasmo de rapaz e a alegria de viver. S h uma coisa que
poderia extinguir o seu humor e lan-lo no desespero. Seria descobrir que no  Jamie Kent, o
nosso sobrinho. Ele tem-no desejado to ardentemente que, presentemente, acredita de fato ser o
verdadeiro Jamie. Mas, se no for, espero que nunca o venha a descobrir."

- Aqui est,  tudo o que ela diz sobre eles - anunciou Pollyanna, dobrando a carta. -
No  interessante?
- Sim, claro!
- Agora, havia algo de genuno na voz de Jimmy. Pensava no que representavam para si
as suas pernas. J no fazia caso de que esse pobre jovem aleijado beneficiasse de
alguma ateno de Pollyanna, desde que ela no exagerasse!




   15. Os hspedes

Os dias que antecederam a chegada "dessa gente incomodativa", como a tia Polly
designava os hspedes da sobrinha, foram dias muito trabalhosos para Pollyanna, mas
foram tambm dias alegres, pois ela no se deixava desanimar por mais difceis que
fossem os problemas a resolver.
Tendo convocado Nancy e a irm mais nova desta, Betty, para a ajudar, Pollyanna
percorreu sistematicamente a casa, quarto por quarto e preparou tudo com muito
esmero para o maior conforto e comodidade dos seus to desejados hspedes. Mrs.
Chilton pouco ou nada podia ajudar, ou porque no se sentia bem, ou porque a sua
atitude mental, em relao quela ideia no era de todo favorvel, j pelo seu orgulho
doentio, j por preconceitos atvicos. Murmurava constantemente:
- Ai, Pollyanna, Pollyanna, s de pensar que o solar dos Harrington se vai tornar nisso!
- Que tem de mal? - procurou Pollyanna apazigu-la, rindo. - So os Carew que vm
para o solar dos Harrington!
Mas Mrs. Chilton no achou graa nenhuma e apenas respondeu com um olhar de
desprezo e um grande suspiro, que a sobrinha aproveitou para se retirar e deix-la
sozinha.
No dia combinado, Pollyanna, acompanhada de Thimoty, que era agora dono dos
antigos cavalos dos Harrington, dirigiram-se  estao para esperar o comboio da
tarde. At a, no corao de Pollyanna s havia confiana e alegre expectativa. Mas, ao
ouvir o barulho da locomotiva, sentiu-se tomada de um verdadeiro pnico, cheia de
dvidas, desalentada. Compreendeu de sbito a situao na exata dimenso. Viu-se
pouco mais que s. Lembrou-se da riqueza, da posio e dos gostos requintados de
Mrs. Carew. Veio-lhe  lembrana o Jamie, certamente mais crescido e diferente do
rapazito que conhecera. Foram momentos horrveis, em que s lhe apetecia fugir dali.
- Thimoty, sinto-me mal. Diga-lhes que no pude vir - disse ela gaguejando,
preparando-se para se ir embora.
- Minha senhora! - exclamou Thimoty, espantado.
Porm, bastou a Pollyanna olhar para o rosto espavorido de Thimoty. Riu-se e
empertigou-se toda.
- Pronto, no foi nada! Esto quase a chegar - disse ela embaraada e de voz ofegante.
No tardou que Pollyanna os reconhecesse imediatamente. Se tivesse alguma dvida, as
muletas nas mos de um jovem alto, de cabelos castanhos, identificariam as pessoas
que aguardava.
Durante alguns minutos cumprimentaram-se. E logo a seguir Pollyanna deu consigo na
charrete com Mrs. Carew a seu lado e Jamie e Sadie Dean diante de si. A realidade
mostrava-lhe agora os seus amigos e no deixava de notar-lhes as alteraes que em seis
anos se tinham produzido.
Quanto a Mrs. Carew, o primeiro sentimento foi de surpresa. J se tinha esquecido que
ela era to simptica. Tambm no se recordava que as suas pestanas fossem to longas
e os olhos to bonitos. At deu consigo a pensar, invejosamente, como aquele rosto
estava de acordo com as medidas do artigo da revista que lera. E, acima de tudo,
alegrava-se por no lhe ver os mnimos indcios de tristeza ou amargura.
Depois, apreciou Jamie. Tambm com ele ficou surpreendida. De fato, tornara-se
bonito, e tinha mesmo um ar realmente distinto. Quando se fixou nas muletas, a seu
lado,  que a garganta se lhe contraiu, com um espasmo de compaixo.
De Jamie, Pollyanna virou-se para a Sadie Dean. Quanto s linhas do seu rosto,
pareciam-lhe bastante as da rapariga que conhecera em Boston. Mas no foi preciso
uma segunda observao para perceber que Sadie, quanto ao cabelo e  maneira de
vestir, e sobre o discurso e a disposio era uma Sadie bem diferente, para melhor,
claro.
Foi, porm, o Jamie que iniciou a conversa mais substancial.
- Que bom que foi oferecerem-nos a vossa casa - dirigiu-se ele a Pollyanna. - Nem
queira saber o que eu pensei e como me senti quando escreveu a dizer que podamos
vir!
- Que foi, ento? - perguntou Pollyanna hesitante, de olhos fixos nas muletas, e
continuando a sentir a garganta apertada.
- Pensei na rapariguinha do Jardim Pblico com o seu saco de amendoins para Sir
Lancelot e Lady Guinevere. Sabia que nos estava a colocar no lugar deles, pois se ento
tinha um saco de amendoins e ns no tnhamos nenhum no ficaria contente
enquanto no os dividisse conosco.
- Um saco de amendoins? - disse Pollyanna a rir.
- Bom, neste caso, o saco de amendoins so quartos arejados no campo, leite de vaca e
ovos a srio - continuou Jamie extravagantemente. - Mas vai dar ao mesmo. E  bom
que a avise... Lembra-se de como o Sir. Lancelot estava sempre esfomeado?
- Est bem, eu assumo o risco - disse Pollyanna, pensando como estava satisfeita por a
tia Polly no estar presente para ouvir a confirmao das suas piores previses assim
to cedo. - Pobre Sir Lancelot! Algum lhe dar ainda de comer?
- Se for vivo algum lhe h-de dar de comer - interps-se Mrs. Carew, bem disposta. -
Este trouxa ainda l vai uma vez por semana. No tenho dvidas, porque quando
quero flocos para o pequeno-almoo, e no h, dizem-me: "O senhor Jamie deu-os de
comer aos pombos, minha senhora! "
- Mas, deixe-me que lhe diga. - intrometeu-se Jamie, entusiasmado.
E Pollyanna ps-se a ouvi-lo, com todo o antigo fascnio, contar a histria de um par
de esquilos num jardim iluminado pelo Sol.
Para grande alvio de Pollyanna, o primeiro e receado encontro entre a tia Polly e os
Carew, correu melhor do que pensara. Os recm-chegados estavam to encantados com
a casa antiga e tudo o que nela existia, que era impossvel a proprietria continuar
numa atitude rgida diante deles. Alm disso, logo se tornou evidente que o encanto e
magnetismo pessoais de Jamie quebraram a prpria armadura de desconfiana da tia
Polly. Pollyanna respirou fundo assim que se apercebeu de que a tia Polly comeara a
desempenhar o papel de simptica anfitri destes hspedes.
Apesar do seu alvio pela alterao de comportamento da atitude da tia, Pollyanna
sabia que ainda havia obstculos a superar, mormente o trabalho a ter. A irm de
Nancy apareceu, mas no era a mesma coisa que a Nancy, como depressa se viu. Alm
de inexperiente, era lenta. Pollyanna estava receosa que as coisas no corressem pelo
melhor. A sua incerteza era tal, que, para si, uma cadeira com p era um crime e um
bolo cado ao cho uma tragdia.
Gradualmente, porm, depois de muito instada por Mrs. Carew e por Jamie, Pollyanna
passou a encarar os afazeres mais calmamente, aprendendo que os seus temores aos
olhos dos amigos no eram uma cadeira com p ou um bolo cado, mas sim a
expresso de preocupao e ansiedade do seu rosto, o que muito preocupava os
visitantes.
- Como se no fosse suficiente deixar-nos vir! afirmou Jamie. - Acredite, no queremos
que se mate a trabalhar s para nos dar de comer.
- Alm disso, no comemos muito - interveio Mrs. Carew a rir - seno arranjamos uma
"digesto" como diz uma das minhas raparigas quando a comida no lhe cai bem.
Afinal, os novos membros da famlia adaptaram-se maravilhosamente ao quotidiano da
casa. Ainda no tinham passado 24 horas e Mrs. Carew ouvia Mrs. Chilton manifestar
interesse sobre o seu novo lar para raparigas trabalhadoras; e Sadie Dean e Jamie
discutiam sobre a possibilidade de ajudarem a descascar ervilhas ou a apanhar flores.
Os Carew j estavam no solar dos Harrington h quase uma semana, quando uma
noite John Pendleton e Jimmy vieram de visita. Pollyanna j os esperava, porque, com
efeito, antes dos Carew chegarem, ela tinha-lhes pedido muito que viessem. Foi, pois,
orgulhosa que fez as apresentaes.
- So to meus amigos que quero que se conheam bem e que sejam tambm amigos
entre si - auspiciou ela.
Pollyanna no ficou nada surpreendida por Jimmy e Mr. Pendleton ficarem
impressionados com o encanto e a beleza de Mrs. Carew. Mas a expresso que surgiu
no rosto de Mrs. Carew, ao ver Jimmy, surpreendeu-a. Dir-se-ia ter sido uma expresso
de reconhecimento.
- No nos encontramos j antes, Mr. Pendleton? - exclamou Mrs. Carew.
Jimmy olhou-a espantado e respondeu:
- Penso que no. Ou melhor, tenho a certeza que no. De contrrio, t-la-ia
reconhecido - disse, com uma vnia.
A sua expresso foi to enftica que todos riram. E John Pendleton galhofou:
- Muito bem, muito bem, meu filho! Eu no o conseguiria fazer to bem!
Mrs. Carew corou ligeiramente, sem deixar de rir com os outros.
- Olhe, a srio! - insistiu ela. - Fora de brincadeiras. Existe algo de extremamente
familiar no seu rosto! Juraria que j o vi algures, se no o encontrei mesmo!
- Quem sabe! - interps-se Pollyanna. - Talvez em Boston. Jimmy estuda l engenharia.
Vai construir pontes e barragens quando crescer! - concluiu ela, com alegria, olhando o
rapaz com um metro e oitenta, ainda de p diante de Mrs. Carew.
Todos voltaram a rir, com exceo de Jamie. E s Sadie Dean reparou que Jamie em
vez de rir, fechou os olhos, como se alguma coisa o magoasse. E s ela sabia porqu,
da que procurasse logo mudar de assunto. No surpreendeu, pois, que comeasse a
falar de livros, flores, animais e pssaros, coisas que Jamie conhecia e compreendia. De
fato, ningum se dera conta dessa manobra de Sadie, nem mesmo Jamie.
Quando os Pendleton se despediram, Mrs. Carew voltou novamente  sensao curiosa
de que j tinha visto o jovem Pendleton.
- Tenho a certeza que j o vi - declarou, ela pensativa. - Pode ter sido em Boston,
mas... - no concluiu a frase e acrescentou: -  um bonito rapaz! Gosto dele!
- Coincide com o meu gosto, tambm gosto muito dele! - disse Pollyanna. - Alis
sempre gostei do Jimmy.
- J o conhece h muito, no? - perguntou Jamie um pouco triste.
- Sim, conheci-o h anos, quando era menina. Chamava-se ento Jimmy Bean.
- Jimmy Bean! Porqu? Ele no  filho de Mr. Pendleton? - perguntou Mrs. Carew
surpreendida.
- No. S por adoo.
- Adoo? - inquiriu Jamie. - Ento ele no  filho autntico, tal como eu? - na voz do
rapaz notava-se uma curiosa alegria.
- No. Mr. Pendleton no tem filhos. Nunca foi casado.
Pollyanna calou-se de sbito, notando-se que algo mais teria para dizer, o que no
passou despercebido a Mrs. Carew e Jamie, que, desconhecendo as causas, se
perguntaram a eles prprios: "Ser possvel que aquele homem, John Pendleton, se
tenha apaixonado por Pollyanna?"
Naturalmente que foi dvida que lhes ficou no ntimo e, portanto no pde ser
confirmada, embora no ficasse esquecida.




  16. A deciso de Jimmy

Antes dos Carew chegarem, Pollyanna dissera a Jimmy que estava a contar com ele
para a ajudar a entret-los. Jimmy no se tinha manifestado excessivamente desejoso
disso, mas ainda os visitantes no estavam no solar h quinze dias, j ele se mostrava
no s interessado mas ansioso por poder ser til, a julgar pela frequncia e durao
das suas visitas e pela insistncia em pr  disposio dos hspedes os cavalos e os
automveis dos Pendleton.
Entre ele e Mrs. Carew estabeleceu-se uma amizade encantadora baseada no que
parecia ser uma forte atrao mtua. Passeavam e conversavam juntos e faziam at
planos para o lar das raparigas trabalhadoras, a inaugurar no Inverno seguinte, quando
Jimmy estivesse em Boston.
Jimmy no estava s nas suas propostas de diverso. Cada vez mais frequentemente,
John Pendleton aparecia com ele. Planeavam passeios a cavalo e de automvel bem
como piqueniques, passando tardes encantadoras lendo livros e fazendo tric na
varanda dos Harrington.
Pollyanna estava encantada. No s os hspedes eram entretidos, desviando-os de
possibilidade de sentirem saudades de casa, como por sua vez se tornaram amigos de
outros bons amigos, os Pendleton. Assim, tal-qualmente uma galinha com os seus
pintos, ela encorajava as reunies na varanda e fazia tudo o que podia para manter o
grupo unido e contente.
E o Vero foi decorrendo alegre e descontraidamente.
Porm, Pollyanna adivinhava em Jamie alguma amargura subjacente, que antes no
vira. Bem percebia que, de vez em quando, ele parecia quase querer evitar os outros e
suspirava, como se ficasse aliviado, quando se encontrava a ss com ela. E a razo desse
comportamento mais se lhe arreigou no esprito quando uma vez ao observarem os
outros a jogar tnis, ele lhe disse:
- Sabe, no h ningum que me compreenda to bem como a Pollyanna.
- Que o compreenda?
- Sim, porque a Pollyanna em tempos tambm no pde andar.
- Ah, sim,  verdade! - disse Pollyanna, hesitante, percebendo que a sua amargura devia
ter transparecido uma vez que ele mudou rapidamente de assunto:
- Ento, Pollyanna, porque no me convida a jogar o jogo? No seu lugar, era isso que
eu diria. No, por favor, esquea! Fui um bruto ao falar-lhe nisso. Esquea!
Pollyanna sorriu e rematou: - No, no! - mas nunca mais se esqueceu, e ficou at mais
ansiosa por estar com Jamie e por o ajudar em tudo que pudesse.
- Jamais poderei deixar que ele perceba que eu no fico contente quando est comigo!
Pollyanna, porm, no era a nica no grupo que sentia tal constrangimento. Jimmy
Pendleton tambm o sentia embora procurasse escond-lo.
Jimmy, naquela altura, no se sentia feliz. Com uma juventude despreocupada e
perspectivas que deixavam antever o melhor, ele tornou-se ansioso e tambm receoso
que o rival lhe levasse a rapariga que amava.
Jimmy j no duvidava que estava apaixonado por Pollyanna. E esse sentimento era to
evidente, que ficava estupefato ao ver-se to afetado e impotente face ao que lhe estava
a acontecer. Sabia que as suas simpticas pontes nada valiam quando comparadas com
um sorriso de Pollyanna. Tinha conscincia, isso sim, de que a ponte mais maravilhosa
do mundo seria aquela que o ajudasse a atravessar o receio e a dvida que sentia existir
entre si e Pollyanna. Dvida por causa de Pollyanna, receio por causa de Jamie.
Interrogava-se sobre se Pollyanna gostaria de Jamie. E admitia que sim. A questo que
se lhe punha era se deveria ficar de parte, como um fraco, e deixar que Jamie a fizesse
gostar ainda mais dele. Isso sim, revoltava-o. Jimmy decidiu que no haveria de ser
assim. Iria para uma luta justa entre ambos.
No entanto, Jimmy sentiu-se corar at  raiz dos cabelos. Como uma luta "justa"?
Seria possvel haver uma luta "justa" entre ele e Jamie? Sobreveio-lhe de sbito o
mesmo que sentira h anos, ainda rapaz, quando desafiou outro para brigar por uma
ma que ambos desejavam e depois descobriu, ao primeiro soco, que o outro era
aleijado de um brao. Perdeu propositadamente. Mas, agora, dizia para consigo, era
diferente. Pollyanna no era propriamente uma ma. Era a felicidade da sua vida; e
certamente tambm a dela.
E mais uma vez, Jimmy voltou a corar, ao mesmo tempo que franzia a testa, zangado.
Se ao menos conseguisse esquecer a expresso lamentosa do Jamie, "amarrado a duas
muletas"! Mas de que serviria? Nem por isso seria uma luta justa, bem o sabia.
Portanto, decidia: iria observar e esperar. Daria a Jamie a sua oportunidade.
Sim senhor, que atitude bonita e herica! Jimmy estava to exaltado que se sentiu
quase feliz, adormecendo em paz nessa noite. Porm, o martrio na prtica  uma coisa
e na teoria outra. Assim o verificaram os mrtires desde tempos imemoriais. Foi fcil
decidir, sozinho e no escuro, que o Jamie teria a sua oportunidade. Mas j no era to
fcil faz-lo na prtica, quando isso implicava deixar Pollyanna e Jamie juntos.
Jimmy tambm estava preocupado com a atitude de Pollyanna, em relao ao jovem
aleijado. Para Jimmy parecia que ela de fato gostava de Jamie, pelo zelo que mostrava
em relao ao conforto dele e pela nsia que parecia ter em estar com ele. Um dia
como se fosse para desfazer qualquer dvida que ainda existisse, Sadie Dean teve algo a
dizer sobre o assunto.
Estavam todos no corte de tnis. Sadie estava sentada sozinha quando Jimmy apareceu.
- Joga a seguir com Pollyanna? - perguntou-lhe Jimmy.
Ela respondeu que no.
- Pollyanna no joga mais esta manh.
- No joga mais? - perguntou Jimmy surpreendido, pois contava jogar com ela mais
tarde. - Por que no?
Sadie Dean no respondeu logo, desabafando com alguma dificuldade:
- Pollyanna disse-me ontem que estavam a jogar tnis de mais e que isso no era
simptico para Mr. Carew pois ele no podia jogar.
- Eu sei, mas. - Jimmy no chegou a concluir, franzindo ainda mais a testa, pois Sadie
Dean interrompeu-o.
- Mas ele no quer que ela pare de jogar. Alis, no quer que nenhum de ns se
comporte de modo diferente por sua causa.  isso que o magoa. Mas ela no
compreende!
Ouve algo nas palavras e nos modos dela que causou viva impresso em Jimmy. Uma
pergunta aflorou-lhe os lbios. Era visvel que se refreava, decerto preocupado, mas
perguntou:
- Porqu, Miss Dean? Acha que existe algum interesse especial entre eles?
Ela olhou-o de modo trocista.
- Onde tem os olhos? Ela adora-o! Melhor, eles adoram-se! - corrigiu apressadamente.
Jimmy, fora de si, virou-se e afastou-se. No queria ficar ali mais tempo, a falar com
Sadie Dean. Por isso se afastou to depressa que nem reparou que Sadie Dean tambm
se virara e olhava fixamente para a relva. Era bem evidente que tambm ela no queria
continuar a conversa.
Jimmy Pendleton tentou autoconvencer-se de que aquilo no era verdade. No entanto,
verdade ou no, no conseguia esquecer. Procurou ser mais otimista, mas ressentia-se
sempre que via Pollyanna e Jamie juntos. At que acabou por achar que, afinal, era
verdade e que se adoravam realmente um ao outro. E o resultado foi sentir o corao
pesado como chumbo. De modo que, fiel  promessa que fizera a si prprio, afastou-se
resolutamente. "Os dados estavam lanados", disse para si, "Pollyanna no seria dele".
Seguiram-se dias de desassossego para Jimmy. No ousava afastar-se completamente
do solar dos Harrington, receoso que suspeitassem do seu segredo. Agora, estar com
Pollyanna, era uma tortura. At com Sadie Dean, pois no esquecia que fora ela quem
lhe abrira os olhos. Nem, compreensivelmente, o Jamie podia ser o seu porto de
abrigo, restando-lhe apenas Mrs. Carew. Esta, alis, acolheu-o muito bem, e naqueles
dias, realmente, era apenas junto dela que Jimmy se sentia confortado. Correspondeu
exatamente ao estado de esprito dele, e era surpreendente como sabia tanta coisa sobre
as pontes que ele ia construir. Alm disso, era sensata e simptica, sabendo sempre
dizer a palavra certa no momento certo. Um dia esteve quase a falar-lhe sobre o
"envelope", mas John Pendleton interrompeu-os acidentalmente de modo que acabou
por no lhe contar a histria.
O "envelope" era uma coisa que remontava  infncia de Jimmy e que ele nunca tinha
contado a ningum, salvo a John Pendleton, e isso apenas por altura da sua adoo.
Era um sobrescrito branco, grande, gasto pelo tempo e fechado misteriosamente com
um selo de lacre vermelho. Fora-lhe dado pelo pai e inseria as seguintes instrues
escritas pela sua prpria mo:

"Ao meu filho Jimmy. No deve ser aberto antes de ele fazer trinta anos, exceto em caso de morte,
devendo ento ser aberto de imediato."

s vezes Jimmy especulava sobre o contedo desse sobrescrito. Mas quase sempre
esquecia a sua existncia. Nos tempos em que esteve no orfanato, o seu maior temor
era que o descobrissem ou lho tirassem. Tanto que o usava sempre escondido no forro
do casaco. Mais tarde, por sugesto de John Pendleton, foi guardado no cofre da
manso.
"No sabemos que valor tem", dizia John Pendleton, "e o teu pai queria que o
conservasses, por isso no podes correr o risco de o perder. "
Foi este "envelope" que Jimmy esteve quase a referir a Mrs. Carew. E talvez tenha sido
melhor assim, pensou Jimmy para consigo. "Quem sabe se ela pensaria que meu pai
tivesse tido alguma coisa na sua vida que no fosse correta? E no quero que assim
pense de meu pai."




  17. O jogo e Pollyanna

Antes de meados de Setembro, os Carew e Sadie Dean despediram-se e regressaram a
Boston. Apesar de saber que iria sentir a falta deles, Pollyanna suspirou de alvio
quando o comboio que os transportava se afastou da estao de Beldingsville. Era um
sentimento de alvio que Pollyanna no confessaria a ningum, e at a si prpria pedia
desculpas por isso.
"No  que eu no goste muito deles, de todos eles", pensou ela, ao ver o comboio a
desaparecer na curva, "s que estou cansada de ter pena do pobre Jamie, e, assim,
ficarei contente por voltar aos dias tranquilos com o Jimmy".
Pollyanna, porm, no regressou aos velhos dias tranquilos com o Jimmy.  certo que
os dias que se seguiram foram calmos, mas sem a presena de Jimmy. O jovem s
raramente se aproximava da casa e quando a visitava no era o mesmo de antes.
Melanclico, inquieto e silencioso ou ento excessivamente alegre e falador, em geral
manifestava um nervosismo quase incomodativo. Tambm ele, pouco tempo depois,
partiu para Boston.
Pollyanna ficou surpreendida ao ver como sentia a falta do amigo. At o fato de saber
que ele estava na cidade e que existia a possibilidade de a vir visitar era melhor do que
o vazio da sua ausncia total. Mesmo apesar da sua instabilidade de esprito. At que
um dia disse a si prpria: "Ento, Pollyanna Whitier at pareces apaixonada por
Jimmy Bean! Ser que no consegues pensar seno nele?"
Depois disto, esforou-se por cultivar a alegria e por afastar Jimmy Pendleton dos seus
pensamentos. E a tia Polly, embora involuntariamente, tambm a ajudou.
Com a partida dos Carew, cessou tambm a principal fonte de rendimentos e a tia
Polly comeou de novo a preocupar-se e lamentar-se sobre o seu estado financeiro,
repetindo:
- Realmente, no sei, Pollyanna, o que vai ser de ns.  certo que ainda temos uma
pequena reserva graas aos hspedes de Vero, e mais a pequena quantia da
propriedade, mas no sei quanto tempo isto vai durar. Se ao menos pudssemos fazer
alguma coisa capaz de render algum dinheiro!
Foi depois de um destes lamentos que Pollyanna leu numa revista sobre um concurso
de novelas, com prmios avultados e numerosos, e condies muito atraentes. Dava a
ideia de muito fcil e inclua, at, um apelo, que parecia dirigido especialmente a
Pollyanna:

"Isto  para si que nos est a ler. No importa que nunca tenha escrito uma novela. Isso no quer
dizer que no possa ou no saiba escrev-la. Basta experimentar.
No gostava de ganhar trs mil dlares? Dois mil? Mil? Quinhentos ou mesmo cem? Por que
no? V, experimente."

Logo Pollyanna pensou: "Ainda bem que vi isto! Diz mesmo que hei- de conseguir!
Vou contar  tia, at para que no se preocupe mais... "
Mas j quase ao chegar  porta, refletiu melhor, parou e cismou: "Bom, pensando
melhor,  prefervel no lhe dizer. Ser melhor fazer-lhe a surpresa. Ai, se eu
conseguisse o primeiro prmio! " e foi deitar-se, a conjecturar no que faria com os trs
mil dlares.
No dia seguinte, Pollyanna comeou a escrever a sua novela. Com efeito, com ares
muito importantes, pegou numa quantidade de folhas de papel, afiou meia dzia de
lpis e sentou-se na grande secretria antiga dos Harrington, existente na sala de estar.
Depois de morder nervosamente em dois lpis, pondo um deles de parte, estragado,
desesperada interrogava-se: "Como  que eles arranjaro os ttulos? O melhor seria
talvez pensar primeiro na histria!" Porm, no conseguia arrumar ideias e, ao fim de
meia hora, uma folha inteira estava cheia de rasuras, com apenas algumas palavras aqui
e ali. At que a tia Polly entrou na sala, mirou a sobrinha e perguntou:
- Ento, Pollyanna, que ests a fazer? Pollyanna riu e corou embaraada.
- Nada de especial, tia - admitiu ela, com um sorriso divertido. - Mas, quero dizer-lhe,
 um segredo, que todavia, ainda no lhe vou contar.
- Como queiras! Devo  dizer-te que se ests a tentar pr em ordem os papis que Mr.
Hart deixou,  escusado! J o tentei por duas vezes!
- No, no  isso,  muito melhor - garantiu Pollyanna triunfante, retomando o
trabalho.
Aos seus olhos surgira a viso deslumbrante do que faria se recebesse os trs mil
dlares. Escreveu e rasurou durante mais de meia hora. Depois, mordeu os lpis de
desespero e, um pouco desanimada, reuniu as folhas e deixou a sala. "Talvez consiga
trabalhar melhor l em cima. E eu a pensar que seria melhor  secretria! De verdade,
esta manh, acho que no me est a ajudar muito. Vou experimentar na cadeira, junto
 janela do meu quarto."
Porm, o cadeiro e a janela do aposento no lhe deram mais inspirao, a julgar pela
quantidade de folhas escritas e reescritas que tinha nas mos. Ao fim de mais meia
hora, Pollyanna viu de repente que eram horas de jantar. "Ai, ainda bem", disse a
suspirar, "prefiro ir jantar a continuar com isto. No que no queira continuar, mas,
realmente, no fazia ideia do trabalho que dava "
Em todo o ms seguinte, Pollyanna trabalhou afincadamente, mas compreendendo que
no era nada fcil escrever uma novela. No entanto, no era pessoa de desistir, e
sempre havia o incentivo do prmio de trs mil dlares ou at um dos outros, se no
conseguisse ganhar o primeiro! Mesmo cem dlares j era alguma coisa! E os dias
sucederam-se, com ela a escrever, a riscar e a reescrever, at que finalmente a novela
ficou pronta. Depois, foi s levar o manuscrito a Milly Snow para ser dactilografado.
"L-se bem, faz sentido! ", pensava Pollyanna para consigo prpria enquanto se dirigia
a casa dos Snow. "E  uma histria bastante bonita, sobre uma menina adorvel. Mas
receio que haja qualquer coisa que no esteja muito bem. Se calhar no devo contar
muito com o primeiro prmio. Tambm no ficarei desapontada se ganhar um dos
mais pequenos. "
Pollyanna no deixava de pensar em Jimmy sempre que ia a casa dos Snow, pois fora
na estrada e junto dessa casa que ela o encontrara pela primeira vez, aps ter fugido do
orfanato.Tambm agora voltou a pensar nele.At que, orgulhosamente, subiu apressada
os degraus da escada dos Snow e tocou a campainha.
Como habitualmente, os Snow mais no tinham para oferecer a Pollyanna seno o
calor das boas-vindas. E, como de costume, em breve estavam a conversar sobre o jogo.
Em mais nenhuma casa de Beldingsville o jogo se fazia com tanta satisfao.
- Ento, como tm passado? - perguntou Pollyanna depois de ter tratado da questo da
datilografia.
- Otimamente! - respondeu Milly Snow, satisfeita. - Com este  o terceiro trabalho que
recebo esta semana. Oh, Miss Pollyanna, nem calcula como estou contente por me ter
encorajado a fazer o curso de datilografia! Ao menos, posso trabalhar em casa! De
algum modo,  a si que devo a minha deciso!
- Ora veja que ajuda! - disse Pollyanna modestamente.
- Mas  verdade. Nem nunca teria feito o curso se o jogo no tivesse posto a minha
me muito melhor, permitindo-me dispor de algum tempo. Mas no esqueo, a ideia
foi sua. E por isso lhe estou grata!
Mais uma vez Pollyanna objetou. Desta vez foi interrompida por Mrs. Snow, que
falou da sua cadeira de rodas de junto da janela. Mrs. Snow falava com tal seriedade
que Pollyanna no pde deixar de ouvir o que ela dizia.
- Oua menina, acho que no se d bem conta daquilo que realizou, mas gostava que
compreendesse! Hoje vejo nos seus olhos uma expresso de que no gosto. Est
atormentada e preocupada com alguma coisa. Eu sei. Posso v-lo e no me admira. A
morte do seu tio, as condies da sua tia, tudo isso, no  pouco! Mas h uma coisa
que lhe quero dizer, pois no suporto ver essa sombra nos seus olhos sem a tentar
afastar, lembrando-lhe aquilo que fez por mim e por toda a cidade, por todas as
pessoas e em todo o lado.
- Mrs. Snow ento! - protestou Pollyanna, embaraada.
- No  seno a verdade! No acha que eu era uma criatura rabugenta, sempre a
lamuriar, que nunca gostava do que tinha e at descobria o que no tinha? E no me
abriu os olhos trazendo-me trs coisas, de modo a que eu finalmente tivesse aquilo que
queria?
- Mrs. Snow, eu era assim to impertinente? murmurou Pollyanna.
- No, no era - objetou Mrs. Snow. - Era isso que a tornava diferente. Voc no me
fazia prdicas.
Se o tivesse feito, tambm no me teria levado a jogar o jogo. Nem a mim, nem a
ningum! Mas conseguiu levar-me a jog-lo, e veja o que me aconteceu e  Milly! Aqui
estou muito melhor, sentada numa cadeira de rodas, podendo deslocar-me. Foi muito
bom, acredite, porque me proporciona muito maior liberdade, e tambm aos outros,
como  o caso de Milly. Foram os prprios mdicos que disseram que devo tudo ao
"Jogo do Contentamento". Depois, h as outras pessoas, um bom nmero nesta
cidade, como estou sempre a ouvir. Agora, pensei que poderia ajud-la sempre que
quisesse, pois no julgue que no compreendo como, por vezes, lhe deve ser difcil
jogar o seu prprio jogo.
Pollyanna levantou-se. Sorria mas tinha os olhos marejados de lgrimas enquanto
estendia a mo para se despedir.
- Obrigada, Mrs. Snow - disse pouco firme. Sim, s vezes  difcil e talvez eu precise de
alguma ajuda, quem sabe! - e os olhos brilharam-lhe com a antiga alegria. - Prometo, se
alguma vez eu prpria no conseguir jogar, jamais esquecerei e ficarei feliz por haver
quem o jogue.
  18. John Pendleton

Uma semana antes do Natal, Pollyanna enviou a sua histria, impecavelmente
dactilografada, para o concurso. Os vencedores dos prmios no seriam anunciados
antes de Abril, segundo dizia a revista, de modo que Pollyanna preparou-se para a
longa espera com a sua caracterstica pacincia.
"No sei porqu, mas no desespero por ainda demorar", dizia para si prpria.
"Assim, tenho todo o Inverno para pensar que posso ganhar o primeiro pr mio. Se
pensar que o vou ganhar, e o ganhar mesmo, nunca me terei sentido infeliz. Por outro
lado, se o no ganhar, no terei passado todas estas semanas infeliz e poderei at ficar
contente com um prmio menor. "
Nos planos de Pollyanna no cabia a possibilidade de no ganhar qualquer prmio. A
histria, to bem dactilografada por Millie Snow at parecia j estar impressa.
Esse ano, o Natal no foi uma poca feliz no solar dos Harrington apesar dos esforos
de Pollyanna. A tia Polly recusou-se em absoluto a autorizar qualquer tipo de festa,
mostrando-se to determinada que Pollyanna nem conseguiu oferecer-lhe um pequeno
presente.
Na vspera de Natal, John Pendleton veio visit-las. Mrs. Chilton no apareceu, mas
Pollyanna, cansada de um dia inteiro com a tia, recebeu-o alegremente. Porm, isto no
trouxe maior satisfao a Pollyanna pois John Pendleton trouxe consigo uma carta de
Jimmy, e a carta pormenorizava os planos que ele e Mrs. Carew faziam para preparar
os festejos de Natal num lar para raparigas trabalhadoras. De fato, Pollyanna no
estava com disposio para ouvir falar das festas dos outros e muito menos da de
Jimmy. John Pendleton, porm, insistiu no assunto, mesmo depois de lhe ter lido
entusiasticamente a carta.
- Que grandes proezas - exclamou ele enquanto dobrava a carta.
- Sim, timo! - murmurou Pollyanna tentando falar com algum entusiasmo.
- E  esta noite. Gostava de l estar.
- Sim, sim - murmurou Pollyanna, tentando parecer entusiasmada.
- Mrs. Carew sabia o que fazia quando pediu a Jimmy para a ajudar. Mas gostava de
saber se lhe agrada fazer de Pai-Natal para tantos jovens!.
- Claro que vai gostar imenso! - disse Pollyanna.
- Talvez. No entanto, e concordars comigo, no tem nada com o aprender a construir
pontes.
- Ah sim!
- Mas acredito que essas jovens nunca tenham uma noite to agradvel como a que vo
passar hoje.
- Sim, claro! - respondeu Pollyanna, tentando evitar que a voz lhe tremesse e
esforando-se intensamente por no comparar a sua infeliz noite de Natal, em
Beldingsville, com a das raparigas, em Boston, com Jimmy.
Fez-se um breve silncio, com John Pendleton a fitar a lareira com ar sonhador.
- Mrs. Carew  uma mulher maravilhosa! - disse ele por fim.
-  verdade! - desta vez, o entusiasmo na voz de Pollyanna era sincero.
- O Jimmy j me descreveu algumas das coisas que ela tem feito por essas raparigas -
disse John Pendleton, continuando a olhar para o fogo. - Na carta anterior, para alm
das coisas, falou-me mais sobre ela, confessando-se admirado com a sua real maneira
de ser e estar na vida.
-  verdade, Mrs. Carew  muito querida! declarou Pollyanna com calor. -  mesmo
muito querida sob todos os aspectos. Eu gosto muito dela.
John Pendleton agitou-se. Virou-se para Pollyanna mostrando uma expresso estranha
nos olhos. E insistiu ainda:
- Eu sei que gostas dela. E tambm sei que existem outras pessoas que gostam dela.
O corao de Pollyanna parou de bater. Uma ideia sbita ocorreu-lhe. Seria que John
Pendleton queria dizer daquela maneira que Jimmy gostava de Mrs. Carew?
- Que quer dizer?
Com um gesto nervoso que lhe era peculiar, John Pendleton ps-se de p.
- Referia-me s raparigas, evidentemente - respondeu ele com o seu sorriso curioso. -
No achas que aquelas cinquenta raparigas devem ador-la?
- Sim, claro -, respondeu Pollyanna que murmurou mais alguma coisa apropriada em
resposta  observao de John Pendleton.
Os seus pensamentos estavam em tumulto e durante o resto da noite deixou o senhor
falar durante quase todo o tempo. E John Pendleton pareceu no se ralar muito com
isso. Inquieto, deu uma ou duas voltas  sala, voltando depois a sentar-se no seu antigo
lugar, retomando a conversa sobre o mesmo assunto.
- Curiosa a questo do Jamie, no ? Ser que ele  mesmo sobrinho de Mrs. Carew?
Como Pollyanna no respondeu o senhor continuou aps um breve silncio.
-  um timo rapaz. Gosto dele. Tem algo de bom e genuno. Ela est muito ligada a
ele. Gostava de saber se ser de fato sobrinho dela.
Fez-se nova pausa. Depois, com a voz ligeiramente alterada, John Pendleton disse:
- Quando penso nisso, no deixa de me parecer estranho que ela no tenha voltado a
casar. Continua a ser uma bela mulher, no achas?
- Sim,  verdade.
Na voz de Pollyanna registrou-se uma ligeira quebra. Tinha acabado de ver o seu
prprio rosto no espelho e nunca se achara a si prpria "uma bela mulher".
John Pendleton continuava com os olhos postos na lareira. O fato de ter ou no
respostas ao que era de responder, parecia ser-lhe indiferente. Aparentemente, parecia
apenas querer conversar. At que, finalmente, se levantou, sem grande vontade, e
despediu-se.
H algum tempo que Pollyanna desejava que ele se fosse embora, para estar s, mas
depois de ele ter partido j achava que teria sido melhor ele ter ficado mais tempo.
Percebera afinal que no queria ficar sozinha com os seus pensamentos.
Para Pollyanna, era agora clarssimo que Jimmy gostava de Mrs. Carew. Isso explicava
o fato de ele ter estado to triste e inquieto aps a partida dela. E seria tambm a razo
pela qual ele a visitara to poucas vezes a partir da. Pollyanna associou igualmente
uma srie de outras circunstncias ocorridas no Vero, de que bem se lembrava e que
reforavam inegavelmente essa sua convico.
Tendo agora a certeza de que Jimmy e Mrs. Carew gostavam um do outro, Pollyanna
tornou-se especialmente sensvel em relao a tudo quanto pudesse fortalecer essa
crena. Em breve descobriu o que esperava. Primeiro, nas cartas de Mrs. Carew.

"Tenho estado muito com o seu jovem amigo Pendleton e cada vez gosto mais dele. Porm,
gostava, s por curiosidade, de conhecer a fonte deste sentimento estranho de j o ter visto
algures."

Depois dessa carta, ela passou a referi-lo frequentemente e Pollyanna achava que a
presena de Jimmy se tornara para Mrs. Carew uma coisa perfeitamente natural.
Noutras fontes, Pollyanna veio ainda a encontrar combustvel para o fogo das suas
suspeitas. John Pendleton,aparecia cada vez mais frequentemente com as suas histrias
sobre o Jimmy e aquilo que ele estava a fazer, sem omitir as referncias a Mrs. Carew.
A pobre Pollyanna chegava por vezes a pensar se John Pendleton no sabia falar de
mais nada que no fosse de Mrs. Carew e do Jimmy.
Havia tambm as cartas de Sadie Dean que lhe falavam de Jimmy e do que ele fazia
com Mrs. Carew. At Jamie, que de vez em quando escrevia, contribuiu para fortalecer
tal ideia.
So dez horas. Estou aqui sentado, sozinho,  espera de Mrs. Carew. Ela e Pendleton
foram a uma das reunies no lar.
Claro, do Jimmy propriamente dito, Pollyanna no tinha quase notcias, de modo que
pensava tristemente que devia ficar contente com isso, pois "se ele no sabe falar de
mais nada seno de Mrs. Carew e das suas raparigas, fico contente por no me escrever
muitas vezes!", desabafou.



 19. Jimmy e Jamie

Pollyanna no foi a nica a achar difcil aquele Inverno. Em Boston, Jimmy Pendleton,
apesar dos muitos esforos para ocupar o tempo e os pensamentos, descobria que nada
conseguia apagar a imagem de um certo par de olhos azuis e sorridentes e a memria
de uma certa voz adorvel.
Jimmy dizia a si prprio que se no fosse Mrs. Carew e o fato de ele lhe poder ser til,
a vida no valeria a pena. Mesmo em casa de Mrs. Carew nem tudo era um mar de
rosas, pois estava l sempre Jamie e este recordava-lhe Pollyanna e os pensamentos
tristes a ela associados.
Estando convencido de que Jamie e Pollyanna gostavam um do outro e estando
igualmente convencido de que ele prprio tinha o dever de honra de se pr de lado e
deixar o caminho livre ao jovem deficiente, nunca lhe ocorreu investigar mais a
questo. Por isso, desgostava-o ouvir falar dela, mormente quando Jamie ou Mrs.
Carew, a propsito de notcias recebidas, a lembravam. Precisava de fazer algum
esforo para os escutar, apesar da dor que lhe assolava o corao. Para Jimmy, uma
Pollyanna que no fosse sua no era mais do que uma fonte de sofrimento e tristeza, e
da que se sentisse aliviado quando deixou Beldingsville.Estar prximo geograficamente
de Pollyanna e ao mesmo tempo to afastado era para ele uma tortura. Um paradoxo,
mas era o que sentia.
Em Boston, com todo o ardor de um esprito inquieto que busca distrair-se de si
prprio, lanou-se ao trabalho de executar os planos de Mrs. Carew em relao s
raparigas trabalhadoras, dedicando a este trabalho todo o tempo que lhe sobrava dos
seus prprios deveres. Tudo isso constitua motivo de grande deleite e gratido para
Mrs. Carew.
Assim passou o Inverno para Jimmy. Aproximava- se a Primavera, florida e verdejante,
repleta de fragrncias. Para si, porm, talvez no fosse uma Primavera feliz enquanto o
seu corao continuasse mergulhado num Inverno de tristeza.
"Ao menos, se eles marcassem as coisas e anunciassem o noivado de uma vez por
todas. Quanto mais no fosse, ficava com uma certeza, e assim acho que suportaria
melhor!", murmurava Jimmy para si prprio cada vez mais frequentemente.
Foi assim que, numa bela manh dos fins de Abril,viu o seu desejo de ter alguma
certeza parcialmente realizado. Eram dez horas da manh de domingo e Mary,na casa
de Mrs. Carew, conduziu-o ao salo de msica dizendo-lhe:
- Vou dizer a Mrs. Carew que j aqui est. Creio que ela o espera.
Nesse salo, por inesperado, Jimmy teve um forte baque ao ver o Jamie sentado ao
piano. E j se preparava para se retirar discretamente quando o rapaz levantou a
cabea, revelando um rosto corado e olhos febris.
- Ento, Carew, aconteceu alguma coisa?
- Aconteceu, se aconteceu! - exclamou o jovem paraltico, agitando nas mos uma carta
aberta. Aconteceu tudo! Diga-me como reagiria se, num instante, lhe surgisse a
oportunidade de pedir em casamento a rapariga que ama? No pense que estou
maluco! Embora esteja doido de alegria! Quer ouvir-me Tenho de desabafar com
algum!
Pendleton levantou a cabea. Era como se, consciente, se preparasse para receber um
murro. Empalidecera, mas a voz manteve-se firme quando respondeu.
- Claro que sim, amigo! Ficarei contente por ouvi-lo.
Carew, porm, quase nem esperara pela resposta, apressando-se a contar com alguma
incoerncia.
- Para si, certamente, no  importante. Dispe de boas pernas e de liberdade. Tem as
suas ambies e as suas pontes.Mas,para mim,isto representa tudo. uma oportunidade
de viver uma vida de homem e, talvez, de realizar uma obra, sem que sejam pontes ou
barragens.  alguma coisa! Algo que demonstrei poder realizar! Oua. Esta carta d-me
a notcia de que uma pequena histria que escrevi ganhou o primeiro prmio num
concurso. Trs mil dlares! E nesta outra carta, uma grande editora aceitou,
entusiasmada, o meu primeiro livro para publicao. Por coincidncia, vieram as duas
esta manh.  ou no  de se ficar louco de alegria?
- Sim,sim! Claro felicito-o,Carew,de todo o corao. - Exclamou Jimmy calorosamente.
- Obrigado! Pense no que isto significa para mim. No que significa poder ser
independente. No que significa, se puder um dia tornar Mrs. Carew orgulhosa e
contente, por ter arranjado um lugar em sua casa e no seu corao a um rapazito
aleijado. J imaginou o que  eu poder declarar-me  rapariga que amo?
- Sim, claro, rapaz! - exclamou Jimmy,com firmeza, apesar de ter empalidecido imenso.
- Porm, mesmo assim, se calhar no devo faz-lo - disse Jamie, irresoluto. - Bem v,
continuo amarrado a estas muletas.
- Mas, Carew... - comeou o outro apressadamente.
Carew levantou a mo decididamente.
- Eu sei o que vai dizer. Peo-lhe que no diga. No poder compreender-me. No
est amarrado a duas muletas. Como criar coragem para falar a Sadie?
- Sadie? - interrompeu Jimmy, abruptamente.
- Sim, Sadie Dean! Est surpreendido! No sabia? Nunca suspeitou do que eu sentia
em relao a Sadie? - exclamou Jamie. - Terei eu conseguido guardar to bem esses
sentimentos para mim prprio? Tenho tentado, mas... - concluiu desanimado.
- Decerto que conseguiu guardar bem, pelo menos de mim - exclamou Jimmy,
alegremente, vendo-se-lhe um olhar mais brilhante. - Ento  de Sadie Dean que gosta.
timo! Felicito-o de novo. - Jimmy quase gaguejava, entusiasmado, depois de perceber
que era de Sadie e no de Pollyanna que Jamie gostava.
- No me felicite ainda. Pouco lhe disse, mas posso dizer mais. E eu a pensar que
todos sabiam! Diga-me, quem pensava ento que fosse, no sendo a prpria Sadie?
Jimmy hesitou. Depois, um tanto precipitado, l se descoseu:
- Pensava que era a Pollyanna. Jamie sorriu e apertou os lbios.
- Pollyanna  uma rapariga maravilhosa e eu gosto dela, mas no mais que isso. E, alm
disso, creio haver outra pessoa que pode falar a esse propsito.
Jimmy corou embaraado.
- Cr que sim? - disse, tentando tornar a sua voz impessoal.
- Claro!  mais que evidente que  o John Pendleton.
- John Pendleton? - Jimmy virou-se de repente.
- O qu? Que h com John Pendleton? - perguntou uma outra voz, a de Mrs. Carew,
que entrava na sala, sorrindo.
Jimmy, que pela segunda vez em cinco minutos tinha visto o mundo que o rodeava
desfazer-se em bocados, mal pde recompor-se para cumprimentar a senhora. Ao
contrrio, Jamie virou-se triunfante.
- Nada de especial. S disse que pensava que John Pendleton teria algo a dizer sobre
Pollyanna gostar de algum. Mas ele...
- Pollyanna e John Pendleton - Mrs. Carew sentou-se apressadamente numa cadeira.
Se os dois jovens que tinha diante de no estivessem absorvidos nos prprios
pensamentos, teriam reparado que o sorriso desaparecera do rosto de Mrs. Carew e
que uma expresso estranha, quase de receio, aparecera nos seus olhos.
- Claro - manteve Jamie. - Ou estavam os dois cegos no Vero? No o viram sempre a
falar com ela com tanto interesse?
- Pensei que ele falasse naturalmente com todos - murmurou Mrs. Carew,
desapontada.
- No tanto como com Pollyanna - insistiu Jamie. - Alm disso, no se lembra daquele
dia em que estvamos a falar de John Pendleton no ter casado e Pollyanna ficar muito
corada e hesitar, dizendo finalmente que ele tinha pensado em casar. Uma vez. Foi
ento que eu fiquei a pensar que existia alguma coisa entre eles. No se lembram?
- Sim, acho que sim... agora que se falou disso - murou Mrs. Carew. - Mas no liguei.
- Ah! Mas isso eu posso explicar - interrompeu Jimmy umedecendo os lbios secos. -
John Pendleton teve em tempos um caso de amor, mas foi com a me de Pollyanna.
- Com a me de Pollyanna? - exclamaram ambos, surpreendidos.
-  verdade! Ele gostou dela, h anos, mas ela no lhe correspondeu. Ela gostava de um
pastor e foi com ele que casou. - Foi o pai de Pollyanna.
- Oh! - respirou de alvio Mrs. Carew, inclinando-se na cadeira. - E foi por isso que ele
nunca mais casou?
- Creio que sim - confessou Jimmy. - Portanto, j v, essa sua ideia no corresponde 
realidade. Ele gostou foi da me de Pollyanna.
- Pelo contrrio, at acho que refora o que eu disse - insistiu Jamie. Se ele gostou da
me e no conseguiu ser correspondido, parece-me natural que goste da filha e a queira
conquistar, no ser?
Mrs. Carew ps-se em p de repente e murmurou com um gesto estranho como se
quisesse pr de parte algo detestvel. - Sim, eu sei, mas... - e no concluiu a frase,
deixando a sala.
Quando regressou, aps cinco minutos, reparou surpreendida que Jimmy se tinha ido
embora.
- Pensei que ele ia conosco ao piquenique das raparigas! - exclamou ela.
- Tambm eu - disse Jamie, franzindo a testa.
- Mas desculpou-se dizendo que tinha surgido uma coisa inesperada e ia deixar a
cidade. Acho que nem percebi bem o que ele disse. Estava a pensar noutra coisa! - e,
radiante, mostrou-lhe as duas cartas que durante todo aquele tempo tinha continuado
a segurar.
- Oh, Jamie! - exclamou Mrs. Carew contente, depois de ler as cartas - Como estou
orgulhosa de ti! - depois, subitamente, os olhos encheram-se-lhe de lgrimas ao ver a
alegria que iluminava o rosto de Jamie.



  20. Jimmy e John

Naquela noite de domingo foi um jovem muito determinado e de expresso muito
sria que desceu na estao de Beldingsville. E foi um jovem ainda mais determinado
que, antes das dez horas da manh seguinte, atravessou as ruas calmas da cidade e subiu
a colina em direo ao solar dos Harrington. Ao ver aparecer uma figura familiar e
querida na estufa, o jovem ignorou a campainha, atravessou o relvado e o jardim e
apareceu inopinadamente a Pollyanna.
- Jimmy! - exclamou ela, quase caindo para trs, de olhos muito abertos.
- De onde surgiu?
- De Boston... a noite passada! Tinha de a ver, Pollyanna.
- Ver-me?
Pollyanna procurava recompor-se. Jimmy parecia to grande, forte e querido, ali
inesperadamente  sua frente, que ela temeu que os seus olhos denunciassem a grande
admirao que tinha por ele.
- Sim, Pollyanna. Eu queria... Bem, isto , pensei que. Melhor, eu receava. Pronto, no
aguento mais, Pollyanna. Tenho de ir direito ao assunto. , tenho-me mantido de
parte, mas acabou-se. Deixou de ser um caso de lealdade. Ele no  aleijado como o
Jamie. Tem ps, mos e cabea como eu. Portanto, se ele ganhar, ter de ser de uma
forma justa. Eu tambm tenho os meus direitos!
Pollyanna olhou boquiaberta.
- Jimmy Pendleton, de que est voc a falar? - perguntou ela.
O jovem sorriu, envergonhado.
- No admira que no saiba. Fui pouco claro, no fui? Sabe, eu prprio tenho estado
perturbado desde ontem, quando descobri atravs do prprio Jamie.
- Descobriu, do Jamie?
- Sim. Quando ele me contou do prmio  que eu soube. Disse-me que tinha acabado
de ganhar um, e...
- Oh, eu sei! - interrompeu-o Pollyanna, ansiosa.
- No foi esplndido? Logo o primeiro prmio de trs mil dlares! Escrevi-lhe uma
carta a noite passada. Quando vi aquele nome compreendi que era o Jamie, o nosso
Jamie. Fiquei to entusiasmada que at me esqueci de procurar o meu nome. E mesmo
depois de o no encontrar, e, portanto, ficar a saber que no recebia nicles, nem sequer
o prmio mais pequeno, continuei to entusiasmada e satisfeita pelo Jamie, que esqueci
tudo.
Jimmy, porm, estava demasiado obcecado pelo seu problema e insistiu.
- Sim, foi timo. Tambm fiquei contente. Mas, Pollyanna, o que ele me disse a seguir
 que foi importante. At a eu pensara que vocs gostavam um do outro. Afinal.
- Pensava que Jamie e eu gostvamos um do outro? - atalhou Pollyanna,
empalidecendo.
-  verdade. Mas afinal, ele gosta  de Sadie Dean. E penso que ela tambm gosta dele.
- Ainda bem. Sinceramente, no sabia.
Pollyanna parou de repente e apanhou uma folha do cho. Quando se ergueu, virara-se
ostensivamente para o outro lado.
- No conseguia sentir-me bem a competir com um adversrio que estava em
desvantagem.  continuou Jimmy. - Assim, pus-me de parte e dei-lhe uma
oportunidade, apesar de quase ter desfeito o meu corao. Foi ento que ontem de
manh descobri. E descobri mais outra coisa, pois Jamie diz que existe outra pessoa
envolvida. Mas eu no posso concordar com ele, Pollyanna. Mesmo pensando em tudo
quanto ele fez por mim. John Pendleton  homem e tem duas pernas como eu para
entrar na corrida. Ele ter que competir comigo.
Entretanto, Pollyanna j se virara para ele, meio enfurecida.
- John Pendleton? Jimmy, que quer dizer, que est a dizer de John Pendleton?
O rosto de Jimmy transfigurou-se de alegria. Estendeu ambas as mos para Pollyanna.
- Ento no  verdade, pois no? Vejo nos seus olhos que no  dele que gosta, estou
certo?
Pollyanna retraiu-se. Estava plida e trmula.
- Jimmy, que quer dizer? Que quer dizer? - insistia ela, confusa.
- Quero dizer que no  dessa maneira que gosta do tio John. Compreende? O Jamie
pensa que gosta dele e que ele gosta de si. Eu, desesperado, at cheguei a pensar que
talvez. Ele est sempre a falar de si.
Pollyanna murmurou em voz baixa e cobriu o rosto com as mos. Jimmy aproximou-se
e, com ternura, colocou o brao sobre os ombros dela. Mas Pollyanna retraiu-se de
novo.
- Pollyanna! No me destroce o corao! - pediu ele. - No gosta nem um pouco de
mim?  isso que no me quer dizer?
Ela deixou cair as mos e olhou-o. O seu olhar tinha uma expresso assustada.
- Jimmy, acha mesmo que ele gosta de mim dessa maneira? - perguntou baixinho.
Jimmy sacudiu impacientemente a cabea.
- Isso j no interessa, Pollyanna. Claro que no sei. Como poderia eu saber? Isso,
porm, no importa, querida. O que importa somos ns. Se no gosta dele e se me der
ao menos uma oportunidade para que lhe faa gostar de mim. - agarrou na mo dela,
tentando pux-la para si.
- No, Jimmy. No devo! No posso! - disse ela, empurrando-o com as duas mos.
- Pollyanna, isso no quer dizer que no gosta de mim, pois no? - reagiu Jimmy.
- No, no  isso - disse Pollyanna hesitante. Mas, bem v, se ele gosta de mim, tenho
de...
- Pollyanna!
- No, no me olhe assim, Jimmy!
- Quer dizer que casa com ele, Pollyanna?
- No. Quero dizer. Sim. acho que sim admitiu, em voz baixa.
- Pollyanna, no pode ser! Destroar-me-ia o corao!
Pollyanna soluou. Tinha escondido o rosto nas mos outra vez. Depois, num gesto
trgico, levantou a cabea e olhou a direito para os olhos reprovadores e angustiados
de Jimmy.
- Eu sei, eu sei... - balbuciou Pollyanna. - Eu tambm despedaarei o meu corao.
Despedao o seu e despedao o meu corao, mas nunca o corao dele!
Jimmy levantou a cabea. Nos seus olhos brilhava um fulgor intenso. Toda a sua
aparncia se modificou. Com uma exclamao triunfante e cheia de ternura, envolveu
Pollyanna nos braos estreitando-a contra si.
- Agora sei que gosta de mim! - suspirou ele ao ouvido, em voz baixa. - Disse que
tambm despedaaria o seu corao. Pensa que agora desistirei de si? Ah, querida, se
pensa que agora vou desistir de si  porque no compreende um amor como o meu.
Pollyanna, diga que me ama, diga-o com os seus queridos lbios!
Durante um longo minuto, Pollyanna abandonou-se ao abrao terno que a envolvia.
Depois, com um suspiro, que era meio de contentamento meio de renncia, comeou a
afastar-se.
- Sim, Jimmy, amo-o. - Os braos de Jimmy voltaram a apertar-se e t-la-iam cingido
muito mais se no houvesse algo no rosto dela que o reteve. - Eu gosto muito de si,
mas no poderia nunca ser feliz consigo sabendo que. Jimmy, no v querido? Primeiro
tenho de saber se sou livre.
- Que disparate, Pollyanna! Claro que  livre! disse Jimmy outra vez enfurecido.
Pollyanna abanou a cabea.
- Com isto suspenso sobre mim, no, Jimmy. No v? Foi a minha me, h muitos
anos, que lhe despedaou o corao, a minha me! E durante todo este tempo ele
passou uma vida solitria, sem amor, por causa dela. Se ele agora vier ter comigo e me
pedir para casar com ele, tenho de lhe dizer que sim, Jimmy. Tem de ser. No lho
posso recusar! No v?
Jimmy no via, no podia ver nada. No podia compreender, por mais que Pollyanna
argumentasse e insistisse chorosa. Mas,  verdade, tambm Pollyanna se mostrava
renitente.
- Querido Jimmy - disse Pollyanna finalmente.
- Temos de esperar.  tudo quanto posso dizer agora. Espero que ele no me ame e,
no creio que me ame. Mas tenho de saber. Tenho de ter a certeza. Temos de esperar
um pouco at descobrirmos, Jimmy... At descobrirmos.
E Jimmy teve que se sujeitar a este plano, embora de corao revoltado.




 21. John Pendleton d a volta  chave

Jimmy regressou nessa noite a Boston num estado em que se misturavam a exaltao da
felicidade, o desespero e a revolta. Atrs de si deixava uma rapariga num estado de
esprito pouco invejvel em relao ao seu. Pollyanna, apesar da sua grande alegria ao
saber do amor de Jimmy, sentia-se tambm desesperadamente aterrorizada com a ideia
de John Pendleton a amar. Porm, felizmente para todos,tal situao confusa no
durou muito, pois John Pendleton que tinha a resoluo do problema, a menos de uma
semana aps a apressada visita de Jimmy, deu a volta  chave e abriu a porta,
dissipando quaisquer dvidas.
Na quinta-feira  tarde, John Pendleton visitou Pollyanna. Tal como aconteceu com
Jimmy, s o viu no jardim a dirigir-se imediatamente a ela. Ao mirar-lhe bem o rosto,
sentiu uma presso no peito.
- J chegou! - disse ele nervoso, enquanto ela, num gesto involuntrio, se virou como se
se preparasse para fugir.
- Espera, Pollyanna,  s um momento,por favor. - pediu o senhor, apressando-se em
direo a ela.
Eu quero falar justamente contigo. Podemos entrar ali? - sugeriu, apontando para a
estufa.
- Sim, porque no? - disse ela, hesitante. Pollyanna sabia que estava a corar, embora
desejasse especialmente naquele momento que isso no acontecesse. E no ajudava
nada o fato de ele querer conversar na estufa, decerto por esse lugar encerrar agora
memrias de Jimmy que lhe eram queridas. S de pensar que ali estava, tremia de
nervos. Para descomprimir, disse:
- Est uma tarde encantadora, no est? No se ouviu resposta. John Pendleton entrara
com pressa na estufa e deixara-se cair numa cadeira rstica, sem mesmo esperar que
Pollyanna se sentasse, procedimento que no lhe era habitual. Pollyanna, olhando
disfaradamente o seu rosto, achou-o surpreendentemente parecido com o antigo rosto
srio e amargurado que recordava da infncia, suscitando-lhe uma exclamao
involuntria.
John Pendleton, no entanto, no se apercebeu. Estava soturno e pensativo. At que
levantou a cabea e encarou sombriamente os olhos espantados de Pollyanna.
- Pollyanna.
- Sim, Mr. Pendleton.
- Lembras-te de como eu era quando me conheceste h anos?
- Sim, acho que sim.
- Era um espcime humano deliciosamente agradvel, no era?
Na sua perturbao, Pollyanna sorriu foradamente.
- Eu gostava de si, senhor.
S depois de pronunciar as palavras  que pensou no modo como elas poderiam soar
aos ouvidos dele. Ficou ento atrapalhadssima, ficando de corrigir-se quando ele
retomou a palavra.
- Eu sei que gostavas, minha querida! Foi essa a minha salvao, Pollyanna. Creio que
nunca compreenders bem quanto a tua confiana infantil e o teu afeto fizeram por
mim.
Pollyanna tentou protestar, mas ele prosseguiu.
- Sim,  verdade! Foi a menina e mais ningum. Pergunto-me ainda se te lembrars de
outra coisa. Acaso te lembras de eu te dizer uma vez que nada seno a mo e o corao
de uma mulher ou a presena de uma criana podiam fazer um lar?
Pollyanna estremeceu e sentiu-se corar, aflita.
- Sim, sim... No... quero dizer, sim, lembro-me. Mas, creio agora que j no  assim.
Quero dizer, atualmente, o seu lar  muito feliz tal como est, e...
- Mas  justamente do meu lar que estou agora a falar, querida... - interrompeu o
homem, impaciente.
- Pollyanna: sabes o gnero de lar que eu ambicionava e como as minhas esperanas se
desfizeram. No penses que estou a culpar a tua me. Nem pensar! Ela obedeceu
apenas ao corao, e fez bem. Fez uma escolha acertada, como veio a demonstrar-se
pelo desperdcio que fiz da minha vida, bem sei que por causa da desiluso. Mas,
Pollyanna, o que  curioso  que acabou por ser a mozinha da prpria a conduzir-me
por fim ao trilho da felicidade!
Pollyanna umedeceu convulsivamente os lbios.
- Oh, Mr. Pendleton, eu...
Ele, porm, delicadamente e num sorriso, no a deixou prosseguir.
- Sim, foste tu, Pollyanna. Foi a tua mo e o teu "Jogo do Contentamento"!
Pollyanna descontraiu-se visivelmente. O pnico do seu olhar comeou lentamente a
desaparecer.
- Durante todos estes anos eu evolui para um homem totalmente diferente, salvo numa
coisa - fez uma pausa, desviou o olhar para longe, retornando depois ao rosto dela com
um ar grave. - Continuo a pensar que  preciso a mo e o corao de uma mulher e a
presena de uma criana para fazer um lar!
- Sim, mas j tem a presena da criana! - respondeu Pollyanna, de novo aterrorizada. -
H o Jimmy!
O homem deu uma gargalhada divertida.
- Eu sei, mas j no se pode considerar o Jimmy uma criana - observou.
- No. Pois claro!
- Alm disso, Pollyanna, eu j decidi. Tenho que conquistar a mo e o corao da
mulher que me falta! - a voz baixou de tom, e tremeu um pouco.
- Ah, sim?
As mos de Pollyanna remexiam-se nervosamente. John Pendleton parecia no ver nem
ouvir nada. Tinha-se posto de p e caminhava de um lado para o outro.
- Pollyanna, se estivesses no meu lugar e fosses pedir a mo  mulher que amas, como
farias?
Pollyanna quase caiu da cadeira, olhando ao mesmo tempo para a porta, como se se
preparasse, aterrorizada para fugir.
- Mas, Mr. Pendleton, eu no o faria. Acho que  muito mais feliz tal como est!
O senhor ficou surpreendido e depois riu amargamente.
- No me digas que  assim to mau?
- Mau? - Pollyanna ficou atrapalhadssima.
- Ser que  essa a maneira que encontraste para me suavizar o desgosto que terei
quando me disseres que ela no me quer?
- No. Acredito que ela venha a dizer que sim. Porque no? - foram as palavras que a
jovem conseguiu dizer, aterrorizada. - Mas estava a pensar que se a mulher no gosta
de si, seria bem mais feliz sem ela, e. - o olhar que viu surgir no rosto de Pendleton
levou-a a parar.
- Eu no a quero se ela no gostar de mim.
- Claro que no. Bem me parecia - disse Pollyanna sentindo-se um pouco mais aliviada.
- Alm disso, como  uma mulher madura, ela deve saber o que quer - a voz do
homem era grave, ligeiramente reprovadora.
- Oh! - exclamou Pollyanna, aliviada e com alegria. - Ento gosta de uma pessoa... -
Pollyanna conseguiu no ltimo momento evitar dizer "outra pessoa".
- Ento no  isso que tenho estado a dizer? - riu John Pendleton, meio aborrecido. -
O que eu quero saber  se conseguirei fazer com que ela goste de mim.
Era a que eu estava a contar com a tua ajuda, Pollyanna.  que ela  muito tua amiga.
- Ah ? - perguntou Pollyanna. - Ento ela tem que gostar de si. Temos de fazer com
que goste! Talvez at j goste, quem sabe? - Fez-se uma longa pausa antes da resposta.
- Pensando melhor, acho que no lhe vou dizer. . No consegues adivinhar?. Mrs.
Carew.
- Oh! - explodiu Pollyanna com incontida alegria. - Que bom! Estou to contente,
muito contente!
Uma hora depois, Pollyanna escreveu uma carta a Jimmy. Era confusa, incoerente e
ilgica, mas cheia de alegria. Jimmy deduziu a maior parte do que ela queria dizer a
partir do que no estava escrito. Afinal, precisaria ele mais do que isso?
"Oh, Jimmy, ele no me ama a mim. Ama outra pessoa. No posso dizer-lhe quem ,
mas no se chama Pollyanna."
Jimmy s teve tempo de apanhar o comboio das sete para Beldingsville.
                muitos
  22. Depois de muitos anos

Pollyanna estava to contente nessa noite depois de ter enviado a carta a Jimmy, que
no conseguiu ficar calada. Como sempre, antes de se ir deitar, subiu ao quarto da tia.
Nessa noite, aps as perguntas habituais, ia a apagar a luz quando um impulso sbito a
levou a sentar-se na cama da tia.
- Tia Polly, estou to contente, to contente, que tenho de dizer- lhe uma coisa. Posso?
- Tens de me dizer uma coisa! Claro que sim. So boas notcias, no?
- Sim, tia, acho que sim - corou Pollyanna. Espero que fique contente. Claro que o
Jimmy tambm lho h-de dizer um dia, mas eu quero faz-lo primeiro.
- Jimmy? - o rosto de Mrs. Chilton alterou-se perceptivelmente.
- Sim, quando ele me pedir em casamento - disse Pollyanna, hesitante e visivelmente
corada. - A minha felicidade  tal que tinha de dizer-lhe.
- Pedir-te em casamento? - Mrs. Chilton sentou-se na cama. - Queres dizer que h
alguma coisa de srio entre ti e o Jimmy Bean?
Pollyanna sentiu-se desolada.
- Porqu, tia, pensei que gostava do Jimmy!
- Eu gosto, no seu devido lugar. E esse lugar no  o de marido da minha sobrinha.
- Tia Polly!
- Vamos l menina, no te surpreendas. Isso  um disparate e ainda bem que estou a
tempo de impedir que isso v mais longe!
- Mas, tia Polly, j vamos longe. Eu j... Quero dizer, gosto muito dele.
- Ento tens de deixar de gostar, Pollyanna, pois nunca permitirei que cases com
Jimmy Bean.
- Mas porqu, tia?
- Primeiro e principalmente porque no sabemos nada dele.
- Mas, tia Polly, ns conhecmo-lo h imenso tempo, desde que eu era pequenina!
- Sim, e o que era ele? Um fugido do orfanato! No sabemos nada da sua famlia.
- Mas eu no vou casar com a famlia dele! Com uma exclamao impaciente, a tia
deixou-se cair na almofada.
- Pollyanna, ests a fazer- me mal. O meu corao est a palpitar. J no vou conseguir
dormir esta noite. No podes deixar isto para amanh?
Pollyanna ps-se imediatamente de p perturbada e arrependida.
- Sim, claro, tia! Amanh vai pensar de maneira diferente, tenho a certeza! - disse a
rapariga, com voz trmula indo apagar a luz.
Mas a tia Polly no se sentiu "diferente" na manh seguinte. A sua opinio, se possvel,
era ainda mais determinada. Pollyanna argumentava em vo. Bem procurou explicar,
inutilmente, que a sua felicidade estava em jogo! A tia, porm, obstinadamente, no
aceitava a ideia, sequer. Chegou at a avisar Pollyanna da gravidade quanto aos
possveis malefcios da hereditariedade, dados os perigos em casar com uma pessoa
cuja famlia no era conhecida. Apelou mesmo para o seu sentido do dever e gratido
quanto a ela prpria,recordando-lhe como a acolhera naquela casa e avisando-a de que
destroaria o seu corao com tal casamento, conforme o fizera sua me.
Quando o prprio Jimmy, radiante, chegou s dez horas, encontrou uma Pollyanna
chorosa e assustada, surpreendentemente a tentar evitar que ele entrasse.
Plido, segurando-a com ternura, ele quis uma explicao.
- Pollyannna, minha querida, que se passa?
- Oh! Jimmy, Jimmy! Porque vieste? Ia escrever- te a... - lamentou Pollyanna.
- Mas j me escreveste, querida. Recebi a carta ontem  tarde, ainda a tempo de
apanhar, felicssimo, o comboio.
- No... Nessa altura eu no sabia que no podia...
- No podias o qu? No me vais dizer agora que existe outra pessoa que gosta de ti e
que vou ter de esperar... - perguntou ele, segurando-a.
- No, no, Jimmy! No me olhes assim. No suporto...
- Explica-te! Pollyanna! Diz- me o que se passa, por favor!
- No posso casar contigo.
- Pollyanna, no me amas?
- Sim. Oh, sim.
- Ento vais casar comigo! - vociferou Jimmy triunfante, envolvendo-a nos braos
outra vez.
- No, no, Jimmy, no compreendes.  por causa da tia Polly - disse Pollyanna,
tentando libertar-se.
- A tia Polly?
- Sim, ela no me deixa!
- Oh! No! - Jimmy inclinou a cabea para trs com uma gargalhada. - Temos de tratar
da tia Polly. Deve julgar que vai perder a sua menina, e temos de mentaliz-la que vai
antes ganhar um novo sobrinho! - concluiu, com ar importante.
Mas Pollyanna no sorriu e abanou a cabea desesperadamente.
- No, no, Jimmy! No compreendes! Ela... como te hei-de dizer? Ela ope-se a ti,
por minha causa.
Os braos de Jimmy afrouxaram um pouco e os seus olhos pestanejaram.
- Acho que no a posso censurar. Claro que no sou um deslumbramento - admitiu ele
constrangido - no entanto esforar-me-ei por te fazer muito feliz.
- Acredito que sim. Eu sei que sim - protestou Pollyanna, cheia de lgrimas.
- Ento por que no me ds uma oportunidade, Pollyanna? Mesmo que ela, de
princpio, no aprove?
Talvez com o tempo, j casados, a possamos conquistar.
- Mas eu nunca poderia fazer isso - lamentou-se Pollyanna -, depois do que ela me
disse. O seu consentimento  indispensvel... Fez tanto por mim e depende muito de
mim! Ela agora no est nada bem,Jimmy. Ultimamente tem sido to querida e tem-se
esforado tanto por jogar o jogo, apesar de toda a sua infelicidade. E at chorou e me
pediu que no lhe destroasse o corao como a minha me lhe fez h muito tempo.
Pois , Jimmy, eu no posso contrari-la depois de tudo o que ela fez por mim.
Pollyanna fez uma pausa e depois, com um rubor muito ntido na fronte, continuou.
- Jimmy, se pudesses dizer alguma coisa  tia Polly sobre o teu pai e a tua famlia...
Jimmy deixou cair os braos. Deu um passo atrs.
As cores abandonaram-lhe o rosto.
-  por causa disso? - perguntou.
-  sim - Pollyanna aproximou-se e tocou timidamente no brao dele. - No penses
que sou eu que me preocupo com isso, Jimmy. Eu no me preocupo. Nada disso. Eu
sei que o teu pai e a tua famlia eram pessoas de bem. Mas ela... Jimmy, oh Jimmy, no
me olhes assim!
Jimmy, com um murmrio em voz baixa, afastou- se dela e abandonou a casa.
Depois de abandonar o solar dos Harrington,Jimmy foi diretamente para casa e
procurou John Pendleton. Descobriu-o na grande biblioteca onde, alguns anos antes,
Pollyanna procurara, receosa, "o armrio onde John Pendleton tinha guardado o seu
esqueleto".
- Tio John, lembra-se do pacote que meu pai me deixou? - perguntou Jimmy.
- Sim, que se passa filho? - disse John Pendleton assustadoramente surpreendido ao ver
a expresso de Jimmy.
- Tenho de abrir esse pacote.
- Mas... e as condies?
- Tem mesmo de ser. Quer fazer-me esse favor?
- Sim, meu filho, claro, se insistes! Mas...
- Tio John, como j deve ter adivinhado, eu amo Pollyanna. Pedi-a em casamento e ela
aceitou.
O senhor deu uma exclamao de satisfao, mas o jovem no alterou a sua expresso
grave.
- Ela diz agora que no pode casar comigo,porque Mrs. Chilton se ope. Ope-se a
mim.
- Ope-se a ti? - os olhos de John Pendleton brilharam de fria.
- Sim. Descobri a razo quando Pollyanna me perguntou se eu no sabia nada sobre
meu pai e minha famlia.
- Que disparate! Pensei que Polly Chilton fosse mais sensata. Isso  mesmo do carter
dela! Os Harrington sempre foram preconceituosos e orgulhosos, doentiamente
tradicionalistas e conservadores.
- Eu ia contar a Pollyanna como meu pai era bom, mas depois lembrei-me de repente
do pacote e do que estava escrito nele. Porm, no me atrevi a dizer uma palavra sem
saber o que continha aquele "envelope".
Havia qualquer coisa que o meu pai no queria que eu soubesse antes de fazer trinta
anos, idade em que eu seria totalmente adulto e poderia aguentar fosse o que fosse.
Percebe? Existe um segredo, algures, nas nossas vidas. Tenho de conhecer esse segredo
e tem de ser j.
- Mas, Jimmy, no sejas to trgico! Pode ser um bom segredo! Talvez seja algo que
gostes de saber!
- Talvez. Mas algo de importante conter para que quisesse que o abrisse s depois de
fazer trinta anos! No, tio John, inclino-me para que seja... sei l! S sei que me quis
poupar at eu ter idade suficiente para suportar... No quero culpar meu pai! Seja o
que for,  alguma coisa que ele no podia deixar de fazer, tenho a certeza. Mas, a sua
memria que me perdoe, tenho mesmo de saber o que . Importa-se de o ir buscar?
John Pendleton levantou-se imediatamente.
- Vou busc-lo - disse. Trs minutos depois Jimmy tinha-o nas suas mos.
- Preferia que fosse o senhor a ler, por favor. Depois conte-me.
- Mas Jimmy, eu... Est bem. - Com um gesto decidido, John Pendleton agarrou numa
faca, abriu o "envelope" e retirou o contedo. Era um conjunto de vrios documentos
atados e uma folha dobrada, aparentemente uma carta. John Pendleton abriu primeiro
essa carta. Enquanto a lia, Jimmy, tenso e contendo a respirao observava o rosto dele.
E assim viu-lhe um olhar de espanto, de alegria e mais qualquer outra coisa que no
soube definir na expresso de John Pendleton.
- Tio John, o que ? Diga-me o que . J!
-  melhor que leias tu prprio - respondeu o senhor, estendendo a carta a Jimmy. E
Jimmy leu o seguinte:

"Os documentos aqui includos so a prova legal de que o meu filho Jimmy  realmente James
Kent, filho de John Kent, que casou com Doris Wetherby, filha de William Wetherby, de Boston.
Existe tambm uma carta, na qual explico a meu filho porque o mantive afastado da famlia de
sua me, durante todos estes anos. Se este envelope for aberto por ele, aos trinta anos, ele ler esta
carta e espero que perdoar a um pai que receou perd-lo completamente, e por isso adotou esta
medida drstica para o conservar. Se o envelope for aberto por estranhos, devido  sua morte,
peo que a famlia da me em Boston seja notificada imediatamente e o mesmo lhe seja entregue.
John Kent"

Jimmy estava plido e abalado quando voltou a olhar para John Pendleton.
- Sou eu, ento eu sou o desaparecido Jamie?disse gaguejando.
- Essa carta diz que tens documentos que o provam.
- Ento sou sobrinho de Mrs. Carew.
- Claro.
- Mas custa-me a crer! - fez- se uma pausa antes de o rosto de Jimmy ser inundado por
uma nova expresso de alegria. - Ah, agora sei quem sou! J posso falar a Mrs. Chilton
da minha famlia.
- Acho que sim - retorquiu John Pendleton secamente. - Os antepassados dos
Wetherbys de Boston remontam ao tempo das cruzadas. Isso deve satisfaz-la. Quanto
a teu pai, ele tambm era de boas famlias, disse-me Mrs. Carew. Apesar de ser bastante
estranho e de a famlia no gostar dele.
- Sim. Pobre pai! E que vida deve ter passado comigo durante todos aqueles anos,
receando sempre a perseguio da famlia. Agora compreendo muitas coisas, que me
confundiam antes. Uma vez, uma mulher chamou-me Jamie e ele ficou zangadssimo!
Agora percebo porque  que ele se foi logo embora nessa noite sem sequer esperar pelo
jantar. Pobre pai! Foi logo a seguir a isso que ele ficou doente. No conseguia mexer as
mos nem os ps, e em breve deixou de conseguir falar. Lembro-me que quando
morreu tentou dizer-me qualquer coisa. Agora, posso presumir que quisesse falar-me
disto, aconselhando-me talvez a ir ter com a famlia de minha me, mas, na altura,
pensei que me estava a dizer apenas para guardar bem o "envelope". Foi o que eu lhe
prometi. E por isso  que ele no ficou satisfeito, parecia antes ter ficado mais
preocupado. Eu no compreendi. Pobre pai!
- Vamos ver esses documentos - sugeriu John Pendleton. - Olha, h tambm uma carta
dirigida a ti. No a queres ler?
- Sim, claro. - O jovem riu um pouco envergonhado e olhou para o relgio. - Estava a
pensar quando  que poderia voltar ao solar para contar a Pollyanna.
John Pendleton fez uma expresso de reflexo. Depois, olhando para Jimmy, hesitou e
disse:
- Sei que queres ver Pollyanna e no te critico, mas parece-me que, dadas as
circunstncias, deves primeiro ir ter com Mrs. Carew e mostrar-lhe estes documentos
- estendeu-lhos.
Jimmy concordou resignado.
- Est bem,  isso que farei.
- E se no te importas, eu vou contigo. Alm disso, tenho uma pequena questo a
tratar com tua tia. Vamos no comboio das trs?
- Vamos sim senhor! Ento sou o Jamie! Ainda no estou convencido! - exclamou o
jovem, caminhando incansavelmente de um lado para o outro da sala. - Acha que... -
interrompeu ele corado. - Acha que a tia Ruth se vai importar muito?
John Pendleton abanou a cabea. Nos seus olhos surgiu um pouco da antiga
melancolia.
- Claro que no, meu rapaz! Estou a pensar em mim...
- Em si! Acha que alguma coisa faria com que eu me desligasse de si? No tem que se
preocupar com isso. E ela tambm no se vai importar. Tem o Jamie e... - uma
expresso de desnimo abateu-se sobre ele - Tio John, esquecia- me do Jamie. Isto vai
ser difcil para ele!
- J pensei nisso. Ser inevitvel. No entanto, ele foi adotado legalmente, no 
verdade?
- Sim, sim, isso no est em causa.  s por no ser o verdadeiro Jamie e ser aleijado!
Ficar destroado. Ouvi-o falar. Alm disso, Pollyanna e Mrs. Carew, as duas, quase
me asseveraram estar certas de ser ele o Jamie. Que hei-de eu fazer?
- No sei, meu rapaz. Mas creio que no poders fazer outra coisa.
Calaram-se ambos. Jimmy parou de andar de um lado para o outro. At que, de
repente, virou-se animado e adiantou:
- H uma maneira e vou segui-la. Tenho a certeza de que Mrs. Carew h-de concordar.
No lhe contaremos a ele! Diremos a Mrs. Carew, a Pollyanna e  tia. A ela  que no
pode deixar de ser.
- Boa ideia, meu rapaz. Quanto ao resto. - John Pendleton fez uma pausa de dvida.
- Ningum tem nada com isso!
- O sacrifcio vai ser grande. Pondera bem!
- Ponderar? J o fiz e no vai ter importncia. Com Jamie no outro prato da balana 
que no o poderia ser.  tudo!
- No te critico e penso que ests certo. Alm disso, creio que Mrs. Carew concordar
assim que souber que encontrou finalmente o verdadeiro Jamie.
- No  verdade o que sempre disse que me vira algures? - rematou Jimmy, a brincar. -
Quanto tempo falta para o comboio partir? Estou pronto!
- Eu ainda no - riu John Pendleton. - S daqui a algumas horas partiremos - concluiu
ele, enquanto se levantava e saa da sala.




               Aladino
   23. Um novo Aladino

Os preparativos de John Pendleton para a partida foram feitos com duas excees,
tornadas em duas cartas. Uma, dirigida a Pollyanna, e outra, a Mrs. Polly Chilton.
Foram elas entregues, com instrues rigorosas, a Susan, a sua governanta, que deveria
proceder  entrega imediatamente aps a partida deles. E tudo isso sem conhecimento
de Jimmy.
Ao aproximarem-se de Boston, John Pendleton disse a Jimmy:
- Meu rapaz, tenho de pedir- te um favor, ou melhor, dois. O primeiro,  que no
digas nada a Mrs. Carew antes de amanh  tarde; o outro, deixares-me ir primeiro ser
teu embaixador, contigo a aparecer em cena s depois das quatro horas. Concordas?
- Est bem! - respondeu Jimmy. - Satisfaz-me a ideia, at porque estava a pensar como
haveria de quebrar o gelo e, assim, tenho quem o faa por mim.
- timo! Ento, agora, vou tentar que a tua tia venha ao telefone, para marcar a visita.
Fiel  promessa, Jimmy no apareceu na manso dos Carew antes das quatro da tarde
do dia seguinte.
Mesmo ento, sentiu-se to embaraado que passou duas vezes diante da casa antes de
conseguir a coragem suficiente para subir a escada e tocar  campainha.
Em breve, porm, chegou  presena de Mrs. Carew. Voltara a ser ele prprio, pois ela
p-lo imediatamente  vontade e abordou a situao com muito tacto. Ao princpio
houve algumas lgrimas e algumas exclamaes incoerentes. O prprio John Pendleton
teve de lanar apressadamente a mo ao seu leno. Mas em breve foi restaurada a
tranquilidade normal e s o brilho terno dos olhos de Mrs. Carew e a felicidade que se
espelhava em Jimmy e John Pendleton marcavam aquela ocasio como algo de
incomum.
- Acho que a sua atitude, por causa do Jamie,  to bonita! - exclamou Mrs. Carew,
passado um pouco. - Por razes bvias, vou continuar a chamar-lhe Jimmy. Alm de
que tambm gosto mais desse nome. Acho que est a proceder muito corretamente. Eu
prpria farei algum sacrifcio - continuou ela, com lgrimas nos olhos -, pois teria
imenso orgulho em o apresentar ao mundo como meu sobrinho.
- E, tia Ruth, eu... - Jimmy parou imediatamente de falar face a uma exclamao aflita
de John Pendleton, denunciadora da presena do Jamie e da Sadie Dean, acabados de
entrar.
O Jamie, espantado e plido, exclamou:
- Tia Ruth! Tia Ruth no quer dizer que...
Os rostos de Mrs. Carew e de Jimmy ficaram sem pinga de sangue. John Pendleton,
porm, avanou elegantemente e disse:
- Sim Jamie, porque no? Eu ia dizer-lhe em breve, mas, assim, digo-lhe j.
Jimmy deu um passo adiante, aflito, mas John Pendleton silenciou-o com um olhar.
- H pouco, Mrs. Carew fez de mim o homem mais feliz do mundo, ao responder-me
afirmativamente a uma pergunta. Portanto, se Jimmy me trata por tio John, porque
no h-de tratar Mrs. Carew por tia Ruth?
- Oh! - exclamou Jamie contentssimo, enquanto Jimmy, sob o olhar firme de John
Pendleton, salvou a situao, evitando manifestar a sua surpresa e satisfao.
Naturalmente, Mrs. Carew tornou-se o centro do interesse de todos e o perigo foi
ultrapassado. S Jimmy ouviu John Pendleton segredar-lhe, um pouco depois:
- Ento, meu maroto, vs como no te vou perder! Queremos-te ambos!
Ainda se ouviam exclamaes e parabns, quando Jamie, ainda mais satisfeito, se virou
para Sadie Dean, dizendo enigmtico:
- Sadie, vou dizer-lhes agora!
E a expresso felicssima de Sadie denunciou desde logo a todos o que se passava,
antes, portanto, de Jamie comear a falar. Seguiram-se mais parabns e exclamaes de
alegria, abraando-se todos profusamente.
Jimmy, comeou a olh-los com algum desconsolo.
- Est tudo muito bem, para vocs - queixou-se.
- J se tm uns aos outros, e eu? No entanto, posso dizer-vos que se uma certa jovem
aqui estivesse, tambm teria uma coisa para vos comunicar.
- Espera s um minuto, Jimmy - interps-se John Pendleton. - Vamos fazer de conta
que eu sou o Aladino e vou esfregar a lmpada. Mrs. Carew, d-me licena que chame
a Mary?
- Sim, com certeza! - murmurou a senhora,que, tal como os outros, ficara surpreendida.
Momentos depois Mary surgiu  entrada da sala.
- Foi Miss Pollyanna que chegou h momentos? - perguntou John Pendleton.
- Sim, senhor, ela est aqui.
- Importa-se de dizer-lhe que entre, por favor?
- Pollyanna, aqui? - exclamaram todos em coro, quando Mary saiu, e Jimmy virou-se
muito plido e um tanto corado:
- Sim. Mandei-lhe uma nota atravs da minha governanta, ontem  tarde. Tomei a
liberdade de lhe pedir para vir passar alguns dias consigo, Mrs. Carew. Pensei que a
jovem precisasse de descansar um pouco e a minha governanta recebeu instrues para
permanecer com Mrs. Chilton e tratar dela. Escrevi tambm uma nota a Mrs. Chilton -
acrescentou, virando-se de repente para Jimmy com uma expresso significativa nos
olhos. - E pensei que depois de ela ler o que lhe escrevi, deixaria vir Pollyanna. Est
visto que deixou mesmo.
E, de fato, Pollyanna a estava a transpor a porta, corada, de olhos muito abertos, e um
tanto tmida e interrogativa.
- Pollyanna, minha querida! - gritou Jimmy, que correu para ela sem hesitar, tomando-
a nos braos e beijando-a.
- Oh, Jimmy, assim, diante de toda a gente! protestou Pollyannna embaraada.
- Nem que fosse no meio da Avenida Whashinton tinha de beijar-te - confessou
Jimmy. - Basta olhares ao teu redor.
E Pollyanna olhou e viu.
Junto a uma janela, de costas voltadas, estavam Jamie e Sadie Dean. Ao p de outra
janela, tambm de costas voltadas, estavam Mrs. Carew e John Pendleton.
Pollyanna sorriu to adoravelmente que Jimmy voltou a beij-la.
- Oh, Jimmy, como  maravilhoso! - murmura ela docemente. - A tia Polly, agora, j
sabe de tudo e est tudo bem. Embora, por mim, estivesse sempre tudo bem. Como ela
se estava a sentir to mal por minha causa! Agora est feliz e eu tambm Jimmy, estou
to contente, to CONTENTE com tudo!
Jimmy conteve a respirao com uma alegria que at doa.
- Minha querida, s desejo que te sintas sempre assim - disse ele, estreitando-a com
fora.
- Tenho a certeza que sim - suspirou Pollyanna com um olhar pleno de confiana.




                                    FIM
